O mundo de Innistrad vem descendo rumo à loucura há algum tempo; de cultistas a cátaros, nenhuma mente está segura. Até os anjos foram vítimas. A própria Avacyn enlouqueceu, transformando-se de protetora em monstro e espalhando uma devastação inimaginável até sobre os mais fiéis de sua igreja. Então ela foi destruída. Sem sua protetora angelical, Innistrad ficou exposta a forças esmagadoras de trevas e mal. Agora, os poucos no plano que ainda não perderam o juízo restam a se perguntar se este é o fim. Enquanto o mundo se desequilibra, iniciando sua descida final, o povo reza por qualquer coisa ou pessoa poderosa o suficiente, boa o suficiente, para ocupar o lugar de Avacyn, para protegê-los da escuridão enlouquecedora.
***
Dias Atuais
O perfume de sangue de anjo. Não havia nada parecido em todo o Multiverso: um buquê penetrante, doce e salobro, tingido de especiarias e agudo de poder. O aroma atingiu as narinas largas de lobo de Arlinn enquanto ela subia o declive íngreme de um desfiladeiro em direção à cidade de Lambholt sob cerco. Ela rosnou ao cheiro, amaldiçoando. Não fora rápida o suficiente. Ela deveria ter sido a única a tirar o sangue, a derrubar o anjo, a ganhar sua ira. Ela era a protetora de Ulvenwald.
Mais rápido.
Ela testemunhara a descida do anjo louco sobre Lambholt de longe; o ser divino mergulhara, passando por telhados e torres. Gritos de horror e flashes de luz seguiram-se. Momentos depois, o anjo emergira, com as asas ensanguentadas e a espada em chamas, apenas para mergulhar mais uma vez.
Anjo da Lâmina Flamejante | Arte de Cynthia Sheppard
Embora Arlinn não tivesse visto tudo o que acontecera além dos telhados, conseguia imaginar bem o suficiente. Havia apenas um certo número de coisas que anjos loucos faziam. Estavam quebrados, inconsoláveis, gritando e chorando pela morte de Avacyn enquanto vagavam pelo céu. Parecia impossível que o anjo estivesse realmente morto, mas não havia como negar o buraco no tecido de Innistrad. Um buraco que estava se enchendo rapidamente com lamentos de inocentes, rugidos de chamas e o cacarejo de seres corrompidos.
O trompete desesperado de uma trompa de cátaro — de uma Noite de Ouro, ela conhecia o tenor — impeliu Arlinn adiante. Ela convocou força da floresta, bombeando os músculos grossos de suas pernas, empurrando-se encosta acima. Mais rápido. Mas temia que já fosse tarde demais. Sangue fora derramado, e não apenas angelical. Sangue humano também. Os cátaros. Arlinn conseguia visualizá-los, armas sagradas erguidas, invocações mágicas em seus lábios. Mas não seriam abençoados com o poder pelo qual oravam; Avacyn não estava lá para responder às suas orações.
***
Anos Atrás
"Arlinn Kord, por estar aqui esta noite, você respondeu ao chamado da santa protetora, Avacyn. Não há benção maior que aquela que você está prestes a receber. Por favor, dê um passo à frente."
O Arquimago Reeves estava no altar da Noite de Ouro, gesticulando para que Arlinn se juntasse a ele e ao Arquimago Rembert. Os arquimagos não podiam ter ideia do quanto aquele momento significava para Arlinn. Eles nunca entenderiam plenamente — ela não podia contar a eles. Era muito mais do que o sacramento da arcanjo, extraordinário como pudesse ser; para ela, era liberdade. Mas se ela explicasse aquilo aos homens sagrados diante dela, estaria tudo acabado.
Arlinn levantou-se de sua posição curvada de súplica e subiu os degraus para encontrar os dois arquimagos. Reeves não olhou para ela, mas Rembert desviou o olhar, com um sorriso em seus lábios finos. Arlinn retribuiu o sorriso o melhor que pôde, os lábios tremendo. Fixou os olhos nas visões familiares ao seu redor na tentativa de aplacar as ondas alternadas de ansiedade e antecipação que surgiam nela. A capela nos Campos de Elgaud era pequena mas longe de ser simples. O altar brilhava com detalhes dourados portando o símbolo de Avacyn. Tecidos brancos grossos estavam pendurados no teto em todos os lados, criando a sensação de uma alcova protegida, que se enchia com nuvens de incenso, pacíficas porém poderosas.
"Em nome de Avacyn e com o poder a mim conferido por sua santa igreja, confiro a você esta benção", o Arquimago Reeves começou a entoar. Arlinn conhecia bem as palavras. Ouvira aquela oração inúmeras vezes ao longo dos últimos anos como a única cátaro que estivera presente em cada cerimônia de benção de arquimago. Observara aqueles que foram antes dela parados naquele mesmo altar recebendo o sacramento mais alto. A cada vez, ela se perguntava se algum dia seria ela; a cada vez, de seu assento no banco mais próximo ao altar, ela duvidara de si mesma; e a cada vez, do mesmo assento, ela lembrara a si mesma de acreditar no poder de Avacyn. Agora, aqui estava ela.
O Arquimago Reeves ergueu a grossa corrente de ouro com o medalhão reluzente, o manto da Noite de Ouro. "Arlinn Kord, apresento a você este manto, o símbolo do amor infinito e da proteção incessante de Avacyn."
No momento correto, Arlinn baixou a cabeça, e Reeves deslizou a corrente ao redor de seu pescoço. O medalhão era mais pesado do que ela imaginara. Conseguia sentir o peso dele em seu peito e conseguia perceber seu poder sagrado. Era o poder de que ela precisava, o poder que viera buscar ali. Luz. Bondade. Verdade.
Sabia que deveria ficar parada, imóvel durante a cerimônia, no entanto não conseguiu se conter de tocá-lo, permitindo que repousasse em sua palma, correndo os dedos por sua circunferência. Era belo e puro, e agora era dela.
A mão do Arquimago Rembert apertou o ombro dela. "Você deve saber quão orgulhoso eu estou", sussurrou ele enquanto Reeves continuava o cântico.
Um turbilhão de emoções acumulou-se na garganta de Arlinn, impedindo-a de responder, mas ela encontrou os olhos de Rembert, desejando que ele visse sua gratidão em seu olhar. Ele fora sua constante ao longo dos anos, um mentor que a impulsionara, fora paciente com ela e a ajudara a aprimorar suas forças. Ele a conhecia melhor que ninguém — e no entanto, nem ele sabia a verdade.
Arlinn desviou o olhar abruptamente do dele. Quantas vezes quisera contar a ele? Mas não podia. Se ele soubesse a verdade sobre ela, sobre o que ela era, a mão dele seria forçada contra ela. O coágulo de emoções em sua garganta soltou-se e infiltrou-se em seu peito, tornando-se uma culpa gélida. Arlinn recuou daquilo. Prometera a si mesma que não sentiria mais aquela culpa, não depois desta noite, mas não era tão fácil de descartar quanto ela desejava. Imagens de seus selos, centenas deles que ela fabricara contra a maldição da licantropia, lampejaram em sua mente. A sensação do luar em sua pele. Os uivos que ouvia tarde da noite. Mantivera o segredo todo esse tempo, de todos eles. Tinha que fazê-lo. Um licantropo não poderia ser um arquimago da Noite de Ouro, e Arlinn tinha que se tornar uma arquimaga da Noite de Ouro. Era aquela benção que a salvaria de sua maldição.
A benção de Avacyn era mais forte que o mal dentro dela. Reprimiria a selvageria. Todos esses anos, era para isso que ela vinha trabalhando. Depois desta noite, seria capaz de confiar em si mesma. Finalmente, e absolutamente.
Soltou o ar, um fôlego que parecia estar segurando há anos. Olhou de volta para Rembert e sustentou o olhar dele enquanto Reeves completava o cântico da Noite de Ouro.
"E agora, oremos, juntos." Reeves assentiu para Arlinn, e ela se juntou a ele ao iniciar a oração final. "Querida Avacyn, protetora de todos, Santa que nos concede poder, nós—"
"É um ataque!" O grito cortou o ar carregado de incenso, e os tecidos brancos grossos enfunaram, expondo o altar a uma rajada de vento frio que veio pela porta. "Diabos em Havengul! Hordas deles!" Era o Cátaro Leighton quem gritava, correndo pelo corredor em direção ao altar, sua espada erguida. "O Revoar da Noite de Ouro mandou chamá-los." Ele subiu tropeçando os degraus até Reeves. "Pediram a ajuda dos arquimagos."
"Então cavalgamos!" Reeves despojou-se do robe cerimonial que vestia, já seguindo Leighton de volta pelo corredor.
Rembert seguiu o exemplo. "Arquimaga Kord, sua lâmina!"
Arlinn sobressaltou-se. Aquela era ela. Ele a estava chamando. Uma arquimaga. "Mas a oração. Não terminamos." Sabia que era uma coisa tola a dizer num momento daqueles, mas sua mente estava girando, suas emoções em carne viva. Todo esse tempo ela estivera antecipando aquele momento, e agora era como se ele tivesse sido deixado pendente, como um fio de um manto de montaria, tão propenso a ser arrancado quanto a desvendar o restante do manto. Precisava saber que estava feito; precisava saber que era finalmente e plenamente uma arquimaga.
Rembert abriu a boca como se para repreendê-la, mas então seu olhar suavizou ao encontrar os olhos dela. Parou à porta. "Você me perguntou antes desta noite começar se eu acreditava que você estava pronta para se tornar uma arquimaga da Noite de Ouro."
Arlinn assentiu. "Perguntei."
"E o que eu disse então permanece verdade agora. Em minha mente você tem sido uma arquimaga desde que chegou pela primeira vez. Nunca vi uma aluna mais brilhante e promissora. Agora você tem em nome o que sempre teve em coração. Você é uma da Noite de Ouro, Arlinn Kord, vinculada pelo sacramento que nos une, vinculada ao anjo e uns aos outros, para sempre. Cerimônia completada ou não, é oficial."
Arlinn tentou um sorriso. "Tudo bem." Era oficial. Poderia viver com aquilo. Embora desejasse ter sentido aquilo com mais força; imaginara que no momento sentiria um ímpeto de poder e liberdade.
"E agora a Noite de Ouro foi chamada para cavalgar." Rembert abriu a porta. "Devemos ir."
"Sim, devemos." Arlinn apressou-se pelo corredor.
Rembert limpou a garganta enquanto saíam apressadamente pela porta. "É claro que eu seria negligente se não cumprisse o dever da igreja e garantisse que a oração final fosse concluída."
"Oh?" Arlinn olhou para o arquimago.
"Diga comigo enquanto vamos. Querida Avacyn, protetora de todos", Rembert começou.
Juntos completaram a oração final a Avacyn, bradando as palavras entre arquejos de ar frio e cortante enquanto corriam pelos Campos de Elgaud em direção aos estábulos. No momento em que subiu em seu cavalo, Arlinn era uma arquimaga; sentia aquilo em sua alma.
Encontraram a cidade de Havengul em chamas. Como Leighton avisara, hordas de diabos perversos pendiam de cada galho, balançavam-se nas vigas e dançavam nas ruas. Um grupo de uma dezena ou mais dos carniceiros cavalgava pelos telhados mais altos da cidade, lançando bolas de fogo em tudo o que já não estivesse queimando, e mais apenas para adicionar às chamas. Um empoleirou-se na cabeça de um velho, retalhando seu rosto lá de cima com seus dedos em forma de agulha, enquanto outros dois pendiam das mãos do homem para impedi-lo de espantar o primeiro. Outro dos diabos brincava com um jovem que estava apenas vagamente consciente, riscando desenhos imundos em sua pele com suas unhas incrustadas de sujeira, deixando apenas sangue suficiente para mantê-lo vivo enquanto causava dor suficiente para fazê-lo desejar não estar. O riso deles ressoava acima das chamas crepitantes, seus pulmões inafetados pela fumaça sufocante que levara tantos dos moradores de joelhos. Arlinn odiou-os instantaneamente.
Arte de Filip Burburan
O Revoar da Noite de Ouro chegara pouco antes da cavalaria, e agora os arquimagos e cátaros juntaram-se à batalha iniciada pelos anjos. Sua primeira prioridade era estabelecer um santuário. Um anjo, Freydalia, abençoou uma pequena igreja, lançando um feitiço de proteção sobre ela, e sob as ordens de Rembert, Arlinn e os outros começaram a conduzir as vítimas à segurança. Deveriam salvar os inocentes primeiro, e quando isso estivesse concluído, lidar com os perversos.
Arlinn agachou-se ao lado dos restos em chamas de uma carruagem tombada, alcançando por baixo de seu corpo de madeira quente a mão relutante de um menino pequeno. Outro anjo, Olaylie, pairava acima, mantendo à distância uma massa de diabos que ameaçavam saltar de um telhado próximo.
"Não serão detidos por muito mais tempo!", gritou Olaylie para Arlinn. O anjo empalou um dos diabos com sua lança, mas ao mesmo tempo, outros quatro saltaram para agarrar sua arma, envolvendo-se em um cabo de guerra vicioso.
Arlinn estendeu os dedos ainda mais em direção ao menino. Tinha que se apressar. "Dê-me sua mão", implorou ela.
A criança balançou a cabeça. A carruagem rangeu acima dele. "Os diabos, eles vão me pegar com o fogo deles se eu sair."
Arlinn não queria dizer que se ele não saísse encontraria uma morte ardente da mesma forma; não queria assustá-lo ainda mais do que ele estava. "Sei que você está com medo", disse ela, "mas não precisa estar. Vou protegê-lo, e aquele anjo lá em cima também". Alcançou novamente a mão dele, mas ainda assim o menino se encolheu.
"Mas vocês são apenas dois, e há tantos diabos." Ele perscrutou por uma fresta na madeira conforme uma tábua flamejante se desprendia do corpo da carruagem e caía ao chão ao lado de Arlinn.
Estavam ficando sem tempo, mas Arlinn não conseguia fazer o menino confiar nela, então recorreu à sua fé. "Você conhece Avacyn?", perguntou ela.
Ele assentiu.
"Então você deve saber que ela é mais do que eu jamais poderia ser, mais do que até aquele anjo sagrado jamais poderia ser. Avacyn nos ajudará se nós não conseguirmos."
O menino considerou as palavras de Arlinn. Ela não conseguia dizer o que se passava por trás de seus grandes olhos castanhos — tudo o que podia fazer era esperar tê-lo convencido. "Diga a oração comigo", instou ela. "Juntos pediremos a ajuda de Avacyn." Escolheu a mais familiar das orações que conhecia, esperando que ele a conhecesse também. "Querida Avacyn, rezamos a vós agora em nossa hora de necessidade. Pedimos que vós—"
"Como você sabe?" O menino interrompeu a oração. "Como você sabe que ela vai ajudar?" insistiu ele. "E eu quero uma resposta séria. Não apenas algo que você diz para me fazer sair. Eu sei como os adultos funcionam, e não vou sair com os diabos só porque você diz."
Foi a vez de Arlinn considerar a criança. Ouvia as asas de Olaylie batendo furiosamente acima deles, e sentia o calor das chamas dos diabos. Mas vinha mais pressão do olhar dele do que dos outros dois combinados. "Vou lhe dar a resposta mais séria que conheço", disse ela. "Sei que Avacyn ajudará se rezarmos porque ela me ajudou. Algo muito ruim me aconteceu uma vez, e tive medo de estar sozinha. Mas então aprendi que não estava. Avacyn me salvou."
A carruagem acima deles inclinou-se. "Rápido, Arquimaga Kord!" gritou Olaylie lá de cima.
"Dê-me sua mão. Por favor." Arlinn esticou-se o máximo que pôde, as pontas de seus dedos chegando pouco antes do cotovelo do menino.
"Você é uma arquimaga?" a expressão do menino mudou de dúvida para admiração.
"Sou." Arlinn assentiu para o medalhão que pendia em seu pescoço enquanto apoiava as costas contra a madeira quente e cedente.
"Isso é algo", disse o menino. "Tudo bem." Moveu-se cautelosamente, e muito lentamente. Arlinn segurou a respiração enquanto sua mão pequena alcançava a dela.
A carruagem gemeu acima deles como uma fera. Arlinn iniciou sua própria oração. Querida Avacyn, dai-me as forças para salvar esta criança inocente. Sentiu o manto da arquimaga inflamar-se contra seu peito. A benção de Avacyn agitou-se no fundo de seu ser. Em voz alta orou pelo menino: "Protetora do nosso mundo, por favor, conduzi-nos em segurança ao vosso santuário". O agito tornou-se uma inundação avassaladora de poder sagrado. No momento em que a mão do menino tocou a dela, Arlinn arrancou-o de sob a carruagem com um poder divino que enviou ambos rolando pelo chão exatamente quando a carruagem desabou.
O anjo Olaylie mergulhou, protegendo Arlinn e o menino dos estilhaços de madeira flamejantes e dos ataques lançados pelos diabos. O menino gritou.
"Estamos bem", Arlinn enterrou o nariz no cabelo emaranhado do menino, respirando o cheiro de sua vida. "Você está bem." Ela o balançou, acariciando o rosto dele. "Vou levar você para a igreja agora." Levantou a mão da cabeça dele e seu fôlego travou na garganta. Seus dedos haviam saído cobertos de sangue. Seu coração adiou seu próximo batimento; recusou-se a sustentar sua vida até que soubesse que o menino viveria. Procurou na cabeça dele a fonte do sangue, procurou nos ombros, no pescoço. Nada. Mas havia mais sangue. E depois mais dele. Uma gota de vermelho caiu na própria mão de Arlinn. Ela olhou para cima.
Olaylie cambaleava pelo céu com um diabo em suas costas. Ele arranhava o cabelo dela com seus dedos de agulha. Um segundo diabo saltou em sua perna e um terceiro em seu ombro. Todos cravavam suas mãos perversas na carne pura dela. O anjo gritou.
Arlinn nunca vira um anjo sangrar. Foi como se fosse ela quem tivesse sido retalhada no rosto, como se fosse o seu grito de agonia que ecoasse pela cidade.
Uma gota de sangue pousou na bochecha de Arlinn. Conseguia sentir o cheiro; o sangue de anjo cheirava às árvores das florestas, ao ar dos céus e às águas do mar. Era um aroma inebriante, pesado com poder sagrado. Não pertencia fora do corpo do anjo. Moveu-se para ajudar, chamando pelo anjo em desespero: "Olaylie!". Mas então lembrou-se do menino, encolhido em seu braço. Olhou para ele; sangue de anjo estava espalhado pelo rosto dele.
"Salve a criança primeiro, Arquimaga Kord!" A voz de Olaylie trovejou do alto; era um comando, mas foi seguido por um apelo mais suave. "Arlinn, por favor, salve a criança primeiro."
Foi tudo o que Arlinn pôde fazer para desviar os olhos da visão dos diabos rasgando a pele do anjo; se assistisse um momento mais, não seria capaz de atender ao comando de Olaylie. Ofereceu novamente a mão ao menino. "Venha comigo."
Desta vez ele não hesitou. Deixou-a guiá-lo pelo centro de Havengul, correndo em direção ao santuário, sua vozinha entoando conforme iam. "Querida Avacyn, por favor ajude aquele anjo. Pare os diabos de fazê-la sangrar. Estão machucando ela."
***
Dias Atuais
"Em nome de Avacyn, a protetora caída, eu as derrubarei!" O lamento da voz de um anjo louco ressoou conforme Arlinn transpunha o desfiladeiro. Lançou-se à frente apenas para derrapar até parar, garras cavando o solo da floresta, conforme uma clareira abria-se diante dela. O anjo louco estava no chão no centro do círculo de árvores. Arlinn manteve-se baixa no matagal; permanecer indetectada lhe daria a vantagem. Espiou por entre os galhos, inspirando grandes bocadas de ar impregnado de sangue de anjo. O anjo estava amarrado com cordas, uma flecha projetando-se de seu ventre, asas ensanguentadas. Cátaros a cercavam por todos os lados, suas armas prontas. Apesar de tudo, o anjo era quem tinha a vantagem. Era um ser de poder incomensurável, tornado ainda mais potente em sua loucura.
Cortar as Asas | Arte de Howard Lyon
"Impuros!" o anjo gritava para os cátaros. "Todos vocês são impuros!" Sua espada brilhava com magia ígnea enquanto se contorcia contra as cordas. Gritou, um som de raiva rancorosa que fez Arlinn eriçar as costas.
Os instintos de Arlinn diziam-lhe para proteger os cátaros. Mostrando os dentes, espreitou pelo matagal, andando de um lado para outro; esperaria apenas até encontrar uma abertura antes de atacar.
"Segurem-na firme!" Uma voz familiar fez Arlinn pausar. Suas orelhas giraram. "Não afrouxem essas cordas!" As pernas de Arlinn ficaram rígidas; não podia ser. Mas não havia como confundir o arquimago enquanto ele rodeava por trás do anjo, ladrando ordens aos outros cátaros. "Arqueiros, preparem-se." Embora o rosto de Rembert estivesse vermelho pelo esforço e incrustado de sujeira, as três cicatrizes longas e brancas que cruzavam sua bochecha e desciam pela mandíbula brilhavam ao luar.
O estômago de Arlinn revirou à visão, à memória. Recuou para as árvores mais densas, com a cauda baixa. Sua pata traseira pousou em um galho. Se não estivesse tão abalada pela visão de Rembert, seus instintos selvagens teriam assumido o controle, guiando seu corpo, deslocando seu equilíbrio, mas naquele momento ela era mais humana que selvagem, e sua mente humana estava girando, distraída, lenta demais. O galho estalou — e assim também a cabeça do anjo, girando, seu olhar fixando-se diretamente na floresta onde Arlinn estava escondida. Um sorriso inquietante espalhou-se pelo rosto dela, e o anjo ergueu a mão. "Um monstro!" Ela apontou para Arlinn. "Ali nas árvores! Um monstro!"
Um punhado de cátaros virou-se para olhar, Rembert inclusive. Ele identificou a lobisomem entre as árvores antes dos outros; sabia o que estava procurando. Seus olhos fixaram-se nos de Arlinn e ele levou a mão ao rosto, os dedos traçando a mais longa das cicatrizes. Um tremor percorreu a espinha de Arlinn.
"Ei! Lobisomem!" outro dos cátaros gritou, despertando Arlinn do transe do passado.
Os homens e mulheres sagrados recuaram reflexivamente da lobisomem, aproximando-se do anjo — não! Arlinn quis gritar, mas seria apenas um rosnado, tornaria as coisas ainda piores. Já estava pior. Aquele momento de vigilância falha foi tudo o que o anjo precisou. Numa demonstração de força insana, abriu as asas com força suficiente para despojar-se das cordas que a prendiam.
"Parem-na! Segurem as cordas!" Os cátaros clamaram, mas tarde demais.
O anjo alçou voo. Pairando no ar acima, arrancou a flecha de seu ventre e a arremessou contra a mais jovem das cátaros. "Impura! Eu a derrubo!"
Arlinn gemeu conforme a jovem caiu ao chão, sem vida. Sua natureza selvagem assumiu o controle e ela investiu contra o anjo, mandíbulas abertas — apenas para fecharem-se ao redor de um galho grosso. Rembert brandia o galho como uma arma, contra ela. Puxou-o de volta e preparou-se para balançar novamente. Arlinn esquivou-se, suas ancas saindo de sob si enquanto escorregava na lama da clareira ensopada de sangue de anjo. Levantou-se às pressas, mas ganiu quando o terceiro golpe de Rembert atingiu sua cauda.
"Peguem-na!" Rembert gritou para os outros cátaros; balançou novamente contra Arlinn enquanto ela se escondia atrás de um tronco quebrado. "Peguem o monstro!"
Lâminas cortavam e flechas voavam — algumas no anjo e outras em Arlinn.
Parem! Ela queria dizer a Rembert para parar. Queria dizer a ele que não era mais o monstro que ele conhecera. Na verdade, nunca fora.
***
Anos Atrás
"Pegue-o! Pegue o menino!" A Arquimaga Arlinn Kord entregou a criança pequena aos braços estendidos de Rembert. Não esperou para vê-los recuarem para a segurança do santuário antes de virar-se para correr de volta degraus abaixo, com sua lâmina desembainhada.
Sua visão embaçava com a fumaça dos fogos dos diabos, mas não tanto que ela não pudesse distinguir o horror à sua frente. Havia pelo menos uma dúzia de diabos pendurados em Olaylie, puxando seu cabelo, arrancando suas penas e cortando sua pele.
"Não!", gritou Arlinn. "Afastem-se!"
Os diabos cacarejaram e lançaram feitiços írneos contra Arlinn. Ela desviou o fogo com sua lâmina e avançou, mais perto. "Vou fazê-los parar de rir!"
Como se suas palavras tivessem sido o desfecho de uma piada terrível, os carniceiros sucumbiram a uivos viciosos, suas pernas ossudas tremendo de alegria. O que estava na cabeça de Olaylie apontou para Arlinn e soltou um grito, um guincho que os outros pareceram tomar como um comando. Em uníssono, puxaram para trás, arrancando as asas do anjo, enviando Olaylie despencando ao solo. Alvoroçaram-se com júbilo conforme ela caía, tombando pela terra, incapaz de alçar voo novamente.
Arlinn investiu contra eles, canalizando todo o seu poder, todo o poder divino que conseguia alcançar para sua lâmina. Orava enquanto ia. "Avacyn, guiai-me. Dai-me vosso poder sagrado — se houve um momento, preciso dele agora." Enfureceu-se através do fogo que os diabos cuspiam nela, sem medo de queimar. Sua espada atingiu um direto no peito. Puxou-a e retalhou outro. Depois um terceiro. Mas antes que pudesse golpear novamente, uma dúzia de diabos choveu do alto, tendo saltado dos telhados.
Arlinn mal teve tempo de proferir uma oração silenciosa, Avacyn, são muitos, ajude-me. Foi agarrada por trás com dedos em forma de agulha que rasgaram seu casaco. Girou, retalhando em busca do diabo, mas ele se prendera às suas costas. Sentiu o peso de outro juntar-se a ele, e depois um terceiro. Caudas chicotearam seu pescoço, escaldantes. Unhas prenderam-se em seus ombros e costas, puxando-a para baixo. O riso soava agudo em seus ouvidos enquanto era arrastada ao chão. Avacyn, por favor.
Não houve resposta.
A dor era grande, mas era pior ver o anjo à sua frente, lutando contra a horda sufocante. Entre o sangue e os diabos, restava apenas vermelho onde o branco puro de Olaylie estivera um dia.
"Não!" Arlinn lutava para levantar-se, mas ela também estava sendo enterrada pelos carniceiros. Lágrimas ou sangue riscavam suas bochechas, Arlinn não sabia. Aquilo não estava certo. Não deveria acontecer daquela forma. Era uma arquimaga de Avacyn. Avacyn! Arlinn lutou através dos arranhões e mordidas, alcançando o medalhão em seu pescoço. Seus dedos fecharam-se ao redor do manto da arquimaga da Noite de Ouro. Avacyn, por favor, vinde em meu auxílio. Esperou, abrindo-se ao poder da protetora; precisava de poder para salvar o anjo. Mas não houve nada.
De logo além do alcance de Arlinn, Olaylie soltou um grito, uma explosão de som liberada, finalmente, após ter resistido à dor por tanto tempo. O grito do anjo estava carregado de agonia tão grande que rasgou a noite em duas.
Arlinn sentiu o poder da dor no grito de Olaylie, e exatamente como a noite, ela se desfez.
A lobisomem investiu contra os diabos. Mandíbula estalando. Fechando-se ao redor da garganta do carniceiro mais próximo. Arrancando sua cabeça do corpo. Lançando-o através do pátio.
Mais.
Garras cortando peitos. Arrancando caudas. Arremessando corpos para fora de vista.
Mais.
Crânios estalando.
Dentes cravando na carne.
Espinhos perfurando.
Carcaças voavam.
Mais.
Penas.
A bocarra da lobisomem fechou-se sobre penas.
O gosto de sangue de anjo. Inebriante. Ambrósia quente. Perfeito.
O choque brilhou nos olhos do anjo. Ela tentou subir, afastar-se, mas não rápido o suficiente. As garras da lobisomem atingiram a pele da perna do anjo, arranhando-a pela panturrilha e prendendo-se no lugar. O prazer de macular aquela pele perfeita era inigualável. A lobisomem puxou o anjo de volta ao solo e atacou sua carne com os dentes.
"Saia de cima!"
A lobisomem virou-se ao som da voz. Havia um humano ali, um homem que erguia sua espada. A lobisomem abriu a barriga dele direto ao centro. Sangue e órgãos verteram para fora.
Mais.
A lobisomem voltou-se para o anjo, mas mais humanos fechavam o cerco. A lobisomem golpeou a lâmina de uma espada que balançava, lançando a espada para fora do ar, depois retalhou o braço que a empunhava, separando-o do corpo. O humano caiu. A lobisomem pisou no membro decepado, com força, quebrando o osso apenas para senti-lo estalar. A lobisomem retalhou o restante do corpo.
Outro humano investiu contra a lobisomem, espada e escudo resplandecendo com luz ofuscante. Um salto e a lobisomem estava atrás do humano. Uma investida, um corte de garras, e o humano jazia mutilado no chão aos pés da lobisomem.
Mais.
Um após o outro. Todos caíam à mercê da lobisomem.
Arlinn, Abraçada pela Lua | Arte de Winona Nelson
Então subitamente, um raio atingiu a lobisomem lá de cima, arrancando um rosnado sofrido. Outro raio — este atingiu as costas da lobisomem. O anjo recuperara-se o suficiente para alçar voo. A lobisomem rosnou. O anjo pairava acima, brilhando dourada através da sujeira e sangue que cobriam sua pele. Ela mirou com um feixe de luz sagrada.
A lobisomem saltou para cima, voando pelo ar, golpeando descontroladamente o anjo brilhante. As garras da lobisomem atingiram primeiro, e depois os dentes. Um estalo e a ponta da asa do anjo soltou-se. Uma bocada de penas, osso cartilaginoso e sangue de anjo.
O anjo perdeu altitude. A lobisomem saltou novamente, desta vez pela outra asa. Arrancou-a inteira do corpo do anjo. O ser sagrado despencou do céu.
Enquanto a lobisomem espreitava em direção ao anjo caído, o anjo lutava para levantar-se, rastejando para trás, mancando, tentando correr, tentando voar, falhando. A lobisomem saltou, derrubando o anjo no chão. Dentes afundaram na carne macia. O grito do anjo uniu-se harmoniosamente com o sabor de seu sangue.
A lobisomem nunca teria o suficiente.
"Arquimaga Kord?" O chamado atraiu a atenção da lobisomem. A lobisomem virou-se, faminta. Um humano vestido em armadura e robes apontava uma espada trêmula para a lobisomem. "Arlinn?"
A lobisomem inclinou a cabeça para o lado. O nome que o homem proferira parecia errado, perfurava-a como uma faca.
O homem ergueu a mão, apontando para o peito da lobisomem. "De tudo o que é sagrado, é você."
A lobisomem rosnou, mas seu olhar foi forçado para baixo. Ela viu o pingente que pendia de uma corrente em seu pescoço. Algo a puxou no fundo da mente. Avacyn. Ela estalou as mandíbulas, desviando o olhar. Seus olhos pousaram no chão. Nos corpos. Ao redor dela estavam corpos. Cátaros caídos. Muitos deles. Ela conhecia a todos. Leighton. Reeves.
Sua mente ardeu.
Não.
Não.
"Oh, Arlinn, o que você fez?"
A lobisomem voltou-se para Rembert, sua raiva crescendo. Por que ele viera a ela? Por que ele falara? A culpa era dele. Ergueu as costas e rosnou. Ele deu um passo atrás, mas ela foi mais rápida, investindo, retalhando, suas garras cavando sulcos na bochecha dele. Ele gritou, brandindo sua espada contra ela, recuando.
O sangue brotou vermelho no rosto dele. "Sua monstra!"
A lobisomem uivou em angústia, a verdade tombando por sua mente crescendo, ficando fora de controle, até que a realidade preenchesse cada fresta e ameaçasse romper seu crânio.
Rembert ergueu sua espada. "Que Avacyn a perdoe."
A lobisomem não recuou. A lâmina seria uma misericórdia. Que ela golpeasse. Não conseguia aguentar mais.
O aço brilhou, e a mente da lobisomem fendeu-se.
***
Muitos Anos Depois
Por muito tempo depois daquilo, Arlinn acreditara em Rembert. Acreditara que era uma monstra. Algo tão horripilante e terrível que nem mesmo Avacyn poderia salvá-la. E então depois daquilo, por muito tempo, ela ficara furiosa com o anjo; a benção de Avacyn deveria ter sido mais forte que a maldição, mas no fim não importara que ela fosse uma arquimaga. Avacyn falhara com ela, os selos falharam com ela; a licantropia vencera.
Tivera muito tempo para pensar nessas coisas; ela transplanara naquele dia, há tanto tempo, quando sua mente se fendera. A espada de Rembert nunca a atingira. Em vez disso, fora lançada para fora do mundo, para longe dos horrores que cometera, para longe do corpo do Arquimago Reeves aos seus pés, para longe do anjo Olaylie quebrado, ensanguentado e sem vida, para longe do brilho nos olhos de Rembert. E aterrissara em uma floresta em outro mundo.
Fora impossível medir a passagem do tempo lá; ela não quisera. O tempo não deveria ter passado para ela; sua vida deveria ter terminado. De certa forma, terminara. O outro mundo era como um purgatório. Enquanto esteve lá, nunca recuperara sua forma humana. Permanecera um monstro por fora, mas ao mesmo tempo não conseguia escapar de sua mente humana e das memórias que guardava de seus feitos. As duas partes dela guerreavam, e sua alma estava presa no fogo cruzado.
Mas no fim, Arlinn fora grata por isso; fora esse estado de vida dupla que a forçara a ver a verdade.
Estivera errada ao pensar que tornar-se uma arquimaga mudaria quem ela era, o que ela era. Desde o primeiro momento, após os uivos da matilha Mondronen a terem amaldiçoado, ela olhara para fora, para selos, para orações, para Avacyn. Convencera-se tão firmemente de que o anjo e o poder sagrado da igreja poderiam consertá-la. Mas o que ela deixara passar fora que não estava quebrada. Não da forma que pensava. Era o que era e sempre seria. Era selvagem e bruta, uma predadora, mas era também boa e verdadeira, uma protetora. Não podia fazer uma parte de si desaparecer, não podia fugir de metade de sua essência. Tinha que ser ambas. Tinha que confiar em si mesma para ser inteira. Sua salvação nunca fora algo que ela devesse ter pedido ao anjo Avacyn; cabia a ela.
Levou muitos anos, mas finalmente Arlinn retornou a Innistrad, confiando em si mesma para pôr os pés mais uma vez no mundo que deixara para trás. Aquele momento fora o momento em que verdadeiramente ganhara o controle de seus poderes e de si mesma. Suas transformações eram fáceis agora, sob seu controle. Sua mente era sempre sua, mas era aumentada pelo poder selvagem de sua forma física. Não era mais um invólucro, não estava mais fingindo, escondendo-se; era tudo o que fora destinada a ser.
Arlinn caminhava sobre a terra úmida, seu nariz, excepcionalmente sensível mesmo em sua forma humana, captando os aromas familiares que ligavam a memórias. Memórias numerosas demais para contar, todas ameaçando arrancar lágrimas pela potência da mágoa que arrancavam de seu ventre. Era a primeira vez que punha os pés nos Campos de Elgaud em anos. Esperava que o primeiro passo seria o mais difícil, mas foram os próximos cem — os que a levaram à porta do Arquimago Rembert — que se provaram quase impossíveis.
Achara que estava pronta. Enfrentara todos os outros; visitara os túmulos, o de Reeves, o de Leighton, todos eles. Orara nas igrejas de Avacyn por toda Nefália, enviando litanias de confissões e reparações; falara com os anjos, olhara em seus olhos, admitira seus atos e estivera sob suas sombras para ser julgada.
Ceifadora do Revoar de Prata Lunar | Arte de Magali Villeneuve
Rembert era o único que restava. Ergueu o punho para bater à porta do quarto dele, mas não precisou. O cheiro dele alcançou seu nariz um instante antes de sua mão pesada cair sobre o ombro dela. Girou bruscamente para encarar o arquimago envelhecido.
"Como você ousa?" Rembert segurava um selo brilhante; construíra proteções contra ela. O coração de Arlinn contorceu-se em agonia. Aquele era o mesmo homem que acreditara nela, na bondade de sua alma, tão plenamente antes. Agora não se surpreenderia em saber que ele não achava que ela tivesse alma alguma. "Como você ousa pôr os pés aqui neste solo sagrado?"
"Por favor, Arquimago Rembert, eu—"
"Sua monstra! Sua fera assassina!" Ele atirou o selo contra o peito dela e cuspiu aos pés dela.
Arlinn recuou. "Por favor", tentou novamente. "Sei o que o senhor deve sentir, sei o que fiz. Não há como tornar o passado certo. Mas não sou o que eu era então. Agora sou capaz de usar o que tenho para o bem. Quero usar esse bem aqui, com a Noite de Ouro. Quero ajudar. Estou em controle."
"Há!" Rembert sacou sua espada sagrada. "Controle é uma mentira que você conta para poder viver consigo mesma quando está assim." Acenou com sua espada, indicando a forma humana dela. "Mas mesmo agora, mesmo enquanto você está nessa carne falsificada, você é uma monstra. Você sempre será uma monstra."
"Posso ser uma lobisomem, mas não sou uma monstra." Ela manteve sua posição, embora ele se aproximasse com sua lâmina, que estava agora em brasa. "Sou uma Noite de Ouro. E sempre serei. O senhor mesmo disse isso."
Rembert investiu contra ela, a palma colidindo com o ombro dela, lançando-a de volta contra a porta. Pressionou a lateral de sua lâmina contra o pescoço dela. Arlinn recusou-se a revidar — não permitiria que ele a empurrasse rumo à selvageria. "O que quer que eu tenha dito a você antes de saber o que você era, quando você escondeu a verdade de mim, você não pode usar contra mim agora. Você não é uma Noite de Ouro, Arlinn Kord, você nunca foi."
Arlinn sustentou o olhar de Rembert. Nada pôde dizer; o coágulo de emoções que sufocara suas palavras há tantos anos retornara agora para fazer o mesmo. Mas desta vez o coágulo tinha bordas afiadas, e a agulhavam como os dedos dos diabos, cutucando o interior de sua garganta e esfaqueando a parte de trás de seus olhos.
De uma vez Rembert rompeu o olhar compartilhado. Soltou um suspiro arfante e recuou. "Saia." Apontou pelo corredor, mas desviou os olhos, olhando para o chão. "Deixe estes campos, e nunca mais volte. Se eu a vir novamente, eu a derrubarei."
Arlinn inspirou para falar, mas a voz de Rembert, carregada de poder sagrado, sufocou suas palavras. "Saia!"
***
Dias Atuais
Arlinn tentara recuar. Não quisera engajar. Mas Rembert não deixou aquilo como uma opção. Estava cercada, encurralada contra a borda do desfiladeiro, cátaros por todos os lados e Rembert à sua frente, seu galho grosso erguido sobre a cabeça. "Eu a avisei", ele lançou as palavras nela, cada uma um golpe pesado; sua arma contundente viria em seguida. Arlinn preparou-se. Poderia suportar mais golpes do que ele poderia saber, e não permitiria que ele a afugentasse quando havia um anjo louco tão perto.
Como se acenado, o anjo louco mergulhou por trás dos cátaros.
Arlinn não pôde avisá-los rápido o suficiente. Não pôde avisar Rembert. O anjo gritou ao fechar seus dedos ensanguentados ao redor dos braços de Rembert e puxá-lo, arquejante e de olhos arregalados, para o ar.
Os outros cátaros voltaram suas armas para o anjo, e Arlinn ergueu-se sobre as ancas, instintos protetores assumindo o controle.
"Não! Formar posição!" Rembert gritou para seus cátaros, ainda em comando embora estivesse pendurado no céu. "Não virem as costas para o monstro! Matem a lobisomem!"
Os cátaros pareciam confusos. Alguns mudaram a mira de volta para Arlinn, outros permaneceram treinados no anjo louco. O anjo cacarejou, não muito diferente dos diabos, e suas mãos ao redor dos braços de Rembert começaram a brilhar com uma luz sagrada tingida de sangue. Mataria ele ali mesmo no céu, extinguiria a vida dele com pouco esforço.
Um dos cátaros disparou uma flecha contra o anjo, mas ela flutuou inutilmente sobre o ombro dele. Ela estalou os dentes para a mulher. "Você será a próxima, impura!"
Basta. Aquilo já durara o suficiente. Convocando força para seus músculos grossos, Arlinn lançou-se, saltando sobre as cabeças dos cátaros cambaleantes. Encontrou apoio no calcanhar da bota do anjo e cravou os dentes no couro, puxando para baixo e agitando-se para um lado enquanto o fazia. O anjo atingiu o solo com um baque estrondoso, Rembert caindo de seu aperto. Arlinn não perdeu tempo. Saltou sobre o ser sagrado, afundando os dentes em sua carne. Era puro músculo e tendão agora, impulsionada pelo poder selvagem da maldição da licantropia, a maldição que se tornara para ela uma benção.
O anjo louco estava morto em questão de momentos.
Arlinn virou-se, ofegante, para os cátaros, mas eles não estavam imediatamente atrás dela; haviam se reunido na borda do desfiladeiro, alguns de bruços, alcançando além da borda. Rembert não estava à vista. O coração de Arlinn palpitou e ela correu para o desfiladeiro, sua mente já preenchendo o que deve ter acontecido.
Não estava errada. Montou os fatos da cena enquanto seu corpo agia. Rembert estava ferido, deitado num tronco retorcido de uma árvore morta; ele não suportaria o peso dele por muito tempo. Estava longe demais para alcançar da borda, então ela já escalara em outro tronco quebrado. Agarrando a madeira úmida com suas garras, pendurou-se, oferecendo sua pata a Rembert.
Ele arquejou à visão dela, encolhendo-se, o medo pintando sua expressão.
Ela estendeu sua pata mais ainda, implorando silenciosamente para que ele a pegasse.
"Monstra", Rembert finalmente encontrou sua voz. "Vou matar você."
Um estrondo subiu na garganta de Arlinn, mas ela o engoliu. Fora a dor e o medo que trouxeram aquelas palavras aos lábios dele. Havia tanta dor entre eles. Mas havia também um vínculo. Um da Noite de Ouro. Sempre. Arlinn fechou os olhos e acolheu a transformação para sua forma humana; não deixaria o arquimago perecer ali esta noite por causa do medo. Quando abriu os olhos novamente, era sua mão humana que via estendida diante dela. "Pegue minha mão", disse ela a Rembert.
Arlinn Kord | Arte de Winona Nelson
Os olhos dele encontraram os dela. "Você mentiu para mim."
Arlinn engoliu em seco. "Menti."
"Você matou os outros."
"Matei."
"Não consigo — não vou —"
"Não sou mais escrava da maldição", disse Arlinn. "Estou livre agora para ser uma protetora como fui destinada a ser. Por favor. O senhor me conheceu uma vez, conheça-me novamente."
Os olhos de Rembert brilharam por trás de lágrimas conforme o tronco rangia sob seu peso.
Arlinn estendeu-se novamente. "Pegue minha mão."
Rembert firmou-se e ergueu o braço. "Avacyn ajude-me", sussurrou ele.
"Avacyn se foi", disse Arlinn. "Devemos encontrar força uns nos outros."
15 de Junho de 2016 | Por Kelly Digges
Pedra e Sangue
Seis mil anos antes dos eventos da história de Lua Arcana, três Planinautas colaboraram para prender os monstruosos Eldrazi no mundo de Zendikar. Nahiri, uma kor de Zendikar, montou guarda sobre os prisioneiros. Ugin, chamado o Dragão Espírito, e o vampiro Sorin Markov concordaram em retornar se sua ajuda fosse necessária. Mas os Eldrazi quase escaparam há mais de mil anos, e nem Sorin nem Ugin vieram. Sorin era amigo de Nahiri, e a ausência dele a preocupou e intrigou. Após conter as tentativas de fuga dos Eldrazi, Nahiri partiu para encontrar seu amigo. Sabemos pelas recordações de Sorin que o encontro deles não correu bem. Mas existem dois lados em cada história...
***
Reencontro
Há mil anos
Nahiri lançou-se através do caos das Eternidades Cegas, o espaço entre os mundos. Dormira por tempo demais, num casulo de pedra. Permitira que certas coisas derivassem além de sua percepção. Já corrigira o caso mais flagrante de negligência, reforçando as salvaguardas que mantinham seus prisioneiros seguros e consignando seus servos ao esquecimento. Seu próprio mundo estava seguro, ao menos por enquanto.
Agora era hora de visitar um velho amigo e restaurar algo menos tangível.
Não levou muito tempo até que Nahiri sentisse a presença dele e mirasse nela, distorcendo o mundo ao seu redor até que pudesse estar ao lado dele. A amizade deles era antiga agora, uma relíquia desbotada, mas Sorin Markov fora seu primeiro aliado, e Nahiri o reconheceria em qualquer lugar.
Ela estava, então, em um alto despenhadeiro com vista para um mar escuro e agitado. Nunca estivera ali, mas nada naquilo a surpreendia. Innistrad e Sorin haviam se moldado mutuamente, e o mundo parecia adequar-se a ele — sombrio e perigoso, quase propositalmente inóspito. E a lua — havia algo de estranho na lua que surgia sobre a água, algo que puxava seus sentidos.
Sorin nunca a trouxera ali, mas falara disso em tons nostálgicos. Esperara, sabia ela, poder contar com ela para defendê-lo — como ela esperara poder contar com ele para defender Zendikar. Nenhum dos dois conseguira o que queria, no fim.
Sorin não estava ali.
No ponto mais alto do despenhadeiro, onde ela sentira a presença dele, erguia--se em vez disso um naco maciço e rústico de prata, com pelo menos doze metros de altura. Tinha faces, mas eram irregulares e desiguais, como se uma litoformadora amadora o tivesse arrancado do solo e ainda não tivesse se dado ao trabalho de suavizá-lo para um acabamento.
Cofre Infernal | Arte de Jaime Jones
Mas estava terminado — inquestionavelmente, para os sentidos dela, obviamente o resultado final de um esforço tremendo em vez de um trabalho em progresso. Não estava polido porque o polimento não importava para o que quer que aquela coisa devesse ser. Ou fazer.
E aquilo — aquela coisa — fora o que ela sentira. Não Sorin. A Coisa falara com ela, através do meio tênue das Eternidades Cegas, sobre ele.
Não havia nada no despenhadeiro exceto o vento e o monólito de prata, salvaguardando uma árvore atrofiada de folhas vermelhas. Deixou a árvore em seus afazeres e circulou o tremendo naco de prata.
Lados. Tinha oito deles, ou talvez sete, dependendo de quão generoso se fosse quanto à natureza de uma aresta. Mas eram faces, moldadas deliberadamente, quase como... Mas não havia hedros em Innistrad, e Sorin não tinha nem meios nem causa para fazê-los.
E como um hedro, a Coisa era mais que sua substância física. Testou-a com sua litoformancia, fazendo uma sondagem do metal puro e tentando obter uma percepção de sua estrutura interna.
Nada. Nada mesmo. Conseguia sentir o grão do leito rochoso meia milha abaixo de seus pés, sentir o batimento cardíaco lento e constante das placas tectônicas dançando sua valsa lenta e inexorável. Mas não conseguia ver o interior daquela lasca de prata. Não conseguia sequer riscá-la. Seu poder desaparecia dentro dela, como um poço infinito. Quase como... mas não. Não novamente. Não era um hedro. Não ali.
Curvou-se e espiou sob a Coisa, meio esperando ver que ela estava flutuando acima do chão. Mas estava enraizada na base, por uma haste de prata comparativamente fina, não muito mais larga que a própria Nahiri.
Levantou-se e continuou seu círculo lento da Coisa, arrastando as pontas dos dedos ao longo dela em vez da investigação mais profunda que não parecia conseguir fazer. Não sabia quanto tempo passara examinando o monólito de prata, mas a lua estava mais alta no céu quando uma voz familiar falou atrás dela.
"Você terá que perdoar minha tentativa rudimentar de moldar a pedra, pequena."
Ela girou. Sorin!
Cabelo branco, casaco preto, aqueles estranhos olhos laranjas. Quão terrível seu aspecto, quão atroz seu olhar — e no entanto ela não conseguia conter o sorriso.
"Meu amigo!", conseguiu dizer finalmente. "Você está vivo!"
Ele sorriu de volta para ela, caminhou em sua direção e pousou a mão no ombro dela. Vindo dele, aquilo qualificava-se como elação.
Sorin Markov | Arte de Michael Komarck
"E por que eu estaria de outra forma?"
Ela esticou-se para cobrir a mão dele com a sua. Estava acordada agora, seu corpo preenchido pelo calor da vida. Os dedos dele estavam tão frios e mortos como sempre.
"Você nunca veio", disse ela. "Em Zendikar, quando ativei o sinal do Olho de Ugin, você nunca respondeu. Tive medo de que—"
Sorin retirou a mão, franzindo a testa.
"Os Eldrazi romperam seus grilhões?"
"Sim, romperam."
"Onde está Ugin?", perguntou ele.
"Ele também não veio", disse ela, tentando não deixar a amargura atingir sua voz. "Mas eu dei conta. Sozinha. Com toda a força que consegui reunir, consegui selar novamente a prisão dos titãs."
Ocorreu-lhe, subitamente, que ela agora era muito mais velha do que Sorin fora quando se conheceram. Em sua memória ele a agigantava, seu antigo mentor, mil anos mais velho que ela. Agora, que diferença faziam mil anos? Eram iguais. Ao menos.
"Quando a tarefa terminou, vim procurá-lo. Tinha que saber se você ainda vivia. E aqui está você."
Aqui está você. Sua alegria ao vê-lo desvaneceu. Estivera preocupada, tão preocupada — que algo tivesse acontecido com ele, ou que ele, como ela, tivesse afundado num mal-estar de milênios. Viera até aqui para encontrá-lo, para salvá-lo — mas ele não estava, evidentemente, em necessidade de salvamento.
"Então, onde você estava?", perguntou ela. "Sorin, por que não respondeu ao sinal?"
"Ele nunca me alcançou", disse ele.
"Como isso é possível?"
"Hum", disse ele. Apenas Hum, com pouco interesse e nenhuma urgência sequer.
Ele estendeu a mão por trás dela e pressionou uma das palmas contra a superfície da Coisa.
"Você se dedicou a vigiar os Eldrazi aprisionados, e tornou-se claro para mim que meu plano estava em premente necessidade de sua própria proteção, particularmente em minha ausência. Este Cofre Infernal é metade do que criei para servir como tal proteção."
Cofre Infernal. Ela estremeceu. Era um cofre. O que tal coisa poderia ter sido feita para armazenar?
"Não é inconcebível", continuou ele, soando entediado, "que seu sinal do Olho tenha sido incapaz de romper a magia que protege este plano".
A própria feitiçaria de Sorin a impedira de contatá-lo? Sentiu uma sensação súbita de vertigem, e escolheu suas próximas palavras com cuidado.
"Você sabia na época que isso aconteceria?"
"Não me ocorreu", disse ele. "Embora eu veja agora que era uma possibilidade."
Pedra e céu!
Cedo em sua associação, antes de ela entender o que ele era, e o que ela agora se tornara, ele lhe perguntara se ela queria aprender a lutar como ele. Dissera que sim — e então ele tentara matá-la.
Ou assim lhe parecera na época. Percebera, não muito depois, que ele se contivera, atacando-a fisicamente quando poderia tê-la apagado com um pensamento. Mantivera sua posição, brevemente, até que a pesada espada de duas mãos dele atingira seu braço superior num golpe de raspão com um estalo nauseante, e a dor sobrepujara seus sentidos.
Bem feito, dissera ele, parado sobre ela. Você durou quase seis fôlegos. Seus, é claro. Agora levante-se.
Levantar-me? gritara ela. Você quebrou meu braço!
Então conserte-o, dissera ele. Nem sequer olhava para ela.
Consertar-lhe? Consertar... como raios—
Só então ele finalmente lhe explicara que ela não era mais mortal. Que seu corpo era uma conveniência, uma projeção de sua vontade.
Você deveria ter me dito isso para começar, dissera ela, contendo lágrimas de raiva.
Ah, dissera ele, naquela voz entediada porém benevolente. Não me ocorreu.
Estava usando aquela voz agora, falando de cima para ela. Mas a garota que ele mentorara estava há muito morta, enterrada num túmulo de pedra. Apenas uma Planinauta restava. E uma Planinauta não seria condescendida.
"Uma possibilidade? Você arriscou meu plano, e mais." Não conseguiu conter totalmente a mágoa da voz. "Você me abandonou."
Sorin acenou uma mão pálida e desdenhosa.
"Eu estava simplesmente tomando as precauções apropriadas para proteger o meu plano. Dificilmente creio—"
Oh, basta. Mais do que basta.
"Tínhamos um acordo, você e eu", disse ela.
Ele não podia negar aquilo. Cinco mil anos antes, Nahiri concordara, relutantemente, em prender os Eldrazi em seu próprio mundo de Zendikar. E por sua parte, os outros dois Planinautas que a ajudaram haviam lhe dado um modo de contatá-los se os Eldrazi algum dia ameaçassem se libertar.
Arte de Igor Kieryluk
Por cinco mil anos, Nahiri manteve a vigília sobre seus prisioneiros monstruosos. Trancara-se em pedra, observara décadas e séculos derivarem como nuvens sobre o sol. Então os Eldrazi testaram os vínculos de sua prisão e soltaram sua progênie hedionda sobre um mundo já mudado por sua presença, de formas que ela não entendia plenamente. Nahiri acordara, libertara-se de seu isolamento autoimposto e soara o alarme.
Ninguém viera. Nem o dragão Ugin, em quem ela nunca confiara plenamente, cujos motivos e origens eram enigmas. E nem Sorin — seu mentor. Seu amigo.
Lidara com a crise por conta própria, a grande custo para o seu mundo, muito mais do que teria custado se seus aliados tivessem honrado o acordo. Ainda não pesquisara a extensão total do dano que os Eldrazi haviam causado ao seu mundo e ao seu povo antes de ter contido seus esforços. Mas fizera, e quando terminou, fora procurá-lo, temendo pela existência dele.
E descobriu que ele fizera pior do que ignorar seu pedido de ajuda. Bloqueou-o, para proteger seu próprio mundo da influência externa.
Ele virou as costas para ela.
"Não descarte isto", disse ela. "Estive disposta a colocar meu lar em risco ao atraí-los para lá. Prometi me acorrentar a Zendikar para vigiá-los como carcereira. Passei milênios com aqueles monstros. Você sabe como é isso? Tudo o que você tinha que fazer era vir quando eu precisasse."
O chão começou a tremer, o leito rochoso abaixo deles vibrando em simpatia com sua raiva crescente. De toda a pedra e metal próximos, apenas o Cofre Infernal de prata parecia fora de seu alcance.
"Não presuma ser dona das minhas ações, pequena. Não sou obrigado a nada. Não lhe devo nada! Quando sua centelha de Planinauta se acendeu pela primeira vez, fui eu quem a descobriu. Eu poderia tê-la encerrado ali, mas a poupei."
Virou-se de volta para ela, olhos laranjas cheios de malícia, o rosto a centímetros do dela.
"Tomei você sob minha asa, e a moldei no que você é", disse ele. "Se acha necessário amolar alguém, vá encontrar Ugin. Não tenho paciência para isso."
Sem paciência. Sem paciência. A dor deu lugar à raiva num instante de calor branco.
Por cinco mil anos, Nahiri mantivera a vigília sobre os Eldrazi — não apenas pelo seu plano, mas por cada plano. Por Innistrad. E uma vez, uma vez, em cinco mil anos, ela o chamara para fazer nada mais do que cumprir uma simples promessa — uma promessa interesseira, que ele só fizera porque manteria seu próprio mundo seguro — e ele não viera. Simplesmente... não.
Sua própria paciência estava no fim, gasta em vigília infinita sobre os Eldrazi. Estava acabada — acabada de esperar, acabada de suplicar, e acima de tudo acabada de ser tratada como uma criança. Se Sorin precisava de prova de que ela não era mais sua aluna, ela teria que fornecê-la.
Convocou uma coluna de rocha das profundezas abaixo deles — granito, antigo e forte. A terra incharam, e Sorin lutou para manter os pés. A coluna de pedra irrompeu do solo abaixo dela, carregando-a bem acima dele.
"Não vou a lugar nenhum."
Puxou mais pedras do solo ao seu redor, afiadas em dardos, rodopiando ao redor dos dois Planinautas.
Sorin sacou sua espada.
"Nunca a ameacei", disse ele, olhando para cima para ela. "Nem uma vez. Se havemos de ser inimigos, criança, a culpa recai unicamente sobre seus próprios pés."
"Não sou uma criança", disse ela. "O que quer que tenhamos sido, certamente você vê que somos iguais agora."
Houve um momento de hesitação — um indício de medo naqueles olhos laranjas, talvez? Um segundo gasto pesando a possibilidade de que ela pudesse estar certa, e o orgulho dele precisasse de uma correção aguda?
"Tudo o que vejo é um acesso de raiva", disse ele. "Se veio encontrar um igual, deveria ter vindo sob trégua, seguindo os protocolos para parlamento com um colega Planinauta."
"Vim encontrar um amigo", disse Nahiri.
"Então não vejo razões para reclamação", disse Sorin. "Amigos entregam verdades duras... não entregam?"
Há muito tempo, uma garota tola chamara esta criatura miserável de amigo. Conforme o último vestígio daquela sentimentalidade juvenil evaporava, Nahiri golpeou.
Lançou-se para baixo em direção a Sorin montada num punho de rocha. Não tinha espada. Não tinha necessidade de uma. O próprio solo era sua arma.
Sorin liberou uma rajada de magia de morte que a atingiu em cheio no peito, lançando-a para trás. A coluna de pedra deu um solavanco para trás, para permanecer sob os pés dela.
Sorin saltou do solo quebrado e lançou-se direto em direção a ela, dentes à mostra, espada brilhando na luz daquela lua estranha e imponente. Ela saltou da coluna e aterrissou no chão agachada. Sorin atingiu a coluna de pedra com os pés primeiro, pronto para saltar dela e atacá-la novamente — mas a coluna de pedra simplesmente o engoliu.
Ficou de pé, punhos cerrados, apertando Sorin na pedra.
Rachaduras apareceram, primeiro uma, depois várias, brilhando com a luz da magia do vampiro. A coluna voou em pedaços num jato de luz e pedra conforme Sorin forçava sua saída. Ele caiu graciosamente ao chão.
Mas parecia sofrer.
"Não quero sua inimizade", disse Nahiri. "Tudo o que eu quis foi sua ajuda, Sorin. Você fez uma promessa. Venha comigo."
"Agora não", disse Sorin, com uma calma enfurecedora. "Mais tarde, talvez. Este é um momento crítico—"
"Um momento crítico!", disparou Nahiri. "Os Eldrazi quase escaparam. Você está pensando em termos de eras, mas pelo que sei os Eldrazi estão soltos agora. Tudo pelo que trabalhamos se perderá, seu próprio plano estará em perigo — você não se importa com isso?"
Atingiu-a, então. O aprisionamento dos Eldrazi tornara-se o trabalho de sua vida, um esforço constante que a mantivera vinculada ao seu plano por quase toda a sua existência. Mas para ele fora um piscar de olhos — quarenta anos de esforço moderado, cinco mil anos atrás, em troca de milênios de paz de espírito. E agora, com suas novas contramedidas, talvez Innistrad não estivesse em perigo. Talvez Nahiri e Zendikar e cem milhões de hedros cuidadosamente posicionados tivessem cumprido seu propósito, na mente de Sorin Markov.
Ela rosnou e enviou uma tempestade de dardos de pedra voando em direção a ele, cada um do tamanho de seu antebraço e afiado até uma ponta perversa.
Sorin explodiu alguns dos fragmentos em poeira antes que a alcançassem, enviou vários mais girando para longe com um golpe de sua espada, e grunhiu conforme três mais perfuraram seu corpo.
Seus olhos flamejaram brancos, brilhantes demais, e um grande peso assentou-se sobre os ombros de Nahiri, forçando-a de joelhos. Tudo estava tão brilhante—
Ela olhou para cima.
A lua. Ele convocara um feixe de luar, pesado como um rochedo mas sem substância alguma, para prendê-la. E finalmente, cercada pela luz dela, respirando seu aroma, ela entendeu o que havia de tão estranho na lua de Innistrad.
Paraselene | Arte de Ryan Yee
Era feita de prata. Como o Cofre Infernal.
Sorin arrancou os dardos de pedra de seu corpo um a um, os ferimentos fechando-se sem sangue. Ele caminhou em direção a ela. Mas seus passos eram incertos, sua espada pendendo. Teria ele se tornado tão decrépito?
Ainda assim, sua magia era forte. A luz prendia não apenas o corpo dela, mas sua magia. Enquanto se mantivesse, ela era impotente para afetar qualquer coisa fora de seu raio.
"Vá para casa, Nahiri", disse ele cansadamente. "Encerre esta farsa, e eu permitirei—"
Ela enterrou as mãos no solo, estendendo sua vontade não para fora, mas para baixo, e mergulhou na própria terra.
Afundou numa matriz de pedra, e por um momento deixou para trás sua raiva e a arrogância maldita de Sorin e aquele pedaço de prata estranho e inabalável cujo propósito ela ainda não conseguia captar. Havia apenas ela e a pedra, isolada de tudo exceto do batimento cardíaco lento e constante do mundo, como fora por cinco mil anos.
Poderia transplanar para longe, retornar a Zendikar e ao isolamento. Não precisava, de fato, da ajuda de Sorin. Não mais. Mas deixar as coisas sem resolução ali seria perigoso além de qualquer medida, convidando à retaliação. Teria feito um inimigo de verdade, então. E não partiria enquanto houvesse uma chance de evitar aquilo.
Os passos inquietos de Sorin ecoavam acima dela, caminhando em direção ao Cofre Infernal.
Moldou a pedra sob si em outra coluna, afinou a rocha acima dela até a consistência de água, e irrompeu do chão mais uma vez. Sorin dissipara o feixe de luar, e agora estava de costas para o Cofre Infernal para alguma medida de proteção.
Ela ergueu-se em sua coluna de granito, agigantando-se sobre ele, puxando um enxame de pedras do solo e dispondo-as ao seu redor.
Não queria matá-lo. Não queria realmente feri-lo. O que queria era que as coisas ficassem certas entre eles, da maneira como haviam sido. Mas para que aquilo acontecesse, teria que conquistar o respeito dele. E para fazer aquilo, teria que vencê-lo.
Ele estava apoiado em sua espada, agora. Se concordassem em tratar um ao outro como iguais, parecia que ela estaria lhe fazendo um favor.
Não estava certo. Ele estava fraco demais, mais fraco do que fora quando ela era jovem. Pensou em como o Cofre Infernal irradiava a essência dele, e perguntou-se exatamente quanto de si mesmo ele despejara ali dentro.
Enviou sua coluna de pedra deslizando para frente em direção a ele. Ao passar por uma das pedras flutuantes ao seu redor, estendeu a mão para dentro dela. Ela aqueceu instantaneamente, tornou-se derretida, conforme os metais em seu interior coalesciam em resposta à vontade dela.
Puxou uma espada litoformada e plenamente formada para fora da rocha e continuou avançando, até que Sorin estivesse sob ela, olhando para cima para a ponta branca de calor da espada.
"Sorin, você cumprirá sua promessa. Retornará comigo a Zendikar. Ajudará a verificar nossas medidas de contenção, e garantirá que os Eldrazi estejam seguros. Só então poderá se esquivar."
Sorin cuspiu.
Então tudo ficou brilhante novamente, mais brilhante que a lua, e uma forma veio gritando dos céus. Vislumbrou asas emplumadas e uma lança reluzente antes de a figura chocar-se contra ela, derrubando-a de seu pedestal. Tombaram juntas e chocaram-se contra o chão, onde cavaram um sulco profundo na terra. A disposição de pedras de Nahiri desmoronou no solo, sua concentração estilhaçada.
Finalmente, deitada de costas. Nahiri pôde ver seu atacante.
Avacyn, Anjo da Esperança | Arte de Jason Chan
Era um anjo, maior que a vida, com cabelo branco e pele branca e olhos escuros e inexpressivos. Nahiri estava sendo atacada por um anjo.
Nahiri conhecera anjos, em Zendikar. Eram distantes, e podiam ser temíveis, mas eram protetores, criaturas de justiça e de bem. E nenhum deles que ela já conhecera fora tolo o suficiente para atacar um Planinauta.
Antes que Nahiri pudesse falar, antes que pudesse sequer processar plenamente o que estava acontecendo, o anjo ergueu sua lança. Suas pontas brilhavam como sóis gêmeos, ofuscando-a.
Afundou mais uma vez em pedra, sentiu as pontas da lança cavarem a terra onde estivera deitada.
Sem tempo para repouso, desta vez. Irrompeu do solo num jato de estilhaços, espada ainda na mão, e enquanto o anjo se protegia da rajada de rocha, Nahiri atacou. Brandiu a espada, que ainda brilhava com o calor de sua forja.
O anjo ergueu sua lança para desviar, bem a tempo, e Nahiri atacou novamente, e novamente, e novamente, forçando o anjo para trás. Sentiu um senso vago de erro, lutando contra um anjo. Mas não — o anjo a atacara, sem provocação. E por quê? Para proteger Sorin? Mal podia aceitar o pensamento.
O anjo saltou no ar — mas não para recuar. Lançou-se para frente, para ficar acima de Nahiri, para atacar novamente. Nahiri ergueu-se novamente em uma coluna de pedra, para forçar o anjo ou a fugir ou a retornar à terra.
O anjo pousou novamente, mas manteve-se firme. Nahiri continuou seu assalto. O anjo era poderoso, sem dúvida. Mas não era nenhum Planinauta. Nahiri golpeou novamente—
—e sua espada parou bruscamente na de Sorin, interposta entre ela e o anjo.
"Basta!" arquejou ele. "Basta."
Ela olhou para além dele, para o anjo de olhos pretos como azeviche. Havia algo de familiar no anjo, algo inquietante, embora Nahiri tivesse certeza absoluta de que nunca a vira antes.
"O que é isto, Sorin? Como você trouxe um anjo para sua servidão? Quem é ela?"
"A outra metade", respondeu ele.
Sua mão disparou, rápido como um raio, e fechou-se ao redor da espada de Nahiri. Sua pele sibilou e chiou, mas ele não pareceu notar. Os dedos de Nahiri estavam dormentes, sua mente cambaleando. Ela ainda não entendia. Ele ergueu a ponta de sua própria espada para a garganta dela, arrancou a lâmina dela de suas mãos, atirou-a longe.
O anjo pousou suavemente atrás de Sorin, mas ele ergueu uma mão, e ela esperou. Um anjo esperava, por ele!
"Pelo que vale", disse Sorin, "nunca quis isto, pequena".
Então Sorin ergueu sua espada, lançou um feixe de luz manchada, e empurrou.
Nahiri voou para trás e chocou-se contra a superfície prateada do Cofre Infernal. Não era mais duro e frio, mas sim cedente. Acolhedor. Puxando.
Arte de Kieran Yanner
Fios de prata ávida fecharam-se ao redor de seu corpo, atraindo-a para dentro. Fragmentos de rocha giravam no ar, o leito rochoso sob seus pés deslocava-se com sua raiva, mas o próprio Cofre Infernal não se importava.
"Maldito seja!", gritou ela. "Eu confiei em você!"
Ele agigantou-se sobre ela, agora, as asas do anjo abertas atrás dele, e falou uma última vez antes que prata derretida inundasse seus ouvidos. Parecia quase triste. Quase.
"Nunca pedi por sua confiança, criança. Apenas por sua obediência."
Então o Cofre Infernal a reivindicou, e ela desapareceu numa escuridão vasta e total.
***
Repouso
Interlúdio
Pela escuridão, ela caía.
Não conhecia outra sensação — nenhum som, nenhuma luz. Nem sequer um fôlego de vento, pois dentro daquele lugar não havia nada, nem mesmo ar. Nada exceto ela, e a sensação infinita de uma descida para sempre inacabada. Não conseguia ver a mão na frente do rosto — não tinha certeza absoluta de que tinha um corpo sequer, naquele lugar.
Estendeu seus sentidos para fora, empurrou e puxou com seus poderes de litoformancia, tentando obter algum tipo de apoio no exterior de prata do Cofre Infernal. Mas o que estava ao seu redor não era prata. Era nada. Tentou transplanar, mas mesmo as Eternidades Cegas, o não-lugar caótico entre planos, estava fora de seu alcance.
Não era como seu casulo de pedra lá em Zendikar, a laje de rocha onde dormitara por cinco milênios inquietos. Em seu casulo, oniricamente, conseguia sentir toda Zendikar, estender-se a qualquer parte dela, aparecer onde desejasse.
Isto era muito, muito pior — apenas escuridão, e queda, e o perfume inconfundível de Sorin Markov.
Sorin pagaria por sua traição. Escaparia daquela prisão, e o faria pagar. Pensara que eram aliados. Amigos! Agora o via pelo que ele verdadeiramente era: um monstro, puro e simples.
Um monstro. Mas não um tolo. Ele sabia o que estava em jogo, lá em Zendikar. Não poderia estar tão confiante em suas defesas, em seu Cofre Infernal e seu anjo escravizado, que simplesmente permitiria que os Eldrazi escapassem. Libertá-la-ia, quando tivesse recuperado suas forças e se preparado para enfrentá-la. Emboscá-la-ia e a derrotaria, e permitiria que fosse para casa. Não poderia simplesmente deixá-la ali. Era impensável.
Mas teve muito tempo para pensar.
Com o tempo, chegou a uma decisão.
"Já chega", disse ela suavemente.
Não houve resposta, som algum. Suas palavras não ecoaram, mas desvaneceram na negrura infinita.
"Já chega!", disse ela, mais alto. "Qualquer que seja a lição que você está tentando transmitir, eu a aprendi. Acabe com isto, e partirei de Innistrad para nunca mais voltar. Claramente não resta nada para dizermos um ao outro."
Não houve resposta. E ela não ia se desculpar, e certamente não ia implorar. Não lhe daria a satisfação.
Pensava em Zendikar com frequência, em seus picos denteados e céus bocejantes. No câncer que lhe comia o coração, em vampiros enxameando sua superfície, construindo estátuas de deuses mais monstruosos do que sabiam. Nunca deveria ter partido.
O isolamento começou a roer as bordas de sua sanidade. Até um Planinauta, mesmo um que passara milênios em pedra, não fora feito para esse tipo de solidão. Até um Planinauta poderia perder a cabeça — e para um Planinauta, que era uma mente, as consequências seriam horríveis. Conhecera um Planinauta louco, uma vez. Uma vez fora mais que o suficiente. Ela não enlouqueceria.
No início era o pensamento de vingança ao qual se agarrava, de esmagar Sorin pelo que lhe fizera, pelo que poderia estar acontecendo em Zendikar mesmo agora. Mas só havia um certo número de formas de imaginar matá-lo, e mesmo agora o pensamento trazia pesar e cansaço mais que a satisfação fria da vingança. Seu ódio nunca vacilou, mas cristalizou-se e ficou imóvel.
Suas memórias de Zendikar tornaram-se sua lanterna no escuro.
Conhecia seu mundo até os ossos, e sua memória dele era perfeita. Pensou num lugar — nas trincheiras em Akoum que sua tribo percorrera, antes de ela ter abandonado a vida mortal e afundado na pedra. Em sua mente, construiu uma maquete daquelas trincheiras, traçando cada camada de basalto, cada fragmento de vidro vulcânico vermelho que compunha o regolito, cada grão e falha dentro do leito rochoso.
Fenda de Magma | Arte de Jung Park
Não era Zendikar. Era Zendikar como ela a lembrava — após os Eldrazi, mas antes de seu sono ter permitido que o mundo ficasse fora de controle.
Trabalhou seu caminho para fora através de Akoum conforme o tempo passava não contado, lembrando o grão de cada depósito sedimentar, a temperatura e viscosidade do magma que pulsava sob a superfície. Construiu para baixo, milhas abaixo, tão fundo quanto jamais ousara ir, até ter traçado as bordas da placa tectônica que carregava toda Akoum em seus ombros.
Segurava tudo aquilo em sua mente, deixando partes inalteradas pelo que pareciam anos de cada vez, encontrando-as novamente exatamente como as deixara. Sua mente era sua, e Zendikar era sua, e ela não soltaria nenhuma delas.
Foi impossível dizer por quanto tempo estivera caindo quando sua reverência foi interrompida. Não estava mais sozinha na escuridão. Estavam distantes, a princípio — apenas um lamento longínquo, ou o roçar de asas coriáceas. A falta de som de seu cativeiro não fora imutável, apenas o resultado de seu vazio.
Lentamente, ao longo de incontáveis anos, o Cofre Infernal foi povoado. Ela entendia, agora, seu propósito. Sorin não toleraria ameaças à sua preciosa Innistrad, e fizera aquela coisa — aquele poço, aquele lugar nenhum — para abrigá-las.
Ameaças, como demônios, e horrores. E ela. Passou um ano ou dez fervilhando, após aquela percepção.
A outra metade, dissera ele. Duvidava muito que ele estivesse aprisionando pessoalmente todos aqueles demônios. Chegou a entender o propósito do anjo naquilo tudo — no entanto Sorin a tivesse enganado ou subornado.
Eventualmente recriara toda Akoum em sua geografia mental de Zendikar, desde os picos maciços dos Dentes de Akoum até as águas paradas de Espelho d'Água. A água que cercava seu continente lembrado era um esboço, um rascunho apressado, em comparação — não entendia verdadeiramente como a água se movia, e assim as ondas que banhavam os despenhadeiros vermelhos de Akoum apenas chapinhavam de um lado para outro. Não focava nelas, para não quebrar a ilusão.
Só tinha que fazer um pouco de leito marinho antes de poder começar em Ondu. Estava especialmente ansiosa pelas ilhas da Coroa, com Valakut sendo sua joia flamejante. Mas recusava-se a fazer as coisas fora de ordem. Tinha todo o tempo do mundo.
Riacho de Pradaria | Arte de Adam Paquette
Os outros começaram a impactar Nahiri, a resvalar nela na escuridão infinita. Nunca os via — aquilo não mudara — mas os ouvia, gritando, no último instante antes de atingirem. Uma garra aqui, uma asa ali, um contato momentâneo com um pedaço de carne inumana e sem nome. E então se iam, de volta para a escuridão.
Marcava o tempo por aquelas distrações, por aqueles encontros breves e sem sentido com as coisas que habitavam o escuro. Não os odiava, mesmo quando seus números inchavam e seus impactos contra seu corpo-que-não-era-corpo tornavam-se mais frequentes, e mais dolorosos. Não tinha amor por demônios — abatera mais de um para impedi-los de assolarem seu mundo — mas não os odiava. Não ali.
Tinha pena deles. Eram prisioneiros, como ela, de Sorin Markov e sua executora angelical. E ao contrário de Nahiri, nunca teriam uma chance de vingança. Eram criaturas patéticas, lamentando e tagarelando, loucos ou aterrorizados ou ambos — mentes menores, quebrando sob a pressão de uma eternidade no escuro.
Nahiri estava acostumada ao isolamento, e sua mente era sua. Naquela negrura, era tudo o que tinha: sua sanidade, sua raiva, suas memórias de Zendikar... e uma grande quantidade de tempo.
Terminou com Ondu, tirando tempo extra no pico sagrado de Valakut. Passara anos meditando na caldeira do vulcão. Sua Zendikar era sua âncora, a coisa que a lembrava quem era e de onde vinha. Precisava acertar os detalhes.
Valakut, o Pináculo Derretido | Arte de Kieran Yanner
Às vezes voltava àquela caldeira, em sua mente. Mas não conseguia se contentar em apenas habitar em sua Zendikar. Não até que estivesse terminada.
Murasa foi um trabalho rápido, uma grande laje de pedra surgindo do mar. As florestas do continente eram notáveis, mas não a interessavam, e não fez tentativa alguma de recriá-las. Bala Ged deteve sua atenção por um tempo muito longo, traçando os contornos mutáveis da Baía de Bojuka e a rede sinuosa de cavernas sob as Matas de Guum.
Depois disso foi para Guul Draz — monótona na camada superior, mas tão fascinante quanto Bala Ged abaixo da superfície. Estava na metade da fabricação dos tubos de lava subterrâneos que moviam os pântanos geotérmicos agitados do continente quando — finalmente, após anos não ditos — algo mudou.
Luz — um clarão breve, ofuscante na escuridão, dispersando seu foco e, por um momento de pânico, obscurecendo sua Zendikar inteiramente. E então havia algo com ela, uma presença mais substancial que aqueles demônios tênues e lamentadores. Sorin? pensou ela, por um instante — mas não. Não ele. Não... exatamente. Muito abaixo de Nahiri, sóis gêmeos acenderam-se, iluminando o nada, e ela ouviu o roçar suave de penas.
O anjo — aqui? Em sua própria prisão? Aquilo era interessante.
As luzes aproximaram-se, e agora Nahiri conseguia ver — ver, pela primeira vez em séculos. A lança do anjo brilhava, e ela gemia com o esforço conforme a balançava em amplos arcos ao seu redor. Suas asas estavam abertas, inutilmente, tentando empurrar contra nada de forma alguma.
Os demônios enxamearam o anjo, gritando e batendo as asas. Haviam deixado Nahiri em paz todos aqueles anos, resvalando nela apenas incidentalmente. Mas conheciam seu carcereiro. Conheciam sua única chance de vingança.
O anjo subiu em direção a Nahiri — lentamente, lentamente, naquele vazio atemporal — até estarem lado a lado. A nuvem de demônios dissipara-se conforme a protetora de Sorin ganhava a vantagem. O anjo olhou para Nahiri, e por um momento seus olhares se travaram — e finalmente Nahiri entendeu. Sorin não escravizara um anjo. Não a enganara nem coagira. Aquele anjo fedia a Sorin, exatamente como o Cofre Infernal.
Ele a fizera. Exatamente como o Cofre Infernal.
O anjo a reconheceu, de sua luta há tanto tempo. Olhos escuros brilharam com fúria — fúria que Sorin instilara. Ele a criara em sua própria imagem, distorcida desde o início. Fizera-a odiosa. Fizera-a dele. Nahiri estremeceu.
Outro ser gravemente injustiçado por Sorin Markov, um sem chance de vingança ou reparação. Sem chance de liberdade. Uma boneca de porcelana, para substituir a aluna que ele perdera.
Nahiri não saberia dizer por quanto tempo caíram assim, juntas, olhando-se nos olhos. A fala parecia impossível, após todo aquele tempo.
E então houve luz, luz real, conforme o vazio ao redor delas rachou e se desfez e finalmente...
ela estava...
fora...
***
Ruína
Há um ano
Nahiri chocou-se contra uma superfície de mãos e joelhos, sua queda interminável finalmente terminada. Seus olhos rejeitaram a noção de luz, seus ouvidos assaltados por uma rajada de ruído cacofônico. Focou sua visão, e a luz ofuscante resolveu-se em formas, o barulho em vozes, a superfície rústica sob ela em uma pequena rua de paralelepípedos limpa. Ergueu a cabeça. Pessoas gritavam e corriam por toda parte, fogos ardendo, cadáveres — cadáveres? — arrastando os pés, e acima de tudo estava o anjo maldito de Sorin elevando-se no ar num feixe de luz branca.
E ao seu redor caíam estilhaços de prata.
Arte de Todd Lockwood
Suas mãos pareciam estranhas. Sentir... parecia estranho. Olhou para as palmas. Estavam ensanguentadas. Ensanguentadas. Comandou que os ferimentos se fechassem, mas nada aconteceu. Seu corpo não era mais uma extensão do seu senso de si mesma. Mais uma vez, como fora há muito tempo, era apenas... um corpo. Carne e osso. Conseguia sentir o sangue bombeando em suas veias, os arquejos pesados forçando ar para dentro de pulmões que não haviam precisado de nenhum por milênios. O mundo girou ao seu redor.
Tinha que partir. Antes que ele a encontrasse. Se conseguisse partir, se ainda fosse sequer uma Planinauta.
Empurrou as paredes do mundo, experimentalmente, e tentou mover-se naquela direção irreal que apenas Planinautas conseguiam sentir. Sentiu as paredes do mundo ao seu redor — ela ainda era uma Planinauta, o que quer que tivesse acontecido ao seu corpo — mas conforme as sondava, aquelas paredes provaram-se muito mais firmes do que lembrava. Haviam sido uma bolha de sabão; agora eram uma barreira que levaria vontade e tempo para superar. Estaria ela tão diminuída?
Mas não. Não. Empurrou, da maneira que sempre fizera. O problema não era a força. As paredes estavam realmente mais altas, mais grossas. As Eternidades Cegas estavam menos conectadas àquele lugar do que quando ela chegara. A forma do universo mudara, enquanto ela caía. Conseguia sentir.
Ainda era uma Planinauta. O que quer que aquilo significasse.
Com esforço, lançou-se nas Eternidades Cegas. Elas a rasgaram, assaltaram-na, exatamente como sempre fizeram. Desorientada como estava, havia apenas um plano que poderia possivelmente ter alcançado — o que ele esperaria que ela corresse, se estivesse procurando. Mas não havia como evitar aquilo.
Seus pés encontraram a terra rochosa de Zendikar, e pela primeira vez desde que seu aprisionamento começara, ela estava em solo sólido. Zendikar, a verdadeira Zendikar. Lar. Estava parada não longe de onde partira, há tanto tempo. No coração denteado de Akoum, perto do que deveria ser o Olho de Ugin.
Mas o Olho era uma ruína, colapsado sobre si mesmo. Campos de escombros estendiam-se sob ela e ao seu redor, hedros e fragmentos de rocha vulcânica vermelha girando preguiçosamente pelo ar. Suas geometrias cuidadosas, a matriz de hedros meticulosamente posicionada que cercara o Olho, e a própria câmara haviam sido simplesmente... destruídas.
Não. Não.
Os três titãs Eldrazi haviam escapado, enquanto a protetora de Zendikar definhava no fosso de Sorin Markov. Tudo o que construíra ali, tudo pelo que trabalhara, viera à ruína durante seu longo aprisionamento.
Nahiri cerrou os punhos ensanguentados. Onde? Onde estavam eles? Talvez os Eldrazi tivessem deixado Zendikar. Talvez seu mundo estivesse finalmente livre deles.
Estendeu seus sentidos pelas pedras ao seu redor até sentir um tremor familiar por perto, apenas a mais leve vibração — os passos leves e ágeis de seus companheiros kor. Escalou uma crista para alcançá-los, persuadindo as pedras a mantê-la ereta para que pudesse poupar suas mãos sangrentas. Os ferimentos ainda não fechavam.
Vigia do Penhasco | Arte de Eric Deschamps
Um grito subiu de uma sentinela, e Nahiri gritou roucamente, sua própria voz uma estranha para ela. Foi um grito de resposta, um sinal sem palavras que significava simplesmente, sou kor.
Foram necessários apenas alguns punhados de respirações antes que uma dúzia de kor de aparência cansada a cercasse.
"Você está ferida", disse um deles, uma mulher alta com uma cicatriz estranha e franzida em seu ombro nu. As inflexões eram diferentes, os ritmos estranhos, mas falavam a mesma língua. A mulher alta ergueu as mãos, fazendo-as brilhar com magia de cura. Nahiri assentiu, e a outra mulher tocou suas palmas, fechando os arranhões raivosos abertos em outro mundo por paralelepípedos e fragmentos de lua.
"Sou Tenri", disse a mulher, conforme os ferimentos de Nahiri fechavam.
Nahiri não respondeu, e tentou parecer absorta no processo de cura. Não sabia quanto lembravam dela — ou, mais precisamente, da sinistra Nahiri, a Profetisa, cuja estátua vira antes mesmo de seu tempo no Cofre Infernal.
"Você está sozinha", disse a sentinela, um homem adornado com armas e cordas. "Sem equipamento algum."
"É uma longa história", disse Nahiri. "Sou... uma eremita, suponho. Estive fechada por muito tempo, e as coisas mudaram. O que aconteceu com o mundo?"
Encararam-na, boquiabertos.
"Os Eldrazi e suas obras estão em toda parte", disse a sentinela. "Onde você esteve, que não os conhece?"
"Silêncio, Erem", disse a mulher alta. Tenri. "Ela não tem equipamento porque é uma forjadora de pedras, e provavelmente esteve em solitude aprimorando seu ofício."
"Algo assim", disse Nahiri. Endireitou a braçadeira vermelha que a marcava como uma mestre forjadora de pedras, maravilhando-se que as tradições de seu povo tivessem sobrevivido a tanto tumulto e tanto tempo sem orientação.
"No ano passado", disse Tenri, "três monstruosidades enormes surgiram dos Dentes de Akoum. Aparentemente estiveram adormecidas abaixo da superfície por um tempo muito longo. Sua progênie espalhou-se por toda parte, mas os três, os titãs, foram piores. Por onde passam... nada resta".
"Existem alguns", disse Erem, "que acreditam que eles são Kamsa, Talib e Mangeni em carne e osso".
Vários dos kor cuspiram. Nahiri conhecia apenas um dos nomes, Talib. Vira-o entalhado sob uma estátua de si mesma, chamando-a de sua profetisa. Durante sua longa ausência, e sua reverência mais longa antes dela, histórias mal lembradas dos Eldrazi — histórias que ela, em muitos casos, fora a primeira a contar — haviam passado para a lenda. Os monstros que espreitavam dentro de Zendikar haviam se tornado seus deuses.
Nahiri cuspiu também.
"Nada resta..." ecoou ela. "Onde? Onde estiveram? O que perdemos?"
"Bala Ged", disse Erem.
Nahiri esperou que ele dissesse mais, que dissesse quais partes de Bala Ged haviam sumido. Nada disse.
Bala Ged. Um continente inteiro...
"Preciso ver por mim mesma", disse Nahiri.
Erem bufou. Bala Ged ficava muito longe dali. Tenri assentiu.
"Posso equipá-la, antes de partir", disse ela. "É o mínimo que posso fazer."
Erem balançou a cabeça.
"Não temos falta de equipamento", disse ele. "Não depois de termos perdido tantos."
"Que os deuses vão com você", disse Tenri. "Quaisquer que sejam os deuses que você consiga reunir hoje em dia."
Nahiri apertou o ombro da mulher mais alta.
"Obrigada por sua ajuda", disse Nahiri. "E sinto muito por não poder ter feito mais."
Afundou nas pedras sob seus pés, deixando para trás seus companheiros kor — estranhos para ela, tão parecidos com ela quanto ela era com Sorin.
Sentiu a extensão do dano. Os lugares profundos do mundo estavam crivados de novos túneis, incrustados com alguma substância estranha que confundia seus sentidos. Em todos os lugares que olhava, havia devastação. Em todos os lugares havia sinais dos Eldrazi, paisagens erodidas de formas que ela sequer conseguia entender. E longe dali, através do mundo, em Bala Ged—
Concentrou-se — exigia concentração, agora — e deslocou-se através de seu mundo, procurando pela fonte do erro. Sentia-se zonza, enjoada. Deveria esperar, e descansar, e recuperar sua força.
Tivera o bastante de esperar. Tinha que ver o que estava acontecendo. Apareceu em Bala Ged, no que deveria ter sido selva luxuriante. O que se estendia diante dela era uma extensão aparentemente infinita de poeira cinza-gredosa — mais sem vida que qualquer deserto, como a superfície de uma lua.
Ermos | Arte de Jason Felix
Não havia nada como aquilo na Zendikar que ainda mantinha em sua cabeça, no modelo mental que construíra laboriosamente ao longo dos anos de seu aprisionamento. Em sua Zendikar, Bala Ged estava viva e selvagem. Nesta Zendikar, estava morta. Nada vivia ali. Até as rochas estavam silenciosas.
O chão tremeu sob seus pés, e ela não conseguia sentir a fonte dos tremores. A poeira estremeceu.
Ela virou-se. Ali, no horizonte, vasto e horrível, estava um ser que vira duas vezes antes — uma vez em um mundo perdido para os Eldrazi, e uma vez quando o aprisionara e aos seus irmãos em Zendikar. O Devorador. Aquele que Ugin chamava de Ulamog.
Ulamog, a Fome Incessante | Arte de Michael Komarck
Nahiri caiu de joelhos, pressionando as mãos naquela poeira sem vida.
Se aquilo estava solto em seu mundo—
Se o que acontecera ali pudesse acontecer em toda parte—
Se ela não tivesse preparativos, um fragmento fino de seu antigo poder e uma rede de hedros com séculos de desajuste—
Então a Zendikar que conhecia estava morta. Não havia como salvá-la. Poderia-se tanto tentar parar o sol no céu. Fechou os olhos e viu sua Zendikar, Zendikar como fora. O mundo que deixara Sorin Markov destruir. Lágrimas quentes de raiva correram por seu rosto e pousaram naquela poeira terrível com um sibilado.
"Como Zendikar sangrou, Innistrad sangrará."
Abriu os olhos e olhou para baixo para suas mãos, para mãos que haviam moldado pedra e prendido titãs. Estavam cobertas de poeira cinzenta.
"Como chorei, Sorin chorará."
Olhou para cima para a coisa no horizonte, observando-a mover-se pela paisagem como um desastre natural.
"Isto eu juro, sobre as cinzas do meu mundo."
Nahiri levantou-se.
Tinha muito trabalho a fazer.
Nahiri, a Arauto | Arte de Aleksi Briclot
22 de Junho de 2016 | Por Kimberly J. Kreines
Emrakul se Ergue
A loucura em Innistrad chegou ao seu auge. Jace e Tamiyo testemunharam o confronto de Sorin com Avacyn e, depois, observaram enquanto o vampiro destruía o anjo. Toda Innistrad estremeceu quando Avacyn deu seu último suspiro. Agora o plano está sem uma protetora, exposto a ameaças tanto do mundo quanto de além — exatamente como Nahiri deseja. Rumores podem ser sentidos por toda a terra, e tremores abalam os poucos corações que resistiram à loucura.
***
= Os Despenhadeiros de Selhoff
Nahiri fizera um grande trabalho.
Ela cumprira seu voto, aquele que fizera parada na poeira de Bala Ged. Ainda havia poeira sob suas unhas e nas dobras mais profundas de suas roupas; ela a deixara ali como um lembrete. Desde que deixara Zendikar, ela se esforçara, cada hora de cada dia e até tarde da noite, permitindo que sua raiva a alimentasse. Ela se tensionara, estendendo-se para dentro das Eternidades Cegas com as pontas dos dedos que ardiam pelo éter que inchava, labutando em pedra, em magias mais poderosas do que jamais ousara empunhar antes, e tudo fora dez vezes mais difícil do que ela lembrava. Mas ela não reclamara uma única vez, nem uma vez vacilara ou parara para descansar. E agora, finalmente, ela seria recompensada. Ela veria seu trabalho valer a pena. E Sorin também.
A salvaguarda final de Innistrad caíra. Nahiri sentira o levantamento do último resquício de proteção como uma armadura de placas pesada removida de um soldado após a batalha. O mundo fora deixado nu e vulnerável. Apenas desta vez a batalha não terminara. Acabara de começar.
"Como Zendikar sangrou, Innistrad sangrará." Nahiri segurou o fôlego. O solo sob seus pés deslocou-se. O plano começou a pulsar, tomado por tremores, como uma cadeia de reações explosivas batendo fundo sob a superfície e ecoando pela noite. Sorin sentiria também. Esse pensamento deu a Nahiri grande satisfação. "Venha!", gritou ela para o céu. "Venha a mim. Venha a Innistrad!"
Paisagem Distorcida | Arte de Cliff Childs
Ela sentiu então: uma presença.
O ar tornou-se quente e imóvel, e Nahiri inspirou profundamente. Sim. Ela conhecia aquele cheiro muito bem. Um frisson a inundou com uma intensidade que ela não sentia há séculos. Correu para a borda do despenhadeiro, suas pernas girando fora de controle, sua mente incapaz de acompanhar o bater de seu coração, o martelar de seus pés.
Ela olhou para a água. Para o templo que construíra para o deus. Não estava mais vazio. Lágrimas brotaram nos cantos dos olhos de Nahiri, mas ela as limpou. Aquele não era o seu momento de chorar. "Como chorei, Sorin chorará."
A forma sob a água cresceu, as ondas agitaram-se e a superfície ameaçou romper-se. Finalmente. Era a hora.
= Os Brejos de Gavony
Era a hora. Hora de orar.
Querida Arcanjo Avacyn. Minha mãe me disse que se eu ficasse com medo, deveria orar. Estou com medo agora.
Arte de Dan Scott
Embora ladeado por cátaros com lâminas reluzentes e armadura de aço duro, Maeli encolheu-se. Sentia-se sozinho.
Sentia-se sozinho desde que fugira da aldeia no dia em que os anjos horríveis vieram com sua chuva de fogo. Correra para a floresta como sua mãe lhe dissera, e não voltara para a aldeia. Quisera voltar cem vezes. Mas ela lhe dissera que não importava o que acontecesse, ele não poderia retornar, e os olhos dela estavam mais sérios do que ele jamais os vira. Ele achara melhor ouvir. Agora desejava não ter ouvido. Agora desejava estar em casa.
Ele apertava o coelho de pelúcia que lhe fora dado pela velha de cabelos grisalhos. Aquela que o encontrara na mata e o levara para sua casa que cheirava a doces e pão amanhecido. Ela lhe dissera para chamá-la de Sra. Sadie, e dissera que a casa dela poderia ser a casa dele pelo tempo que ele quisesse. Mas aquilo nunca fora o que ele queria.
Querida Arcanjo Avacyn. Eu quero ir para casa. Por favor. Posso ir para casa?
Não houve resposta. Em vez disso, braços grossos e contorcidos estenderam-se para ele, disparando pelo espaço entre as lâminas dos cátaros; eram os mesmos braços contorcidos que irromperam do peito da Sra. Sadie naquela exata noite enquanto comiam o jantar. Acontecera não muito tempo após Maeli ter sentido sua cadeira estremecer, e um tempo ainda menor após uma rajada de vento ter soprado pelas venezianas abertas, trazendo consigo um cheiro de néctar doce demais. Sua colher estava em sua boca quando o peito da Sra. Sadie rachara; ele estava no meio do caminho de engolir uma bocada de ensopado ralo. A maior parte do ensopado saíra pelo nariz, e o queimara, dentro da cabeça, por trás dos olhos. Fizera-o chorar. Lágrimas escorreram por suas bochechas enquanto a Sra. Sadie e seus braços demais o perseguiam.
"Fiquem para trás!" Os cátaros moveram-se na grama alta, decepando um braço após outro. Um pousou aos pés de Maeli. Ao olhar para baixo para ele, seu interior torceu-se e remexeu-se; aquele era um de seus braços verdadeiros, ele tinha certeza. Havia um pedaço da blusa amarela que ela estava usando e, mais adiante, sua grande verruga marrom e peluda piscava para ele.
Maeli enterrou a cabeça no coelho de pelúcia enquanto uma lágrima escorria por sua bochecha. Por favor, Avacyn. O anjo viera a ele uma vez antes. Ela o ajudara. Quando ele estava assustado e perdido. Sua mãe lhe dissera que Avacyn viera porque ela orara pela ajuda do anjo, orara tão forte que Avacyn não pudera ignorá-la. Maeli não sabia como uma oração poderia ser mais forte que outra oração; não sabia como fazer sua oração tão forte que Avacyn não pudesse ignorá-la, mas sabia que tinha que tentar. Gritou sua oração o mais alto que pôde na pele úmida e emaranhada do coelho de pelúcia. "POR FAVOR, AVACYN! AJUDE-ME!"
"Avacyn se foi!" A voz perfurou o poço frio no estômago de Maeli, e o medo gélido vazou, infiltrando-se por sua espinha e pela nuca. Como dedos frios, alcançou sob seu crânio, agarrando sua cabeça e voltando seus olhos para o céu.
Um anjo.
Purificação Angélica | Arte de Zezhou Chen
Por um momento fugaz, a esperança pulsou no coração de Maeli. Esperança que era uma mentira, ele soube mesmo ao senti-la; o anjo pairando acima não era Avacyn.
"Ela está aqui agora", disse o anjo, olhando diretamente nos olhos de Maeli. "Ela está surgindo! Surgindo!" O anjo jogou a cabeça para trás e soltou um riso agudo que preencheu o céu. Então abruptamente parou de rir e ficou completamente imóvel como se estivesse congelado no céu. "Eu — I'amrakul!" Ela mergulhou, sua lâmina cortando o ar à sua frente. Maeli apertou os olhos. Por favor.
= A Costa de Nefália
Por favor. Por favor, escolha-me. Edith apertou os dedos dos pés com força contra a rocha lisa e úmida, garantindo seu apoio. Estava tão perto quanto conseguia chegar agora. Tão perto quanto poderia estar até o surgimento, até o tornar-se. No entanto, queria estar mais perto.
Por favor, escolha-me. Roubou um olhar apressado primeiro sob um lado de seu capuz e depois sob o outro. Sim. Confirmou que as rochas mais próximas a ela estavam vazias de outros cultistas. Empertigou-se. Orgulhosa. Ninguém mais estava ali, onde ela estava. Ninguém mais estava tão perto. Ela era a mais próxima. "A mais próxima." Queria estar mais perto.
"Escolha-me! Me! Me'mrakul." Ergueu os braços, estendendo-os ao céu, abrindo-se àquela que estava vindo.
As ondas quebravam sobre ela. Conseguia sentir; era a hora.
Arte de Joseph Meehan
"Emrakul!" O nome, o poder, a plenitude desdobraram-se dentro dela enquanto a água fervilhava. "Emrakul!" A totalidade a abraçava, entrelaçava-se com ela, tornava-se ela. O mar inchou para o alto em direção ao céu. "Escolha-me, Emrakul. Leve-me. Emrakul."
Outras vozes ergueram-se atrás dela, entoando junto com ela, em tempo com o brilho magenta que pulsava sob a superfície da água. "Escolha me'mrakul. Leve me'mrakul. I'amrakul."
O brilho tornou-se mais forte, mais radiante, mais poderoso, e tornou-se uma luz firme e inabalável. Edith avançou centímetro a centímetro em sua rocha, seus dedos dos pés buscando apoio. Ela era a primeira. A mais próxima. Mais perto agora. Ainda mais perto.
Ao seu redor, os grandes pilares de pedra retorcidos soltavam faíscas na noite. Raios violetas de poder disparavam das bordas pontiagudas, saltando de um para o vizinho e depois para o próximo. O poder dela. Era todo o poder Dela. Tudo era Ela. Mais perto. Mais perto.
Arte de Jaime Jones
O inchar da água enviava ondas quebrando e ricocheteando. Não havia mais distinção entre o mar e a terra. Edith moveu-se para mais perto. Nunca antes fora a mais. A melhor. Nunca antes. Mas nunca antes importara. Importava agora, e ela era o agora. A mais. A mais próxima. A melhor. "I'amrakul!"
Uma explosão explosiva de mar disparou para o céu, subindo como uma grossa coluna de pedra, tombando sobre si mesma, desmoronando e crescendo simultaneamente, o caos em movimento. E então congelou, como se o tempo tivesse parado. Ficou pendurada ali como um despenhadeiro rochoso no céu. De baixo, houve um estrondo.
E então Emrakul surgiu.
Arte de Tyler Jacobson
Edith não pôde conter o lamento que irrompeu de seu peito. O som de sua voz inchou com a ondulação do poder Dela, e fundiu-se com a ressonância do abraço Dela, completa.
Emrakul viu Edith ali diante dela. Olhou para baixo para Edith com um enorme e brilhante olho magenta.
E Edith viu Emrakul. Olhou fixamente, transfixada, para o brilho, caindo cada vez mais fundo na intensidade de Seu ser. Havia tanto para ver, tanto para se tornar. Ela fora escolhida. "I'amrakul."
Ela inclinou-se para mais perto.
= As Profundezas de Ulvenwald
Ela inclinou-se para mais perto, pressionando as costas contra as de Alena. Estavam de costas uma para a outra e cercadas; Hal sentiu o impulso de se render, de desabar no chão. Mas em vez disso, focou no calor que irradiava dos braços esculpidos de Alena, a sensação dele contra sua própria carne úmida, e agiu como se o mundo não estivesse à beira do colapso. "Por onde você quer começar?" Lançou a pergunta casualmente por sobre o ombro.
Passo a passo, rodaram juntas no lugar, avaliando a tarefa à sua frente. Estavam em um bosque em Ulvenwald, mas o Ulvenwald não era a mata que conheciam. Tudo se tornara retorcido e horripilante: as árvores agora tinham braços com dedos longos e delgados que se estendiam para puxar o cabelo de Hal, as sarças tinham bocas que balbuciavam e gritavam, os musgos tinham pernas que os carregavam como ratos que correm, e agora até os moradores da cidade, que não pertenciam ali na mata, haviam cedido à força coercitiva e se tornado coisas que eram muito piores que os piores monstros que Hal já conhecera.
"Deveríamos começar com os moradores", disse Alena.
Hal assentiu.
Havia três, tão mutados que suas formas humanas eram mal reconhecíveis.
"Venha'mrakul. Seja'mrakul", chamavam eles.
Hal sentiu a atração das palavras deles. Haviam cedido ao chamado da maneira como Hal fora tentada a ceder. Haviam desmoronado e agora não precisavam mais lutar contra ele.
"São'mrakul. Somos'mrakul."
Os ouvidos de Hal zumbiam e seu interior rastejava. Seria tão fácil. Ela poderia—não! O batimento cardíaco constante de Alena dizia "não".
"Começarei com o saltitante e você pega o grosso." A voz de Alena não hesitou, nem uma única vez.
Hal forçou-se a ignorar a constrição na garganta, o aperto na cabeça. "Parece um plano." Ela tentaria. Lutaria. Agarrou sua lâmina e fechou a mente para o cântico confuso. O grosso. Focou no grosso — e então arquejou.
"Alena. Alena, aquele é o—" Hal não conseguiu terminar.
Alena espiou. "Ancião Kolman. Que o anjo o salve."
Arte de Dan Scott
Hal foi tomada pela vertigem, sua visão escureceu. Impossível.
"São'mrakul." A abominação do ancião cambaleou para frente. Foi tudo o que Hal pôde fazer para brandir sua espada e bloquear seu braço grosso e ramificado.
"Venha'mrakul. Seja'mrakul." As palavras do Ancião Kolman tombavam pela mente giratória de Hal. Como poderia este monstro ser o homem que um dia conhecera?
Ele desferiu um golpe contra ela com um braço que era como o tronco de uma árvore. Hal cambaleou para trás, a mente atordoada.
"São'mrakul. Seja'mrakul." As palavras a envolviam repetidamente, engolfando-a. Diziam-lhe para não pensar, não se preocupar, apenas render-se. Be'mrakul. I'amrakul.
"Hal?" A voz de Alena. "Hal! O braço dele. Cuidado na direita!"
Hal ouviu as palavras, mas não lhes deu sentido. Subitamente um lampejo de prata fendeu o braço grosso do Ancião. A lâmina de Alena. Hal sabia que deveria balançar sua espada também. Mas ela estava tão pesada. Não queria ser balançada.
Seja'mrakul. Um'mrakul. Sentia como se estivesse flutuando.
"Hal!" Alena soava perturbada. Mas ela estava longe. Tão longe.
Seja'mrakul.
"Fique comigo, Hal."
São'mrakul.
"Eu preciso de você."
I'amraku—
"Por favor!"
Foi o toque de Alena, seus dedos suados agarrando o pulso de Hal, que arrancou Hal do abraço sufocante. Olhou para a mulher que amava.
"Hal? Oh por favor, Hal."
Não queria que Alena ficasse perturbada. Não queria que Alena estivesse tão longe. E não queria que Alena estivesse sozinha.
Tinha que lutar. Era difícil. Mais difícil que qualquer coisa que já fizera. Mas tinha que fazer. Expulsou o aperto da mente e encontrou dentro de si a força para erguer sua lâmina. "Estou bem, Alena", disse ela. "Ficarei bem."
"Claro que ficará." Hal sentiu a tensão deixar o corpo de Alena conforme Alena a ajudava a se levantar.
"Seja'mrakul." As papadas do ancião estalavam.
Hal olhou furiosa para ele — não, aquela coisa não era um ele, não era o Ancião Kolman. Era um monstro. Um que ameaçava arrancar Hal da mulher inabalável ao seu lado. Ela não permitiria.
"Deveríamos pegá-lo juntas, eu acho." Alena assentiu para o monstro.
"Sim, acho que seria o melhor."
Ficaram lado a lado, ombros pressionados próximos. Alena inspirou. "Ao meu sinal."
Hal não precisou do sinal de Alena para alertá-la; sentiu o movimento dos músculos de Alena e os seus responderam instintivamente. Juntas, moveram-se como um machado de duas cabeças, golpeando em ambos os lados mas sempre conectadas no meio. Alena cortou o ombro esquerdo do monstro conforme a lâmina de Hal fendia o direito. Os apêndices contorcidos pousaram no chão aos seus pés, mas a abominação não pareceu notar. Lançou-se contra elas. "Somos'mrakul!"
Hal balançou novamente, decapitando o homem outrora sagrado. Ainda assim ele continuou a entoar: "I'amrakul, são'mrakul, Emrakul!".
Hal não suportava ouvir as palavras por mais tempo. "Cale a boca!" Ergueu sua lâmina e a desceu com tal força que clivou a cabeça do ancião em duas. Uma massa de raízes em treliça saltou para fora como se tivessem estado comprimidas lá dentro com força demais todo esse tempo.
O cântico cessou. Estava feito.
Hal estendeu a mão e a de Alena estava lá. A imediação com que seus dedos se entrelaçaram disse-lhe que Alena estaria sempre lá. Silenciosamente fez uma promessa de retribuir o mesmo.
"Somos'mrakul." Era a voz de outro morador vindo de trás. "Seja'mrakul."
Hal quis gritar. E então ela viu. Uma abertura, sobre o corpo caído do ancião, uma que levava para fora do bosque de horrores. "Venha!" Puxou a mão de Alena. "Por aqui!"
Alena seguiu Hal para fora através dos apêndices que se estendiam e massas contorcidas. Para fora, para as árvores. Para onde o ar não fedia a carne apodrecida. Para onde as sarças permaneciam enraizadas e o musgo não deslizava em manchas nauseantes pelo chão.
Correram até não conseguirem mais ouvir o cântico, até não conseguirem mais sentir a pressão em suas cabeças. E então correram mais longe, até seus músculos cederem e seus pulmões gritarem. Pararam na borda de um despenhadeiro, colapsando uma na outra, testa contra testa, mãos agarrando ombros, tendo fôlegos coalescendo no espaço minguante entre seus lábios.
"Hal."
"Alena."
Nunca entregariam aquilo; nunca soltariam.
= Os Céus sobre Innistrad
Nunca soltariam, nunca. Haviam visto a luz, sentido o poder. A verdade as envolvera. Tinha as feito.
Bruna se fora.
Gisela terminara.
Em vez disso, haviam se tornado. Ela. Um. Um'mrakul.
O anjo de Emrakul separou quatro asas, estendeu dois braços e gritou com uma única voz que brotou de duas bocas: "Nós somos Emrakul!".
Arte de Clint Cearley
Estavam em Sua imagem, a imagem da verdade eterna, e a voz delas era Dela. "Nós somos Emrakul!"
O chamado delas atraiu outros. "Somos'mrakul!" Vozes ergueram-se do mundo abaixo, fundindo-se num único som, uma única verdade. "Um'mrakul, seja'mrakul, somos'mrakul!"
Era glorioso. Era tudo. Era Ela.
O anjo de Emrakul liderava todos abaixo em seguir Sua forma radiante. O que outrora era escuro estava agora banhado em Sua luz, luz verdadeira que se espalhava cada vez mais longe, um amanhecer florescente que logo tocaria cada canto do mundo. "Todos são Emrakul! Nós somos Emrakul!"
= A Estrada Retorcida para Thraben
Nós somos Emrakul. Todos são Emra— "Gah! Não." Jace expulsou as palavras rodopiantes de sua mente com um golpe firme. "E fiquem fora."
Tamiyo o ensinara como combater o toque enlouquecedor de Emrakul, mas manter o baluarte mental era mais desafiador do que a moonfolk fazia parecer. Aquilo era um problema. Um grande problema para o seu plano.
Toda vez que focava por tempo demais em algo que não fosse o Eldrazi, Sua treliça maculada rastejava de volta para sua cabeça, corrompendo suas defesas e enterrando-se nos recessos mais profundos de sua mente.
Desta vez fora a visão do anjo deformado no céu acima que distraiura Jace. Fizera bem em manter os olhos nas costas de Tamiyo, mantendo o foco na caminhada deles pelas rochas; estava seguindo-a em direção ao que ela chamava de ponto de nexo. Mas a presença do anjo fora demais para ignorar. Tão impossivelmente alienígena era sua forma que a curiosidade de Jace levara a melhor. Relanceara para cima e fora atraído instantaneamente, tendo que trabalhar para analisar o que testemunhava. A princípio pensara ser um demônio, mas era muito pior que aquilo. No momento em que resolveu as múltiplas asas, o tecido conectivo em treliça entre as cabeças duplas, a voz fundida e ecoante, ele se perdera. Aquilo era inaceitável. Precisava ser capaz de confiar em sua mente para o que estava prestes a fazer. Estava realmente prestes a fazer? Poderia realmente justificar trazer o restante deles para cá, para serem atacados por esta loucura?
A pergunta caiu no poço de seu estômago e inchou numa onda de náusea. Pensara que fosse a coisa certa. Não pensara? Sim, chegara a isso como a única solução. Estava certo — quase certo. Perto de certo. "Gah!" Jace jogou os braços para o alto.
"Shh!" Tamiyo lançou um olhar de repreensão por sobre o ombro.
"Desculpe." Jace ergueu as mãos defensivamente.
Tamiyo olhou feio mas voltou-se para a trilha, para sua lanterna mágica e seus passos suaves. Deveria contar a ela. Dizer-lhe para esperar aqui e ele traria ajuda. Aquilo era maior que algo que os dois pudessem lidar sozinhos. Na verdade, sempre fora, mesmo quando Jace pensara que era apenas o anjo louco, Avacyn. Se não fosse por Sorin lá na catedral — Sorin. Jace amaldiçoou o antigo vampiro que trouxera Innistrad à beira da destruição e então meramente derivara para longe, deixando a bagunça para Jace limpar.
Mas um titã Eldrazi não era algo que ele pudesse limpar sozinho. Nunca fora destinado a ser algo que tivesse que fazer sozinho. O próprio Gideon dissera a Jace para voltar a Zendikar se ouvisse notícias do titã. Bem, Jace fizera melhor que aquilo; ele A encontrara. Gideon deveria ficar bastante satisfeito.
À frente, Tamiyo parou na margem e segurou sua lanterna ao alto. Jace seguiu os tentáculos de luz magicamente aprimorada, erguendo os olhos ao céu. Assim que o fez, desejou não ter feito.
Era a primeira vez que realmente A via: o titã, Emrakul.
Arte de Jason A. Engle
Jace estava transfixado.
Emrakul era maior, ele juraria, que qualquer um dos outros. E, do seu jeito, muito, muito mais poderosa. Estivera neste mundo por apenas um curto tempo, e já tanto dele parecia pertencer a ela. Toda Innistrad se desenraizara para segui-la. Cultistas, deformados em sua semelhança, arrastavam-se sobre as rochas, abandonando tudo o que foram em suas vidas anteriores. Animais e monstros da mesma forma, na terra, no céu e no mar aglomeravam-se atrás dela conforme ela ia. As árvores, musgos e sarças, até as algas rastejavam para fora da água para estarem mais perto de sua presença deformadora.
Jace, também, sentiu o impulso de ir a Ela. I'amrakul.
Não.
Queria sacudir a si mesmo. Tinha que limpar a mente. Tinha que pensar. Não podia deixar que Ela tivesse o que queria. Novamente imitou o que Tamiyo o ensinara, fechando as mãos em punhos com o esforço. O processo de garantir que não houvesse resíduo de delírio não era diferente de limpar teias de aranha de dentro da cabeça. Teias de aranha espessas, em treliça, exaladas por uma monstruosidade Eldrazi imponente decidida a consumir a mente de cada ser vivo neste mundo. Jace estremeceu.
Aquilo era o que teria que ser capaz de fazer por eles, por Gideon e Chandra e Nissa. Teria que proteger as mentes deles junto com a sua. Não poderia trazê-los para cá e então deixá-los serem consumidos por Ela. Não o faria. Então a questão era: conseguiria fazer? Perguntara a si mesmo aquela mesma coisa o que pareceu cem vezes, e no entanto não tinha a resposta.
"Você diz que A chamam de Emrakul?" A voz curiosa de Tamiyo atraiu Jace de seus pensamentos. Relanceou para ela; o rosto dela era um estudo em serenidade, como se manter sua mente contra a loucura não fosse mais difícil que respirar.
"Sim", disse Jace. "Essa é uma das coisas que A chamam."
"Fascinante que tal ser tenha um nome." Tamiyo levantou seu telescópio do cinto e o colocou no olho. "Pergunto-me se é assim que Ela se chama."
Jace nunca parara para fazer aquela pergunta. Nunca pensaria ser algo que valesse a pena perguntar; os moonfolk viam as coisas de forma muito diferente dele. Encarou a forma massiva de Emrakul à frente, tentando vê-La da maneira que Tamiyo via. Olhou para o Seu enorme olho magenta. Era quente e acolhedor. Perguntou-se o que encontraria se entrasse. Conteve-se, bem no precipício. Qual é o seu nome? perguntou ele Como você se chama?
Um dilúvio de palavras ecoou de todos os cantos de sua mente:
O eterno infinito — este mundo é meu.
O absoluto — eu terei tudo.
O começo — eu serei tudo.
O ser — todos são'mrakul.
O fim.
O fim.
O fim.
Jace recuou, arquejando por ar. Aquele não era o fim. Não seria o fim. Nem para ele, nem para Innistrad. Tinha que parar de duvidar, parar de procrastinar; tinha que confiar em sua mente. Relanceou novamente para a serena Tamiyo; se ela conseguia fazer, ele conseguia fazer, conseguia fazer por eles. Sim. Era hora de trazer as Sentinelas para Innistrad. Limpou a garganta. "Tamiyo, eu tenho que ir."
"O quê?" Tamiyo virou-se, seus olhos lavanda arregalados.
"Há três outros. Planinautas. São poderosos, são os melhores que existem, e podem ajudar. Tenho que ir buscá-los. Em outro mundo, matamos dois outros como aquele." Assentiu em direção a Emrakul sem olhar realmente para Ela.
Tamiyo pareceu relutante em acreditar nele. "Dois?"
"Foi preciso todos nós, mas sim."
Tamiyo inclinou a cabeça e apertou os olhos para os dele. Jace teve o impulso de desviar o olhar — sentiu-se culpado sob o escrutínio dela, embora não soubesse o porquê. E então subitamente ela sorriu. "Você matou. Sim, você realmente e verdadeiramente matou. Nossa, agora essa é uma história que terei que ouvir." Ela suspirou. "Mas em outra ocasião. Se a história deste mundo espera por um fim que não seja trevas, cada um de nós deve fazer sua parte."
"Você virá comigo?"
"Não, Jace. Esse não é o meu caminho."
"Você estará aqui quando voltarmos?"
"Estaremos todos onde devemos estar."
Jace abriu a boca para argumentar, mas então sentiu um toque calmante em sua mente. Tamiyo. Não precisava mais lutar para segurar sua sanidade; nem percebera que estivera se esforçando tanto. Foi como se uma dor de cabeça terrível tivesse finalmente passado. Alívio. Relaxou nela.
"Protegerei sua mente para que você possa transplanar", disse Tamiyo. "Vá."
Naquele momento, não havia nada que Jace quisesse mais do que fazer como ela dizia. Queria ir, deixar este mundo, deixar o titã. Retornar ao mundo que já haviam salvo: Zendikar. Portal Marinho. Os tritões, os kor e os vampiros juntos. Nissa estaria lá, seus olhos verdes acesos. E Gideon com seus ombros largos e sorriso pronto, e—
"Bem, olhem só quem resolveu aparecer. Ei, Gideon, aqui!"
—Chandra.
"Já estava na hora!" O tropel de botas materializou-se nos ouvidos de Jace, e a imagem residual de Emrakul agigantando-se acima deu lugar ao rosto sorridente de sua amiga.
29 de Junho de 2016 | Por Doug Beyer
A Última Esperança de Innistrad
Graças às maquinações de Nahiri, o titã Eldrazi Emrakul foi libertado em Innistrad. Enquanto isso, Liliana esteve em uma torre da Mansão Vess, sondando os poderes — e as dolorosas repercussões — do artefato Véu de Corrente. Desde que brigou com Jace, Liliana decidiu que só pode contar consigo mesma para enfrentar seus demônios.
***
Fios finos de metal pendiam das pontas do Véu de Corrente. Liliana Vess quase conseguia ver seu reflexo nos recipientes de vidro espectral onde os fios levavam, e na treliça do orbe de banimento de bruxas no parapeito da janela, e nos tubos condutores que levavam para fora da janela e para cima no telhado. As gravuras em seu rosto eram apenas visíveis através do Véu. As linhas em sua pele combinavam com a luz ameaçadora das nuvens de tempestade lá fora. Relâmpagos piscavam apropriadamente.
Dois demônios ainda precisavam morrer. Mas ela tinha que garantir que não morreria ela mesma quando conseguisse enfrentá-los. O Véu de Corrente era uma arma potente, mas potencialmente mortal para quem o empunhasse. Se isso funcionasse, ela poderia usar o Véu com segurança. Não precisaria da ajuda de algum mago mental que persistia em perseguir algum mistério selvagem pelas províncias. E ela poderia livrar o Multiverso de seus credores de uma vez por todas.
"Estamos prontos?", perguntou Liliana.
O Véu de Corrente | Arte de Volkan Baga
Os outros na torre com ela não haviam demonstrado uma fração da inteligência do Garoto do Manto, mas teriam que bastar. O geístomante, Dierk, listava itens para si mesmo em um microsussurro enquanto ajustava uma série de bicos e apertava grampos no orbe. O assistente de Dierk, Gared, estava à janela, seu único olho grande alternando entre o equipamento e a tempestade de raios fora da torre. Gared mantinha a mão em uma alavanca apropriadamente considerável.
"Os coletores estão erguidos, senhora", disse o geístomante. "E a tempestade está atingindo seu auge. Mas sinto-me obrigado a ressaltar que estaremos enviando uma dose enorme de energia espectral diretamente para o artefato..."
"Você não precisa me avisar", disse Liliana.
"...alimentada pela força de uma tempestade de raios."
"Sim."
"Enquanto você o estiver usando."
"Eu sei."
"No seu rosto."
Liliana revirou os olhos. "O fluxo de energia de geists através do orbe agirá assim como uma espécie de antena espectral, desviando o contra-ataque do objeto para longe do sujeito, sublimando o ricochete como estática atmosférica inofensiva, contornando todas as repercussões e, assim, permitindo a utilização livre do artefato."
Dierk olhou para Gared e bateu na boca com as pontas dos dedos enluvadas. "Essa é a teoria."
"Olha, Dierk", disse Liliana. "Minha amiga o recomendou porque achou que você sabia algo sobre habitação espiritual. Você sabe ou não?"
"Claro que sei, senhora", disse Dierk, sobressaltado.
"Então—?"
"Então vamos prosseguir." Dierk ajustou os óculos de proteção sobre os olhos. "Devo acrescentar... isso vai doer."
"A dor é temporária", disse Liliana, recostando-se na cadeira. Os fios balançavam dos pontos de suspensão do Véu de Corrente. "Além disso, não aprendemos nada testando isso no Gared."
Gared sorriu. Seu olho maior fechou-se por um momento como o de um réptil. Dierk assentiu para ele, e ele baixou a grande alavanca com força.
Arte de Adam Paquette
O orbe de banimento de bruxas zumbiu e os mostradores flexionaram-se. Liliana conseguia sentir os elos do Véu tocando as curvas de seu rosto.
"Está ativado", disse Dierk. "Agora tudo o que temos que fazer é esperar por um raio próximo de—"
Relâmpago.
Os dentes de Liliana cerraram-se involuntariamente conforme o surto vinha. Lassos contorcidos de energia floresceram nos fios que vinham dos coletores do telhado, e os espíritos dos mortos seguiram-se imediatamente. Geists gritaram pelos tubos, prechendo o orbe e o vidro reforçado com gritos eletroespectrais. Um spray de faíscas saiu do equipamento, mas o circuito resistiu.
Uma rajada de energia uivante circulou pelo Véu. Liliana sentiu o peso dele levantar ligeiramente de suas bochechas, seus elos flutuando contra a força da gravidade.
Ela relanceou para os outros. Dierk desistira de tentar ajustar grampos e interruptores e pressionara as costas contra a parede, protegendo o rosto com os braços. Gared estendeu um dedo em direção a um cacho de energia que se debatia e recuou quando o tocou. Entre eles ela conseguia ver suas marcas brilharem no equipamento, o diagrama gravado de seu contrato demoníaco formando um halo de reflexo ao redor dela.
Era quando Liliana se sentia mais bela — quando estava prestes a empunhar um poder que fazia os outros terem medo.
Ela agarrou os braços da cadeira e clamou pelo poder do Véu.
O ricochete foi imediato e total. Os milhares de almas que residiam no Véu a preencheram com poder, mas o poder vinha acompanhado de dor, e a dor era um veneno ofuscante. Inextricável da magia que ele proporcionava. O circuito de geists não desviara nada do ricochete.
Béquer estouraram e os coletores explodiram.
"Vou encerrar!", disse Dierk, alcançando a alavanca.
"Não", disse Liliana, sua voz uma adaga. Dierk retirou a mão.
A sala tremeu. Liliana agarrou a cadeira, tentando manter a sala imóvel, tentando conter o grito que queria desesperadamente sair, tentando ver qualquer coisa que não fosse a dor. A dor é temporária.
Quando não conseguiu mais conter, ela gritou. Fusíveis queimaram e a torre escureceu. O uivo espectral desvaneceu, até que Liliana ouviu apenas suas próprias respirações exaustas.
Gared riscou um fósforo e acendeu uma lanterna. O laboratório era uma zona de desastre. O equipamento estava arruinado. Gotas de chuva respingavam no parapeito da janela.
Liliana desabotoou o Véu de Corrente e o deslizou da cabeça. Sangue vertia de suas gravuras.
"Mencionei os riscos, senhora", disse Dierk.
Ela olhou furiosa para ele, imaginando a pele do geístomante definhando e seu esqueleto articulando as palavras "sinto muito". Em vez disso, ela assentiu com a cabeça em direção à porta. "Pode se retirar. Devolva o orbe à sua proprietária." Um estrondo de trovão residual foi sua pontuação.
Dierk rapidamente coletou o orbe de banimento de bruxas gasto e alguns outros itens em sua bolsa e partiu. Os ecos de seus passos recuaram pelas escadas em espiral. Gared gentilmente empurrou uma pilha de vidro quebrado com o pé, mas não partiu.
Liliana guardou o Véu de Corrente no bolso da saia. O que havia de melhor e mais brilhante em Innistrad não fora de ajuda alguma. Tomos e grimórios de remédios espectrais jaziam tortos. Nem mesmo o maior especialista em geists de Olivia fora capaz de domar o Véu.
Liliana olhou pela janela para a tempestade que trovejava sobre o campo de Stensia, limpando suas palavras de pele com um lenço. Na penumbra, Thraben brilhava como uma vela distante.
Ela detestava depender de outra pessoa.
Mas não era que ela precisasse do Garoto do Manto, dizia a si mesma. Era meramente que ela precisava que as pessoas precisassem dela, para ter alguns corpos vivos para se colocarem entre ela e um par de senhores demônios pretensiosos.
Se ao menos ele pudesse lhe dever algo de alguma forma.
De baixo veio o grito de um homem. Uma luta ruidosa e um estrondo seguiram-se.
Liliana atirou seu lenço manchado de carmesim para o lado e desceu as escadas em espiral.
Ouviu-os e sentiu o cheiro antes de vê-los — seus rosnados guturais e seus lamentos babosos e famintos. O fedor de pelo úmido sobre o fedor de sangue.
Arte de Joseph Meehan
Lobisomens. Toda a sala do trono de Liliana estava invadida.
E pareciam — não doentes, exatamente, mas deformados, como se sua carne e ossos tivessem sido massa nas mãos de alguma força mutante não natural. Suas extremidades dobravam-se de formas estranhas, enrugando e amassando como tapetes de algas marinhas.
Mas ainda eram lobisomens, e ainda tinham garras. Dierk jazia no chão, o peito aberto. O conteúdo de sua bolsa e sua caixa torácica estavam ambos espalhados pelo chão. Seu rosto estava pálido, travado num olhar de surpresa, e ele exalava seu último suspiro como um balão esvaziando.
Os lobisomens voltaram-se para Liliana, farejando. Um deles rugiu, e tinha olhos onde sua língua deveria estar.
Uma série de feitiços, mortais, cada um talhado para um dos lobisomens à sua frente — era o que aquilo pedia. Apenas poder suficiente para despachar cada um, para que o suficiente deles abrisse um caminho para a porta da mansão.
"Gared!" Liliana gritou por sobre o ombro. "Pegue seu casaco."
O Véu de Corrente não se moveu de seu bolso.
***
Horas depois, a tempestade amainara, mas o campo de Stensia tornara-se um zoológico distorcido. Liliana notou que cada transeunte tinha algo remodelado neles. Os corpos de vampiros errantes tinham as silhuetas erradas, sempre com falta de algo, ou excesso. Viajantes anatomicamente improváveis deliravam profecias de pedra e mar para eles enquanto cambaleavam em diagonais.
Finalmente, Liliana, Gared e — hesitantemente — Dierk, chegaram à porta monumental.
A Fortaleza de Lurenbraum erguia-se acima deles, um penhasco austero com uma cidadela que se projetava diretamente da face da rocha. Mais acima, a arquitetura utilitária suavizava-se e alongava-se em fileiras de janelas de chumbo ornamentadas, cada uma com seu próprio candelabro flutuante de velas cintilantes. Em muitas das janelas, vampiros olhavam para baixo para eles, vestindo armaduras ancestrais reluzentes.
Liliana gesticulou para Gared bater.
Gared boquiabriu-se com a altura da porta. "Você realmente conhece a dona da casa?", perguntou ele.
Dierk, por sua vez, emitiu um ruído borbulhante. O pescoço do homem estava quebrado, então sua cabeça repousava num ângulo estranho e sua garganta parecia encaroçada. Mas ao menos suas pernas o trouxeram até ali, e ao menos seus braços foram capazes de carregar o orbe de banimento de bruxas gasto. O casaco longo de Gared estava amarrado apertado ao redor da seção média de Dierk, fazendo o seu melhor para segurar o restante das entranhas do homem morto. Liliana ergueu levemente a mão, e Dierk aprumou os ombros, mas sua cabeça ainda pendia para um lado. A língua ressecada não permanecia completamente dentro de sua boca, contribuindo para o borbulhar. Liliana deu de ombros.
"Minha ocupação é conhecer aqueles que empunham poder", disse Liliana. "Assim como a dela."
Gared bateu na porta e afastou-se.
A porta abriu-se, e uma mulher imponente em um vestido ornamentado — ou possivelmente uma mulher ornamentada em um vestido imponente — apareceu. Ela estendeu um cajado de sacerdote que irradiava como brasas quentes no rosto de Liliana.
"Ela não está recebendo visitantes humanos", disse a mulher, mostrando as presas ao falar. Suas íris eram poços pretos que pareciam fumegar.
Sacerdotisa do Salão de Sangue | Arte de Mark Winters
"Estou devolvendo algo que pertence a ela", disse Liliana.
A mulher parou, inspecionando visualmente Dierk e o orbe de banimento de bruxas gasto que ele carregava. "Deixe-o aqui. Depois parta desta propriedade, antes que eu convoque uma invocação sobre você."
Gared fez um movimento para confrontar a sacerdotisa vampírica, mas Liliana o parou com um toque. Numa cidadela cheia de vampiros, não se lutava quando ainda havia uma chance de bajular. "Eu falaria com Olivia diretamente, por favor. Diga-lhe que Liliana Vess deseja vê-la."
"Eu lhe disse, ela não está recebendo mortais."
"Mortais!" Liliana riu. "Abençoado seja o seu coração sem sangue."
A sacerdotisa vampira ergueu o cajado bem alto, o símbolo denteado na ponta distorcendo o ar com o calor.
"Oh Liliana, minha querida!" Olivia Voldaren apareceu na porta subitamente, dispensando a sacerdotisa com um breve mas vicioso silvo. A sacerdotisa postou-se ao lado, baixando a cabeça, mas seguindo Liliana com os olhos.
Olivia estava gloriosa em armadura segmentada preta. Como de costume, seus pés não tocavam o chão. "Você veio para celebrar as boas notícias?", perguntou ela, conduzindo seus convidados para dentro. "Venha, venha!"
"Apenas devolvendo seu orbe", disse Liliana. "E seu geístomante. E esperando que você possa saber o paradeiro de um conhecido meu." Ela sorriu agradavelmente para a sacerdotisa ao passar por ela. "O que exatamente estamos celebrando?"
Olivia pegou o braço de Liliana, flutuando ao lado dela e atraindo-a mais para dentro da cidadela. "Ora, a longa espera acabou! Você não soube?"
Entraram numa ampla galeria onde vampiros elegantes estavam parados ou pairavam em cada escadaria, cada patamar. Centenas de olhos observavam Liliana e seus acompanhantes conforme Olivia os liderava pelos salões inferiores da fortaleza. Cada vampiro que já portara o nome Voldaren parecia estar no edifício, olhando feio em uníssono.
Aristocrata Indulgente | Arte de Anna Steinbauer
Liliana fez um movimento furtivo com uma mão. O cadáver de Dierk, o geístomante, arrastou-se até uma cadeira dourada antiga, desabou nela e ficou inerte com o orbe no colo. O casaco ao redor de sua cintura espremeu-se, segurando seu conteúdo o melhor que pôde.
Olivia inclinou-se conspiratoriamente, apertando o braço de Liliana. "É o arcanjo! Pufe!" Ela cacarejou. "Uma mancha no chão da Catedral de Thraben. Oh, mas é simplesmente bom demais."
"Avacyn está morta?" Um pequeno pensamento sobre Jace desceu sobre ela, como uma mariposa pousando em seu cabelo. Ele estivera no rastro de Avacyn quando se falaram pela última vez.
Olivia fez um gesto amplo com o braço. "Nós da noite podemos nos regozijar, pois o mundo é nosso novamente! Eu fiquei bastante zangada quando soube que ela fora libertada de sua pequena armadilha."
Liliana ergueu as sobrancelhas um milímetro.
"Mas Sorin recobrou o juízo e encerrou aquela coisa dele. E agora, devo dizer, tudo se resolveu muito bem, não?" Olivia riu. Conduziu Liliana adiante, por galeria após galeria. Gared desapareceu no labirinto.
Liliana acompanhou o passo de Olivia. "E agora você está levantando um exército."
Chamado da Linhagem | Arte de Lake Hurwitz
"Bem, minha querida, acontece que quem quer que tenha aberto o Cofre Infernal—"
Liliana manteve seu rosto corretamente polido.
"—soltou mais do que apenas o arcanjo", continuou Olivia. "E mais do que apenas... aqueles seus amigos demônios. Eles libertaram aquela outra, também. Uma bebida?" Ela sinalizou para um vampiro próximo. "Você aí, traga uma bebida para nossa convidada."
Um vampiro empurrou uma taça de vinho na mão de Liliana — vinho de verdade — e afastou-se ruidosamente em sua armadura ancestral ornamentada.
Fora a própria Liliana, é claro, quem causara a quebra do Cofre Infernal e o derramamento de seu conteúdo por toda Innistrad. Ela abatera o demônio Griselbrand, e as outras consequências de sua abertura não tinham importância para ela. Não vira razão alguma para deixar seus conhecidos sociais vampiros saberem de nada daquilo.
"E ela parece bastante ofendida, agora que está livre", prosseguiu Olivia. "Não posso dizer que a culpo. Como eu disse, estava brava antes, mas agora eu adoraria saber quem os libertou a todos, apenas para expressar minha total gratidão!"
Liliana não sabia quem mais poderia ter escapado do Cofre Infernal, quem era tão importante para Olivia. Mas tinha uma intuição de que estava conectado às mudanças que vira por toda Innistrad. Os lobisomens deformados em sua mansão. O campo de vampiros retorcidos e pregadores do apocalipse delirantes.
Aquele era o tipo de coisa que fascinava o Garoto do Manto. Liliana só queria que alguns demônios morressem. Mas talvez os dois pudessem estar ligados afinal.
Emergiram em uma sala de estar ampla e de carpete espesso. Um vampiro alto de cabelos brancos em um casaco longo estava de costas para eles, olhando pelas altas janelas para a noite.
Liliana sentiu garras cavarem seu armo. "Sabemos que foi você", sibilou Olivia, subitamente pairando bem ao seu ouvido. "Sabemos que você os libertou." Ela acrescentou, brilhantemente, "Não é mesmo, Sorin?".
Sorin Markov virou-se para encará-las. Vestia o ódio como um traje extravagante.
Sede de Sorin | Arte de Karl Kopinski
"Você", disse ele.
"Vejam quem nos fez uma visita", disse Olivia, sua voz toda delicada e polida mais uma vez. "Sorin, acredito que você conhece Liliana Vess?"
"Você fez isto", disse Sorin. "Você libertou a Litoformadora e trouxe isto sobre nós."
Liliana arrancou o braço do aperto de Olivia e recompôs-se. Caminhou até Sorin e o avaliou de cima a baixo. Finalmente riu baixo, tirando um grão de poeira da lapela de Sorin. "Eu tinha negócios a tratar", disse ela. "Não é minha culpa se seu armário estava cheio de esqueletos."
"Você não tinha o direito", disse Sorin, cada palavra como uma lâmina numa pedra de amolar.
"Sorin, você e eu temos outro assunto a tratar", disse Olivia, flutuando ao redor deles. "Mas eu seria negligente se não permitisse a vocês dois a oportunidade de colocarem a conversa em dia, não seria?"
Sorin aproximou seu rosto do de Liliana. "Tudo isto é por sua causa. A Litoformadora está livre, e agora devemos enfrentá-la."
"Você tem um belo exército vampírico reunido", disse Liliana. Ela sorriu com desdém para ele. "Ou — deixe-me adivinhar — é mais uma força de defesa? Você a ofendeu, não foi?"
As presas de Sorin brilharam. "Eu lhe disse quando você veio aqui como um filhote. Innistrad é minha. Você se mete em meus assuntos, você morre."
Liliana olhou-o nos olhos, seus dedos descendo para tocar os anéis do Véu de Corrente em sua cintura. As gravuras começaram a brilhar em sua pele, e seu cabelo flutuou levemente. "Innistrad pode ser seu domínio, Sorin", sussurrou ela. Deu um tapinha no braço dele. "Mas a morte é minha."
Sorin rosnou, retirando o braço bruscamente e pressionando a fronte contra a dela. Seus olhos desviaram-se apenas brevemente para o pescoço dela.
"Agora, meus amigos!" Olivia riu levemente, colocando-se entre eles. "Por mais animada que eu ficasse ao ver vocês dois se despedaçarem por toda a minha sala de estar... Sorin, parece que a hora chegou. Junte-se a mim lá fora. Nahiri aguarda." Ela gesticulou em direção às janelas altas, para a noite.
Liliana ficou impressionada com o que viu através do vidro. O que haviam sido os restos da tempestade de raios era agora um aglomerado inchado de nuvens fervilhando sobre a costa de Nefália. Gavinhas de névoa estendiam-se em todas as direções. Não eram apenas alguns lobisomens ou vampiros que estavam sendo deformados. Qualquer que fosse a força que chegara — ela ameaçava despedaçar toda Innistrad.
Olivia deslizou uma espada da bainha. "Liliana, querida, receio que você tenha exaurido meu suprimento de especialistas em geists e brinquedos espectrais. Mas talvez você queira se juntar a nós? Foi você quem libertou Nahiri, afinal. Ela pode até querer agradecer a você."
Liliana apenas observava as nuvens. Aquilo era magia profunda e antiga, alteradora de mundos e vingativa. "Ela causou isto?"
"O ato mesquinho de uma maga mesquinha", murmurou Sorin. "Com um senso de justiça equivocado."
"Então foi você quem causou tudo isto", disse Liliana. "Você a injustiçou!"
"E agora vamos injustiçá-la novamente", disse Olivia com um sorriso cheio de presas.
Emoldurada nas janelas da fortaleza, a massa atmosférica deslocava-se lentamente de sua origem sobre a costa de Nefália, inclinando-se em direção à província de Gavony e à Cidade Alta brilhantemente iluminada. O céu parecia enrugado e rasgado, pensou Liliana, como aqueles lobisomens. Era como se o plano inteiro — todo o mundo natal de Sorin — tivesse sido maculado de propósito, deformado de horizonte a horizonte, apenas porque Sorin se importava com ele. Quem quer que Nahiri fosse, Liliana tinha que admitir — ela não fazia as coisas pela metade.
"Você não está nem um pouco preocupado com o que a vingança dela está fazendo com Innistrad?" perguntou Liliana. "Jace está..." — ela se empertigou — "há milhares de pessoas lá fora."
"Este mundo está arruinado", disse Sorin. "Ela garantiu isso. E seu Jace morrerá em Thraben com o restante deles."
"O que Sorin quer dizer", disse Olivia alegremente, "é que parar Nahiri certamente parará o desagrado que ela causou. Estamos numa missão heroica!".
Liliana olhou para fora, depois olhou de volta para Olivia, agora com uma ternura terrível. "Oh, sua doce criança."
Sorin deslizou sua espada da bainha, languidamente, como um pensamento tardio. "Vamos, Olivia." Virou-se e saiu da sala de estar e da mansão sem mais uma palavra.
Olivia flutuou atrás dele, e fileiras de vampiros Voldaren seguiram atrás, sua armadura ecoando pelos corredores.
Liliana seguiu-os para fora. Ao ver Gared novamente, disse: "Gared, pegue seu casaco".
Gared olhou tristemente para seu casaco e iniciou a tarefa de extraí-lo de Dierk.
***
Emergiram para a noite. O vento uivava agora, grandes cones de sucção fustigando o céu. Um brilho avermelhado e de outro mundo flutuava ao longo dos ventres distendidos das nuvens.
Liliana afastou o cabelo do rosto enquanto ele chicoteava de um lado para o outro. Olhou para as colinas distantes de Gavony conforme grandes sombras coalesciam sobre elas. Aquilo era o que Jace estava tentando parar, pensou ela.
Sorin mal olhou para trás por sobre o ombro conforme ele e os vampiros se reuniam. Sorin apontou com sua espada. "Venha, Olivia", entoou ele sobre o vento. "É hora de você cumprir sua parte no acordo."
Olivia sorriu alegremente e voou para o ar. O exército vampírico marchou encosta abaixo, espadas e piques e símbolos de sacerdotes em brasa erguidos ao alto — para dentro das névoas, para a batalha contra Nahiri.
Não para batalhar contra os horrores que Nahiri causara a este mundo. Não para ajudar Jace, fora de seu juízo.
Este mundo estava destinado a morrer, então, pensou Liliana. Seus protetores haviam todos o abandonado. Era hora de dizer adeus. "Adeus, Mansão Vess."
O céu proferiu um som insondável que sacudiu os ossos de Liliana. Na distância, Thraben brilhava como uma estrela caída repousando no horizonte. "Adeus, Garoto do Manto."
Mas ela viu-se caminhando encosta abaixo, em um caminho diferente do dos vampiros. Viu-se na estrada. Viu-se passando por uma vala de forca, onde os criminosos jaziam em suas covas, aguardando a parte eterna de sua sentença. Viu-se estendendo a mão. Cadáveres rastejaram para fora da terra. Continuou caminhando. Os cadáveres a seguiam.
Viu-se passando por outro cemitério, e mais outro. Um pequeno santuário à beira da estrada, uma vala amaldiçoada cercada de ferro, um mausoléu de honrados cátaros mortos. A cada vez, ela estendia a mão. A cada vez, os mortos a obedeciam, libertando-se de seu descanso e cambaleando atrás dela.
Arte de Joseph Meehan
Enquanto caminhava na direção de Thraben, ela alcançou sua cintura. Quase conseguia ouvir as dezenas de essências espectrais zombando dela, entoando para ela de dentro do Véu de Corrente — por sobre o som dos zumbis obedientemente cambaleando e arrastando os pés pela estrada atrás dela.
Sorin e Olivia não iam fazer nada sobre a crise que Nahiri causara. E a única pessoa com quem ela podia contar para entender — ele e seu cérebro quebrado, irritante e insondável — estava seguindo sua curiosidade direto para uma morte bagunçada, distorcida e quase certamente inevitável.
Não era que ela precisasse dele. Era simplesmente que ela precisava que alguém precisasse dela.
"Bem, Gared", disse ela alto para o vento.
Ergueu os braços, sentindo as gravuras como vasos sanguíneos quentes em sua pele.
"Parece que sou..."
Mais uma dúzia de zumbis irrompeu do solo, compelidos a seguir em seu rastro de poder necromântico.
"...a última esperança..."
Os cadáveres não pareciam deformados — ao menos, não mais deformados do que seus ossos desalinhados já haviam se tornado pelos seus anos no chão. Os mortos inquietos pareciam ignorar os efeitos. Liliana sorriu com desdém.
"...deste mundo."
Liliana, a Última Esperança | Arte de Anna Steinbauer
6 de Julho de 2016 | Por Ari Levitch
Campanha de Vingança
Um rancor de mil anos está chegando ao seu auge.
Para Sorin, é pela distorção de seu lar ancestral. É pelo desfazimento de Avacyn. É pela vinda de Emrakul.
Para Nahiri, é pela traição de um amigo. É pelo milênio passado presa no Cofre Infernal. É pela ruína de Zendikar em sua ausência.
Quando dois antigos Planinautas duelam, planos inteiros sentem o impacto.
Eles a chamavam de Arauto. Não estavam errados, esses fanáticos e cultistas, e eles a haviam seguido até aqui, crescendo em número enquanto ela iniciava seu trabalho em Innistrad. Eram devotados a ela, e lembravam a Nahiri que a única coisa que valia a pena salvar em todo este mundo amaldiçoado era sua vingança.
O coro monótono e sem sentido de centenas de cultistas ecoava pelos salões enquanto ela encarava o rosto do vampiro. Ele era uma coisa feia, com lábios retraídos para revelar dentes horrendos, afiados e impiedosos. Dois olhos, lascas de âmbar nadando em poças de tinta, encaravam-na de volta, ou melhor, através dela. Pelo que Nahiri podia notar, esse sugador de sangue estava vestido para o luxo, e ele, como as dúzias de seus parentes ao seu redor, estava incrustado na parede. Todos mortos. Por conta dela.
Ela odiava este lugar, a Mansão Markov. Como tanto deste plano, fedia a Sorin. Mesmo estilhaçada, retorcida e remodelada, como ela fizera, não fora suficiente para purgar a sensação dele dali. Mas ali estava ela. Preparações haviam sido feitas, e o trabalho precisava ser verificado.
É um negócio intrincado, a vingança, mas Nahiri tivera mil anos para considerá-la.
Um. Mil. Anos.
Fora tempo suficiente para considerar sua vingança de todos os ângulos e níveis de profundidade, para encená-la, ajustá-la e encená-la novamente até que tudo estivesse em seu lugar — até que fosse um plano.
E agora, conforme Nahiri passava pelos ossos retorcidos da Mansão Markov, ela se permitiu um leve sorriso. Tudo estava de fato em seu lugar, onde ela colocara — tudo exceto Sorin. E ele estaria ali em breve.
Ela trouxera algo especial consigo desta vez também, uma coleção que reunira quando soube que Sorin estava trazendo um exército para enfrentá-la. Claro, ela tinha seus cultistas, mas vingança não era hora para desleixo.
Os primeiros das forças de Sorin a chegarem foram os estandartes, tecidos antigos que pendiam de mastros de madeira preta, carregados por cavaleiros vampiros envoltos em armaduras de placas polidas. Centenas de vampiros seguiam atrás deles, espalhando-se pela colina baixa oposta à mansão.
Nahiri observou a procissão da entrada em arco maciça da mansão. Quando Sorin finalmente emergiu à frente de sua força reunida, a mandíbula de Nahiri estava cerrada. Sorin dizia algo aos vampiros mais próximos dele, embora ela não conseguisse distinguir o que era.
Arte de Igor Kieryluk
Não importava o que ele estivesse dizendo, porém. Tudo aquilo terminaria agora. Espada na mão, Nahiri deu um passo para a luz baça do dia, para a calçada quebrada, e saudou Sorin.
***
Um guincho metálico cortou o clangor da batalha enquanto Nahiri arrastava a lâmina de sua espada do peitoral ornamentado de um vampiro morto. O cadáver era um de vários que jaziam ao seu redor em um semicírculo frouxo. Pulmões ofegando, ela lançou-se sobre a pilha sem vida para encontrar um grupo de novos atacantes.
Tantos deles.
Mas ela só precisava de um.
Um machado entrou em vista, vapor carmesim flutuando atrás de sua lâmina preta. Nahiri esquivou-se para fora de alcance e cravou a ponta de sua espada na garganta de outro atacante que a pressionava pela direita. Com um empurrão para baixo de sua mão livre, o chão à sua frente subitamente afundou, de modo que quando o machado descreveu um arco num segundo ataque, ele mordeu a borda da depressão. Lascas de pedra voaram do impacto, e Nahiri as pegou com sua magia e as impeliu no rosto desprotegido do empunhador do machado.
Outros fecharam o cerco ao redor dela. Uma delas, uma mulher toda em armadura de placas esmaltada de branco, deu um passo à frente de entre eles. Ela segurava sua espada baixa, e Nahiri notou que a arma tinha um par de lâminas que se torciam em uma hélice até se encontrarem para formar uma ponta perversa. A vampira falou, nunca tirando os olhos de Nahiri: "Você não vai escapar".
Nahiri inclinou a cabeça e ergueu uma sobrancelha. "Escapar?"
"Quando isto acabar", a vampira de branco continuou, "beberei seu sangue de—" Mas a vampira silenciou quando um consolo de mármore esmagou sua boca, pulverizando aqueles dentes grotescos. Nahiri o arrancara dos destroços que pendiam suspensos no alto. Já ouvira o suficiente. Conforme a vampira de branco desabava no chão, Nahiri enviou o pesado bloco de alvenaria ricocheteando no punhado de sugadores de sangue mais próximos a ela até que crânios e peitos colapsaram sob os golpes. Quando os corpos ficaram imóveis, o naco de alvenaria ensanguentado girou no ar de modo que gotas vermelhas foram lançadas em todas as direções.
Nahiri limpou um borrão de sangue da bochecha. Se o plano de Sorin era cansá-la antes de se encontrarem, então ele era um tolo. Mil anos no Cofre Infernal foram descanso suficiente para várias vidas. Se significasse acabar com cada um dos outros sugadores de sangue ali para chegar a ele, então ela já começara bem.
Ele estava ali em algum lugar, ela sabia. Ao seu redor, o combate corpo a corpo desenrolava-se no que ela lembrava ter sido outrora o grande salão da mansão. A câmara estava agora entupida de vampiros e cultistas, todos no trabalho macabro de massacrarem-se uns aos outros. Seus olhos percorreram o caos, esperando avistar aquele cabelo branco fluindo, ou...
Aqueles olhos amarelos cruéis. E por um batimento cardíaco, eles estavam encarando-a de volta antes de serem engolidos pelo tumulto fervilhante.
A garganta de Nahiri ficou subitamente seca. Seu coração martelava contra o interior de seu peito, e toda a raiva dos últimos mil anos surgiu nela até que tudo o que pôde fazer foi forçar para fora o nome: "Sorin!"
Nahiri projetou sua vontade no chão de pedra inclinado e, alcançando cada uma das enormes lajes, puxou-as bruscamente. Suas mãos deram um solavanco para cima e, de cada lado dela, duas muralhas paralelas ergueram-se a quatro metros do chão. Pedra moeu contra pedra e, quando pararam, percorriam a extensão do salão para criar uma espécie de passagem, isolada do combate principal. Ela estava em uma extremidade, Sorin na outra.
Entre eles estendia-se uma fatia fina da batalha — uma vintena de vampiros e pelo menos o dobro de cultistas, todos ainda emaranhados em sua luta. Um dos vampiros investiu contra Nahiri, mas sua vingança estava perto demais agora para tais distrações. Um movimento de seu dedo e uma lança de pedra emergiu subitamente do chão. Pegou o sugador de sangue blindado sob o peitoral através do abdômen, subindo até perfurar o aço vermelho polido no ombro com um guincho agudo. O vampiro apenas desabou no lugar, e Nahiri passou por ele enquanto ele deslizava lentamente pelo comprimento da ponta de pedra.
"Sorin", chamou ela novamente, sua voz forte e fria como a pedra que empunhava. E então ela avançava a passos largos, seu caminho direto e firme, conforme mais pontas brotavam à sua frente para empalarem vampiros e cultistas da mesma forma.
Eram apenas os dois, então.
A última vez que Nahiri vira Sorin, ele fora a última coisa que ela vira no mundo antes de a solidão do Cofre Infernal a consumir. Agora, ao olhar para ele, parado a uma dúzia de passos de distância, ele estava muito como ela o lembrava, embora sem nada da fragilidade de seu encontro anterior. Vestia a mesma armadura, mas estava salpicada de sangue, o que adicionava um brilho cruel à pedra vermelha que adornava seu peitoral. Sua espada também portava evidências de sua carnificina. Seu rosto, tão acostumado a exibir aquele sorriso sarcástico que ela conhecia tão bem, em vez disso estava vincado por linhas severas que ela nunca vira. Agradava-a vê-lo tão sombrio.
"Você trouxe tantos amigos", disse Nahiri, saindo de entre dois espigões macabros. "Mas nem todos conseguiram vir." Sabia que a menção a Avacyn doeria, mas não houve retaliação sarcástica. Sorin apenas ergueu uma mão pálida, e jatos de energia preta e esfumaçada dispararam. A morte estava naquelas trilhas de sombra, a morte destinada a Nahiri. Parecia que ele não desejava nada do fingimento ou poesia de um duelo propriamente dito. O fim dela seria o suficiente, e ela observou Sorin, imóvel, conforme os dedos sinistros se estendiam para ela.
Mas os dedos nunca a tocaram. Subitamente separaram-se e voaram em várias direções, traçando contornos no ar que eram de outra forma invisíveis. Sorin liberou uma segunda torrente de magia de morte exatamente quando os primeiros raios errantes completavam seus caminhos tortuosos de volta à fonte, chocando-se contra o vampiro numa sucessão rápida de silvos agudos. Sorin caiu sobre um joelho, mordendo o lábio em angústia e, de entre as placas de sua armadura, vapor escuro subia de ferimentos invisíveis.
"Você deve pensar muito pouco de mim se achou que aquilo funcionaria", disse Nahiri conforme o segundo aglomerado de magia atingia o alvo exatamente como o primeiro. "A magia flui pelas linhas de ley. As linhas de ley passam pela pedra. E, bem, ambos sabemos o que posso fazer com isso. Então, por favor, Sorin, tente esse lixo de novo." Ela estava circulando-o agora. "Trouxe Emrakul à sua porta, e você ainda me acha uma criança."
Por um momento, nenhum dos dois falou. Mais de seis mil anos de história haviam levado ambos até ali. Encarando os olhos de Sorin, Nahiri perguntou-se se ele estaria pensando a mesma coisa. Haviam sido amigos, ela um dia acreditara. E agora... agora ela teria sua vingança. Finalmente, Nahiri disse: "Mil anos, Sorin. Você me trancou por mil anos".
"No entanto, você ainda está aqui." Sorin tossiu, enviando uma nuvem de névoa preta ao ar. "Você deveria ter partido."
"Eu parti. Retornei a Zendikar para vê-la sendo estripada pelos Eldrazi. Você deixou aquilo acontecer." Ela ergueu sua espada de modo que ficou nivelada com a garganta de Sorin. "Você condenou a mim e ao meu mundo."
"Você conhecia os riscos quando concordou em prender os titãs em Zendikar. Sabia que a fuga deles era uma possibilidade."
"Também sabia que tínhamos um acordo." Nahiri sentiu sua pele aquecer. "Se escapassem, você e Ugin deveriam vir. Quando o fizeram, você não estava em lugar algum. Da maneira como eu via, nós três estávamos nisso juntos. Mas fui apenas eu. Todo aquele tempo, fui sempre e apenas eu."
"Então você decidiu condenar este plano."
"Cansei de ser carcereira, e Zendikar nunca mais será uma prisão. Emrakul tinha que ir para algum lugar. Você apenas tornou a decisão simples."
"Sorin, estou inclinada a observar isto se desenrolar", veio a voz de uma mulher, melódica e mordaz, de cima. A cabeça de Nahiri inclinou-se para encontrar uma vampira, trajada toda em elegante armadura de placas preta, pairando no ar acima, à frente de uma dúzia ou mais de vampiros vestidos de forma semelhante. Não usava elmo, e seu rosto pálido e a cabeleira de cabelos ruivos brilhantes destacavam-se contra o metal escuro. Havia um ar de graça que parecia irradiar dela, e Nahiri reconheceu um poder que era afim ao de Sorin. Aquela mulher era uma sugadora de sangue de uma linhagem antiga.
"Sem dúvida, Olivia", disse Sorin de sua posição ajoelhada.
Olivia gesticulou para Nahiri com uma espada delicada forjada em aço preto. "Esta é ela, presumo." Sem esperar por uma confirmação, ela simplesmente dirigiu-se a Nahiri. "O que quer que Sorin tenha feito para incorrer em sua ira, tenho certeza de que ele fez por merecer. Mas ele também fez por merecer minha ajuda, então não posso permitir sua vingança."
"Outro anjo da guarda, Sorin? Este foi um pouco apressado, eu acho", disse Nahiri. Varreu uma mão para fora, e as lajes de pedra à sua frente começaram a avermelhar com o calor.
Olivia sorriu. "Gostei dela, Sorin, devo dizer. No entanto..." Ao seu sinal, seus vampiros desceram sobre Nahiri.
As pedras à frente da litoformadora tornaram-se brancas de calor e, antes que os sugadores de sangue pudessem alcançá-la, ela comandou o conteúdo das pedras derretidas — quatro lâminas, idênticas à que ela empunhava, cada uma pulsando com a energia de sua forja de pedra. Agarrou uma de modo que tinha uma lâmina em cada mão. As outras abriram-se em leque acima dela como a plumagem de uma fênix.
Arte de Chris Rahn
"Minha vingança não é sua para distribuir. Eu fiz por merecer isto. Sorin é meu."
"Nunca esqueça", sibilou Sorin, "eu poupei você. O Cofre Infernal foi uma cortesia".
"Uma cortesia", repetiu Nahiri, os dedos contraindo-se. Poderia despedaçá-lo. "Os horrores com os quais você me trancou por tanto tempo — eles tornaram-se o meu mundo."
Nesta última palavra, Nahiri enterrou as pontas de suas espadas em um dos ladrilhos de pedra. Cerrou os punhos e as armas começaram a vibrar. O tremor ressoou pelo chão, crescendo em força conforme se espalhava. O que começara como um zumbido baixo inchou num estrondo que sacudiu a estrutura ao redor. Fitas brilhantes de energia desabrocharam de suas mãos em pulsos rápidos, descendo pelas lâminas, até que irradiaram pela alvenaria para alcançar cada pedra na mansão.
Um punhado de pedras de ley brotou ao seu redor, todas apontando para fora de modo a formarem uma espécie de estrela.
Então, a mansão deu um solavanco. As muralhas que ela criara para isolar ela e Sorin caíram, e todo o salão começou a girar independentemente do restante da arquitetura. Conforme girava, o alicerce rangeu como as articulações de algum deus antigo erguendo-se pela primeira vez em uma era. Foi um som ensurdecedor, e oscilava no limite do suportável.
Logo outro som infiltrou-se em sua audição. A cada centímetro da rotação do salão, o som crescia. Era um som áspero, rascante, não inteiramente dissimilado ao coro dos cultistas, mas este não fora feito para, nem por, pessoas.
A entrada em arco do salão moveu-se com a câmara maciça de modo que não levava mais à calçada quebrada além do portão da mansão. Quando o movimento circular parou, a entrada assentou-se diante de uma parede de pedra sem traços. O som de outro mundo inchou. Sem o moer da pedra, não havia como suavizá-lo, e ela o sentia na raiz dos dentes. Mas era a hora. Nahiri estendeu a mão com sua magia, e camadas daquela parede deslizaram em direções alternadas.
Antes mesmo que ela induzisse a última camada para o lado, ela explodiu numa chuva de escombros, e eles saíram. Dezenas de monstros, bulbosos e contorcidos, com apenas indícios vagos das pessoas e animais que um dia foram. Eram de Emrakul agora, tocados pelo titã Eldrazi de modo que sua carne esticava-se sobre suas formas mutantes numa malha sinuosa e emaranhada.
Arte de Darek Zabrocki
Nahiri vinha reunindo-os ali desde a chegada de Emrakul, trancados em seu próprio cofre, um presente destinado ao seu velho amigo.
Nahiri observou-os jorrarem de sua câmara negra, enxameando no salão em sua direção. Ela não vacilou, no entanto. Pesadelos não eram novidade para ela. Fecharam o cerco e, no momento em que a horda terrível teria se chocado contra ela, eles se abriram ao seu redor. Esses monstros eram cegos para ela dentro de seu anel de pedras de ley. Criptólitos, ouvira os cultistas descreverem, embora estivessem longe de serem crípticos. Eldrazi seguiam as linhas de ley, a rede de mana que todos os mundos possuem. Exatamente como fizera em Zendikar seis mil anos atrás, Nahiri moldou estas pedras para dobrar as linhas de ley de Innistrad à sua vontade. Para estes horrores, ela ocupava um ponto em branco na realidade. Ela não existia.
Tal não era o caso para os vampiros. Os Eldrazi investiram contra eles, e a vampira ruiva, junto com seus lacaios, não perdeu tempo mergulhando nas monstruosidades com toda a fúria de sua espécie.
Arte de Karl Kopinski
Nahiri recuou para longe do caos, e nacos de alvenaria deslizaram para o lugar a cada passo para trás para criarem uma escadaria improvisada que espiralava em direção às alturas da mansão. Sua ascensão a carregou acima dos golpes das lâminas vampíricas e do açoite de membros em treliça. Sorin esperara vencê-la com aliados, mas Nahiri estava pronta. Sorin tentara vencê-la com sua magia de morte, mas Nahiri estava pronta para aquilo também.
Estaria ele pronto para ela, no entanto?
Sentiu os olhos dele sobre si e, quando encontrou Sorin no tumulto abaixo dela, ele estava olhando para cima para ela. Sangue escorria por seu queixo, e um cultista pendia inerte dos punhos do vampiro. Não era a primeira vez que ela o via alimentar-se, mas ele nunca parecera tão monstruoso quanto naquele momento. E era isso o que ele era, um monstro.
Os olhos de Sorin nunca a deixaram, mesmo quando iniciou sua subida. Moveu-se como um raio, o cultista flácido em sua mão balançando violentamente enquanto ele escalava pelas paredes retorcidas e passava para os nacos de alvenaria mantidos congelados no ar. Era um gato na caçada, veloz e de pés seguros. No momento em que Nahiri estava entre os remanescentes soltos e quebrados do teto abobadado da mansão, Sorin estava em seus calcanhares.
Nahiri era uma kor de Zendikar, afinal. Saltar de lugar precário em lugar precário era segunda natureza para ela. Ela era também a litoformadora e ali, em um campo de contrafortes espalhados, agulhas e alas inteiras da mansão que estavam espalhadas em incontáveis pedaços, ela estava em seu elemento. Estava empoleirada no parapeito de uma janela alta e estreita incrustada num pedaço de parede que pendia no ar desafiando a gravidade. Suas espadas orbitavam acima de sua cabeça, uma coroa de lâminas que marcava aquilo como seu domínio. Era hora de ver se Sorin conseguia acompanhar.
"Agora podemos terminar o que começamos, sem interrupções", chamou Nahiri para baixo para Sorin, que se ergueu após pousar graciosamente num patamar que ainda rebocava parte de uma ampla escadaria consigo. Um longo tapete vermelho ainda se agarrava aos degraus restantes antes de cair sobre o espaço vazio como a língua de algum animal morto.
"Você está tão ansiosa para morrer?", disse Sorin. "Quando nos encontramos pela última vez, minha força estava grandemente diminuída. Você não tem tanta sorte desta vez, receio." Ele atirou o cadáver do cultista contra Nahiri como se fosse um pano úmido, e ela ouviu algo estalar dentro do corpo conforme ele se chocava contra a pedra ao lado dela. "E tenho toda a intenção de matá-la."
"Você acha que me assusta?"
"Se ainda não, assustarei." Seus olhos eram pura crueldade, pura e antiga.
"Não vou partir até que isto esteja terminado, Sorin."
"Nisso concordamos, pequena."
Pequena. Sem outra palavra, Nahiri deixou suas espadas voarem, todas exceto a que empunhava. Sorin esquivou-se conforme cada lâmina mordia fundo na pedra sob seus pés e, antes que ele pudesse garantir seu apoio novamente, Nahiri agarrou o patamar com sua vontade e o virou.
Por um momento, Nahiri pensou que ele se seguraria, mas seus dedos falharam em encontrar apoio, e ele caiu.
Mas o pesado tapete vermelho girou com o movimento, e Nahiri observou os dedos de Sorin fecharem-se ao redor do tecido e, subitamente, ele estava balançando em vez de cair.
Nahiri arrancou as lajes componentes do patamar, desfazendo toda a estrutura. Conforme ela desmoronava, Sorin soltou-se e seu ímpeto o carregou até uma viga perdida. De lá, saltou para uma parede despedaçada, e depois para outra viga que se inclinava diagonalmente no ar. Pareceu tudo no espaço de um batimento cardíaco, e Nahiri mal conseguia acompanhá-lo.
Então ela não conseguiu. Ele era tão rápido e, no momento em que ela mudou sua posição na janela para seguir seus movimentos abaixo dela, perdeu-o de vista.
Por vários momentos seus olhos dardejavam furiosamente, buscando qualquer indício de movimento. Então, um lampejo de prata, e tudo o que Nahiri pôde fazer foi deslizar para dentro da própria parede de modo que a lâmina de Sorin ricocheteou com um dobre ensurdecedor que ressoou por vários momentos através da pedra.
Envolta em alvenaria, Nahiri ouviu as palavras de Sorin abafadas, mas venenosas. "Nahiri, Nahiri, todo este problema por um turno no Cofre Infernal. No entanto, você parece tão em casa na pedra."
Então houve um estalo alto, e a agonia disparou pelo seu flanco como um ferro quente. A pedra fora rompida. Ela sentiu, e sentiu o aço em sua carne. Com um raspão, a lâmina recuou e, antes que pudesse golpear novamente, Nahiri deixou-se cair do aperto da parede e, subitamente, estava tombando pelo ar aberto. Sua mão foi para a queimação em seu flanco, e estava úmida.
Algum pedaço de balaustrada surgiu ao seu encontro. Tentou agarrar-se a ele, mas sua mão, escorregadia de sangue, deslizou, e ela ricocheteou passando por ele. Seus olhos vacilaram, e o mundo girou ao seu redor até parar de uma vez quando ela se chocou com força contra a superfície de uma agulha maciça que jazia horizontalmente ao longo da extensão do teto aberto.
Quando conseguiu encontrar força suficiente, Nahiri reuniu os pés sob si e levantou-se lentamente. Encostou-se pesadamente contra algum trabalho em pedra que se projetava da superfície da agulha. Estava sem fôlego, e sua boca parecia seca apesar do gosto de sangue na boca.
Ao som de botas na agulha à sua frente, ergueu os olhos para encontrar Sorin recompondo-se de seu pouso. Ele deu um passo à frente de modo que ficou sobre ela, sua espada erguida e ameaçadora, exatamente como fora há mil anos quando a condenara ao Cofre Infernal. Mas não havia Cofre Infernal desta vez.
"Você teve a chance de me matar, pequena. Deveria ter aproveitado essa chance enquanto ela estava ali." Não havia vanglória nas palavras de Sorin. Era um mentor dirigindo-se a uma protegida, uma última lição a transmitir.
"Talvez", disse Nahiri, embora mais para si mesma. Sua espada pendia frouxa em sua mão de modo que a ponta repousava no chão. A dor irradiava do corte em seu flanco. Sua mão livre estivera embalando o ferimento, e tremia enquanto ela tirava um momento para relancear para ela.
Tanto sangue.
E o que era um pouco mais. Inspirou profundamente e falou. "Independentemente do que aconteça aqui, se eu sair daqui ou não, eu venci, Sorin. Olhe ao seu redor." Nahiri varreu a mão debilmente para indicar a mansão. "Olhe cuidadosamente para o que fiz com tudo o que você reivindica como seu." Apontou para a esquerda. Na distância, sobre a cidade de Thraben, Emrakul. "Nenhum anjo de estimação seu virá ao resgate desta vez."
A espada de Sorin saltou, lançando a de Nahiri no nada. "O que você tirou de mim em Avacyn, tirarei do seu sangue." Antes que um músculo pudesse sequer contrair-se, ela sentiu os dentes de Sorin rasgarem seu pescoço. Todo o sangue em seu corpo mudou de curso. Sorin o estava chamando para si, e ele ardia em suas veias. Ele bebeu profundamente, e Nahiri encontrou seu momento.
Inclinou-se contra a alvenaria às suas costas, e ela respondeu à sua indução desdobrando-se para cada lado dela. Cada batida de coração era um tormento, mas ela pressionou através dele para sussurrar: "Eu consigo morder de volta, Sorin, e tenho dentes maiores que os seus".
A pedra chocou-se ao redor deles, e fileiras de presas de pedra denteadas rasgaram Sorin desde suas pernas até suas costelas. Sua espada voou de sua mão, e um ganido de agonia explodiu de seus lábios. Nahiri empurrou-se livre dele, passando através da pedra sólida de modo que apenas Sorin restou. A pedra apertou-se sobre ele até tê-lo em seu aperto. No momento em que Nahiri terminou seu trabalho, Sorin pendia no ar, agarrado pela magia de Nahiri. Não havia transplanar para fora disso. Os dentes de pedra que o seguravam mastigavam seu interior, mantendo-o numa angústia perpétua que drenaria o foco de que ele precisaria para deixar este lugar.
Então Nahiri girou Sorin e sua pedra para que ficassem de frente para as planícies ondulantes abaixo da Mansão Markov. Sorin tentou falar, um gurgle ininteligível, conforme Nahiri escalava o casulo que criara. O que quer que ele tivesse a dizer não importava. Ela queria que ele ouvisse as palavras dela. Com uma mão agarrada ao pináculo da pedra, Nahiri baixou-se para poder sussurrar aquelas palavras no ouvido de Sorin. "Eu poupei você", disse Nahiri. "Uma cortesia retribuída."
Arte de Cynthia Sheppard
Na distância sob um teto de nuvens sombrias, Emrakul.
E no momento seguinte, Nahiri transplanou para longe de Innistrad, deixando Sorin ao destino de seu mundo.
***
O horizonte era Emrakul. Não havia nada que Sorin pudesse fazer exceto observar enquanto o fim de Innistrad derivava lentamente através de Gavony em direção a Thraben. As pessoas lá embaixo eram de pouca consequência agora, mas Innistrad era sua, e Thraben era onde ele criara Avacyn para protegê-la. Vê-la agora, à beira de sua ruína, enviou-lhe uma pontada que doeu pior que os dentes de pedra da litoformadora que moíam seu caminho através de seu interior.
Sorin sentiu um momento antes de ouvir — metal contra pedra, um longo e lento raspão que se moveu pelas costas de seu sarcófago de baixo para cima.
"Acho que gosto mais deste aqui", veio uma voz rica de zombaria. E então Olivia desceu para a visão para bloquear o caos além. Ela estava segurando a espada dele.
"Olivia", disse Sorin entre dentes cerrados, "liberte-me".
"Mesmo se eu pudesse, por quê? Avacyn está morta. Nahiri foi afugentada. Nosso acordo está cumprido." Ela riu cruelmente. "Chamo isto de vitória. Tente aproveitar. A Mansão Markov é sua, afinal. Quanto a mim," ela ergueu a espada de Sorin para inspecionar seu fio, "gosto bastante do som de 'Olivia, Senhora de Innistrad'".
Qualquer resquício de paciência que ele possuía foi subitamente descartado por um surto de desespero. Este mundo estava acabado. Olivia era sua única saída. "Olhe!", disse ele, esforçando-se contra a pedra inabalável. Olivia espiou por sobre o ombro, mas nada disse. "Você vê", continuou ele, "é isso que está vindo! Você viu o que ela faz, do que é capaz". Falava mais rápido agora, e sua voz falhou. "Você precisará da minha ajuda para lidar com isso!"
Sorin não gostou da maneira como Olivia olhou para ele enquanto ele falava. Ela era uma aranha, e ele era uma mosca. "Ouça-me!", tentou ele novamente. "De que vale qualquer coisa disso se terá sumido amanhã?"
"Avacyn está morta. E você," disse ela, pressionando a ponta de sua própria espada contra a bochecha dele, "está onde está. Acho que está muito bom". E tudo o que Sorin pôde fazer foi observar enquanto Olivia flutuava para fora de vista, de modo que Emrakul e o fim que ela prometia preenchessem sua visão mais uma vez.
13 de Julho de 2016 | Por James Wyatt
São Traft e o Revoar de Pesadelos
Quando vimos Thalia, Odric e Grete pela última vez, eles haviam fugido do mal que espreitava no Conselho dos Lunarcas, o órgão governante da Igreja de Avacyn, e se reuniram em uma capela remota na Charneca Próxima de Gavony. Thalia apresentou seus amigos à Ordem de São Traft, nomeada em homenagem a — e literalmente inspirada por — um antigo santo conhecido por combater demônios. Thalia permitira-se tornar um receptáculo para o geist do santo e, armada com esse poder sagrado, liderara um bando maltrapilho de soldados rebeldes, cátaros e clérigos na continuidade da missão da igreja, apesar da corrupção em seu âmago.
Mas agora o mundo mudou. Como podem os remanescentes da Igreja de Avacyn levar adiante sua missão agora que Avacyn está morta? E que poder pode sustentá-los enquanto seu mundo paira à beira da extinção?
***
"Ouço tão poucas notícias", disse Grete, "e metade delas é contraditória".
Thalia assentiu, suspirando. "Às vezes nossos batedores não voltam", disse ela, "e às vezes não têm condições de fazer nenhum relatório quando voltam". Algo revirou em seu estômago ao pensamento de Halmig, que se reunira à marcha ontem de manhã... mudado. Ela fora forçada a matá-lo, ou ao que quer que ele tivesse se tornado — mais uma coisa contorcida do que um homem. Ela só podia imaginar o que ele encontrara em sua missão de reconhecimento, e o que acontecera com os soldados sob seu comando.
"É verdade que Hanweir foi destruída?", perguntou Grete.
"A verdade é muito pior." Thalia correu os dedos pela pelagem brilhante de sua montaria, fingindo não ver a sobrancelha arqueada de Grete, e Grete não pressionou a pergunta.
Cavalgaram em silêncio por um tempo, perdidas em seus próprios pensamentos. A última vez que um exército marchara sobre Thraben, Thalia recordava, fora uma horda de carniçais e skaabs criada pelos irmãos Cecani. Agora ela era parte da horda marchante — se tão poucos soldados pudessem ser chamados de horda. Estavam tão esfarrapados e deploráveis quanto zumbis, talvez, desgastados pelas batalhas constantes das últimas semanas. O mundo parecia estar sendo engolido pela loucura. Mas enquanto respirassem, enquanto pudessem se agarrar ao mais ínfimo resquício de esperança, eles lutariam.
Ou a maioria deles. Odric permanecera para trás, seu espírito quebrado depois de ter se voltado contra o Conselho dos Lunarcas e libertado Thalia de sua prisão. Thalia lamentava por ele, mas não podia gastar nada de sua fé tentando reforçar a dele.
"Ouvi dizer que Seeta e seus inquisidores estão continuando seu trabalho", disse Grete após um tempo.
Thalia bufou. "Deixe que ela nos encontre agora", disse ela. Depois que Thalia confrontara o Conselho dos Lunarcas e fugira de Thraben com Odric e Grete, uma inquisidora zelosa chamada Seeta liderara a caçada a eles. O grito de guerra de Seeta era "Expurguem os malditos!", e ela viajava à frente de uma procissão de guilhotinas rolantes. Os instrumentos de execução puxados por bois haviam até agora a atrasado o suficiente para que ela não localizasse a Ordem de São Traft, e agora a ordem crescera o suficiente para que Thalia calculasse que tinham pouco a temer do que restava da inquisição.
Grete balançou a cabeça. "Eles se chamam de Expurgados do Pecado agora", disse ela. "Afirmam que a transformação é o resultado do pecado sendo expurgado de seus corpos."
O lábio de Thalia curvou-se em desgosto. "Estão tentando fazer uma virtude disso?"
Grete assentiu, encarando a trilha acidentada à frente.
"Quão baixo caímos", disse Thalia, meio para si mesma.
"O que é isso, então?", perguntou Grete. "Digo, dado que não é uma virtude. O que está causando isso?"
"Se há uma resposta a ser encontrada, Thraben é onde a encontraremos."
Ela se perguntava o que encontrariam — na cidade, na catedral. Seu coração acelerou e seu estômago deu um solavanco mais violento ao pensar em Thraben, seu lar por tantos anos. E se tivesse se tornado como Hanweir, pessoas e vila fundidas numa única entidade? E se não restasse nada para salvar? E se Avacyn realmente estivesse...
Hanweir, a Comuna Contorcida | Arte de Vincent Proce
Uma figura solitária estava parada ao lado de um cavalo na trilha à frente. Thalia assentiu para Grete, que esporeou seu cavalo e disparou para frente. Ela inclinou-se em direção à cabeça de sua própria montaria, e o grifo abriu as asas e deslizou graciosamente pelo ar, sobrevoando o cavalo em investida de Grete e pousando ao lado de Rem Karolus sem sequer agitar a poeira no chão.
Rem fora outro servo devoto da igreja, a Lâmina dos Inquisidores, mas a loucura dos anjos o mudara. Ele sempre fora sombrio, cumprindo seus deveres com eficiência séria. Mas renunciara ao seu título cedo, voltando sua renomeada lâmina contra a verdadeira ameaça a Innistrad. "Matador de Anjos" o chamavam agora, embora ele mesmo não usasse o título. E embora não tivesse conversado com ele sobre isso, Thalia suspeitava fortemente que a fé dele morrera junto com o primeiro anjo que abatera.
Conforme Grete refreava seu cavalo ao lado deles, Rem cortou duas correias na lateral de sua sela, e uma longa haste de metal caiu na terra com um baque pesado. Mesmo com sua ponta quebrada em uma linha denteada, a lança de Avacyn era inconfundível.
"Então é verdade", sussurrou Thalia.
"Você a matou?", Grete deixou escapar.
Rem bufou. "Você me dá crédito demais", disse ele. "Não me entenda mal; eu o teria feito se pudesse. Mas parece que alguém me superou."
O coração de Thalia era chumbo. Deslizou das costas do grifo e caiu de joelhos ao lado da lança, como se arrastada pelo peso em seu peito. Seu grifo roçou seu rosto, seu próprio rosto úmido de — lágrimas? Estaria o grifo lamentando Avacyn tanto quanto ela?
Arrastou-se para frente e estendeu a mão para a lança.
Rem meio gritou: "Eu não faria—"
Um clarão de luz sagrada irrompeu onde a mão dela tocou a haste de metal, e Thalia puxou a mão de volta bruscamente enquanto a dor disparava por todo o seu braço.
"—isso", terminou Rem em tom monótono. "Eu dei voltas tentando prendê-la na velha Jedda aqui. Não pude tocá-la."
Thalia ignorou-o. Você consegue fazer isto? perguntou ela ao espírito que carregava.
Sua mão começou a brilhar com uma luz branca suave conforme o poder de São Traft estremecia por sua espinha e entrava em sua cabeça. Sentiu-se mais leve. Com ou sem Avacyn, o mundo ainda não estava perdido.
Estendeu a mão para a lança novamente e, desta vez, sua mão fechou-se firmemente ao redor da haste. Levantou-se e ergueu a lança sobre a cabeça, e sua ponta brilhou como o sol sob o céu nublado. A boca de Rem ficou aberta, e Thalia tentou não sorrir para ele.
"Grete, você poderia tirar o estandarte da minha sela, por favor?", disse Thalia.
Grete desmontou e aproximou-se do grifo — nervosa a princípio, mas assim que chegou perto o suficiente para tocá-lo, Thalia viu o medo derreter-se. Grifos eram calmantes.
Grifo da Alvorada | Arte de Christine Choi
Grete habilmente removeu a longa lança que segurava o estandarte de São Traft sobre a cabeça de Thalia enquanto ela cavalgava, e Thalia colocou a lança de Avacyn em seu lugar.
"Cavalgamos sob este estandarte agora", disse ela.
Rem ainda estava estupefato. "Como você...?"
"Você deveria cavalgar comigo mais frequentemente, Rem. Veria muita coisa que o surpreenderia."
"E coisas para lhe dar esperança", acrescentou Grete.
"Bem, veremos sobre isso", disse Rem. Mas estava olhando para a lança, ainda brilhando na luz fraca do sol, e algo brilhou em seus olhos, mesmo que não fosse esperança.
Thalia subiu de volta em sua sela, virou o grifo em direção ao exército que se aproximava e o impeliu de volta ao ar. Voou sobre toda a hoste maltrapilha, garantindo que todos tivessem a chance de ver a lança de Avacyn. Alguns vivas subiram — os gritos de soldados reconhecendo sua líder — mas à medida que percebiam o que estavam vendo, e o que aquilo significava, os vivas tornaram-se clamores de desespero.
Guiou o grifo para baixo no meio deles. Chamando novamente o espírito que carregava, levantou a lança com ambas as mãos, içando-a acima da cabeça. Era pesada demais para ela empunhar, mas era um símbolo poderoso.
"Avacyn se foi!", gritou ela. Gemidos de desespero, gritos de descrença ergueram-se ao seu redor. "Sua igreja está corrupta além da redenção. E horrores sem nome rastejam e contorcem-se por nossa terra."
Pausou um momento, o coração doendo. O luto que via nos rostos ao redor espelhava o seu próprio. Todos ali haviam perdido família, amigos queridos e lares, e estavam à beira de perderem sua esperança. O peso da lança fazia os músculos de seus ombros arderem.
"Mas nós permanecemos!", gritou ela. "Nós que combatemos estes horrores, nós que nos postamos contra o mal e a loucura na igreja, nós que nos agarramos à fé em desafio ao desespero — nós permanecemos! E se nenhum arcanjo iluminará nosso caminho através desta escuridão, devemos ser nossa própria luz. Se nenhuma proteção segurará os terrores à distância, então nossas espadas devem fazê-lo. Se não conseguimos encontrar fé em Avacyn, devemos ter fé nos ideais que Avacyn defendia, antes de sua loucura."
Enquanto falava, viu cátaros caírem de joelhos, lágrimas correndo livremente por rostos endurecidos pela batalha, olhos erguidos aos céus ou rostos pressionados contra o solo. Cada um deles, pensou ela, lidaria com seu luto do seu próprio jeito, no seu próprio tempo. Ela sentia a dor deles, além de seu próprio luto — um fardo muito mais pesado que a lança que se esforçava para manter no alto.
Lembrando o que dissera a Odric meses antes, disse tudo o que sabia que poderia elevar seus corações do luto. "Antes de tudo isto, a luz suave da lua detinha os terrores da noite. Antes de tudo isto, os vínculos entre nós expulsavam o medo que tentava nos separar. Antes de tudo isto, aspirávamos ser mais que meramente humanos — aspirávamos à santidade, a uma perfeição mostrada a nós pelos anjos.
"E assim faremos novamente. Queridos amigos, nós permanecemos! E é por isto que lutamos. Pela memória de Avacyn, da luz e bondade que fugiram do mundo, nós lutamos! Por Innistrad e todo o seu povo, nós marchamos!"
Vibraram entre lágrimas; levantaram-se do chão e ergueram os rostos ao céu nublado e içaram suas espadas e lanças bem alto. Thalia tocou a cabeça do grifo e ele subiu acima deles, circulando mais uma vez sobre os soldados, o minúsculo exército de Thalia. Então pousou novamente à frente deles, ao lado de Grete, e marcharam: para Thraben, para fazerem uma última resistência desesperada e gloriosa contra o pesadelo que se apoderara do mundo.
***
As agulhas e ameias de Thraben erguiam-se bem alto acima da foz do Rio Kirch, exatamente onde ele desaguava pelos penhascos denteados no mar. A charneca de ondulação suave que compunha a maior parte de Gavony significava que sob um céu limpo, a Cidade Brilhante podia ser vista a muitas milhas de distância. Mas Thalia não conseguia lembrar da última vez que vira um céu limpo, então no momento em que a névoa e a chuva se abriram e expuseram a cidade à visão deles, estavam a uma hora de marcha.
Mas o caminho à frente deles estava apinhado de horrores, e não seria uma marcha fácil até Thraben. Eram massas de carne em treliça e tentáculos encaroçados, feições distorcidas e corpos malformados — coisas que um dia foram animais de fazenda, feras selvagens ou o tipo mais comum de monstros. Alguns eram irreconhecíveis como tendo algum dia sido uma criatura natural. E muitos, muitos demais, haviam sido humanos outrora, com graus variados de qualquer coisa que pudesse ser chamada de rosto restando em meio às feições monstruosas.
Em comparação, os skaabs hediondos que Geralf Cecani enviara a Thraben — amálgamas de partes humanas e animais arranjadas conforme sua imaginação retorcida — pareciam sãos e normais. Ao menos uma inteligência clara os formara — uma mente com uma estética abominável e totalmente desprovida de qualquer bússola moral, mas uma mente no entanto. Aquelas coisas só poderiam ter sido imaginadas por uma consciência totalmente alienígena, algum deus louco sonhando no sono inquieto das eternidades.
Estavam convergindo para Thraben também, cambaleando em pernas sem ossos ou tentáculos contorcidos ou puxando-se pelo solo com o que costumavam ser mãos. Alguns batiam asas membranosas desajeitadamente pelo ar, e alguns simplesmente derivavam no vento, como se a gravidade fosse apenas mais uma lei natural que poderiam ignorar alegremente.
A princípio, os horrores pareciam mais interessados em fazer seu próprio caminho em direção a Thraben do que em parar Thalia e seus cátaros. Ela ordenou aos soldados que conservassem suas forças, lutando apenas se fossem atacados. Por mais nauseante que fosse deixar os monstros contorcidos vivos, sentia que seus soldados precisariam de toda a sua força assim que alcançassem a cidade.
Mas então ela se desviou perto demais de uma coisa cambaleante do tamanho de um grande cavalo, e ela voltou-se contra ela. Fora um cavalo uma vez, adivinhou ela — não, um cavalo e cavaleiro, agora fundidos em uma massa de carne hedionda. Algo como seis pernas sustentavam a coisa, e cordas entrelaçadas de carne magenta cobriam seus flancos, fundindo o que fora um dia cavaleiro e corcel. Dentes denteados projetavam-se de várias estruturas semelhantes a mandíbulas sob uma crina rala, e um brilho laranja sob um chapéu de três pontas deve ter sido um dia o rosto do cavaleiro. Uma alabarda fora quase engolida pelo emaranhado de tentáculos.
Aquele que Cavalga como Um | Arte de Daarken
Antes que ela pudesse sequer virar sua montaria para enfrentar a criatura, como se tivesse entrado em algum tipo de justa louca, ela empinou em três pernas traseiras e chocou um casco em seu ombro, derrubando-a da sela. Seu grifo subiu ao ar com um rufar de penas eriçadas, e Thalia aproveitou a distração momentânea da criatura-cavalo para encontrar seus pés e estabelecer uma postura de luta.
Conforme ela se aproximava, a lâmina de Thalia brilhou e cortou dois longos sulcos através do que deveria ser o pescoço do cavalo. Algo acastanhado gotejou das feridas — não sangue; contorcia-se e remexia-se como vermes sob uma rocha tombada. E a criatura não pareceu notar.
Um casco na extremidade de algo que não era uma perna açoitou em direção a ela. Ela o rebateu, cortando a carne logo acima do casco, o que desta vez trouxe uma secreção de pus amarelado. Mas ao aparar para um lado, uma massa tentacular — talvez um dos braços do cavaleiro, antes — a esbofeteou pelo outro lado. O lado do rosto dela ardeu... e então parou. Sua pele ficou dormente e fria onde a massa de carne a atingira.
Cambaleou dois passos para trás, mudando sua espada para a outra mão conforme a dormência se espalhava pelo seu pescoço até o ombro. A coisa a seguiu e empinou para golpeá-la novamente, mas então seu grifo mergulhou e cravou o bico através do núcleo da massa de carne da criatura. Uma ululação uivante subiu de várias bocas escancaradas em seu corpo.
Enterrou sua lâmina profundamente na coisa — logo acima de um pé ainda apoiado em um estribo, percebeu com um jorro de repulsa — e o volume de seu grito aumentou. Vários outros cátaros vieram em seu auxílio, e balançaram espadas e machados mais pesados até que o horror jazesse contorcendo-se aos seus pés.
E Dennias, que há um ano fora um estagiário ingênuo nos Campos de Elgaud, ajoelhou-se no chão agarrando a cabeça como se estivesse tentando manter algo lá dentro antes que irrompesse. Sua boca abriu-se num grito silencioso e seus olhos arregalados encaravam o nada. Seu amigo Mathan caiu sobre um joelho ao seu lado, colocando um braço ao redor de seu ombro e murmurando palavras vazias destinadas a confortar. Thalia virou-se para o outro lado.
Então Mathan gritou.
Thalia girou e viu Mathan recuando às pressas, o rosto branco como um grifo. Dennias não se movera, mas longas gavinhas, como fitas magenta, projetavam-se de entre os dedos de uma mão. Projetavam-se de dentro de seu ouvido.
O rosto dele empalideceu, e ele parecia que ia vomitar. Balançando a cabeça tristemente, Thalia deu alguns passos em direção a ele. Sabia o que estava vindo.
Ele dobrou-se como se fosse esvaziar o estômago, mas em vez disso mais gavinhas saíram de sua boca. Algo grande contorcia-se sob sua armadura em seus flancos também.
Ele estava perdido.
Sua lâmina tirou a vida dele rapidamente — muito mais rápido do que o cavalo e cavaleiro haviam caído, e certamente muito mais rápido do que aquela corrupção espremeria a vida dele. Assumiu o fardo da morte dele para que ninguém mais precisasse; deixaria que outra pessoa reivindicasse o papel mais nobre de confortar o amigo dele.
Grifos eram calmantes. Ao subir de volta em sua sela, seu pulso desacelerou e ela conseguiu respirar fundo e estremecidamente. Não conseguia olhar para a lança.
***
Thraben estava atraindo a todos agora.
A mente de Thalia estava clara e seus olhos focados nas agulhas da Cidade Alta, mas ela ainda sentia o puxão. Os soldados que marchavam ao seu lado e atrás dela mantinham os olhos na lança de Avacyn, apontando para o céu a partir de sua sela, mas eles também o sentiam, ela sabia. Moradores da cidade carregando picaretas e forcados juntaram-se ao seu grupo, como se soubessem que aquela era sua última oportunidade de lutar pelo destino do mundo.
E as coisas cambaleantes, estremecedoras e contorcidas ao seu redor nada conheciam exceto o puxão. Alguns ainda eram majoritariamente humanos, moradores e aldeões trajados com os robes dos cultos costeiros, exibindo garras de caranguejo ou tentáculos com ventosas ou bocas de sapo. Alguns claramente haviam sido humanos antes, ou animais, embora não mais. Alguns estavam tão longe que ela nem conseguia começar a descrevê-los. Mas Thraben estava atraindo a todos.
Não, nem todos. Uma tropa de cavaleiros em cavalos blindados cavalgava pela charneca, em direção a Thalia e suas forças, não em direção à cidade. Uma companhia de soldados marchava atrás deles.
"Grete, Rem", disse ela, tirando-os de seus estados de transe. Ela apontou. Rem assentiu sombriamente, enquanto a fronte de Grete franziu-se.
"Mais inimigos?", perguntou Grete.
"Os Expurgados do Pecado, talvez", disse Rem.
"Não os chame assim", Thalia disparou. "Mas não acho que seja o bando de Seeta."
"Quem, então?", perguntou Grete.
"Vou descobrir." Thalia nem sequer teve tempo de incitar sua montaria antes que ela levantasse do chão, como se conhecesse seus pensamentos.
Conforme voava em direção aos cavaleiros que se aproximavam, uma figura perto da frente da cunha subiu ao ar também — apenas uma figura humana, sem montaria voadora para carregá-la no alto.
Conforme seu grifo voava para mais perto, Thalia conseguiu distinguir uma cabeleira de cabelos ruivos flamejantes, armadura preta — e uma longa saia preta que parecia completamente inadequada para a batalha. A figura tinha pele pálida, quase branca, e carregava uma lâmina absurdamente grande tornada mais leve por ser vazada de modo que o céu cinza era visível através dela.
Não humana, então. Uma vampira.
A vampira ergueu ambas as mãos para sinalizar um parlamento, embora ainda segurasse a lâmina — e não era de admirar, já que Thalia não conseguia imaginar como seria uma bainha para aquela coisa. Thalia retribuiu o gesto, sua própria lâmina delgada embainhada ao seu lado. E flutuaram lentamente uma em direção à outra até estarem perto o suficiente para falarem.
Era ridículo, de certa forma, mas mortalmente sério. Thalia sentada num grifo cujas asas batiam apenas o suficiente para mantê-la no alto, cara a cara com uma vampira suspensa no ar por sua própria magia. E iam conversar.
"Temos uma causa comum, humana", chamou a vampira. "Sou Olivia Voldaren, senhora de Lurenbraum e progenitora da linhagem Voldaren."
Olivia, Mobilizada para a Guerra | Arte de Eric Deschamps
Thalia ficou sem fala por um momento. Pairando no ar a um arremesso de pedra de distância dela estava uma das vampiras mais poderosas de Innistrad, com rumores de ser uma reclusa excêntrica conhecida por dar festas extravagantes nas quais raramente fazia mais do que uma breve aparição. E ela estava em traje de batalha completo, a imagem da aristocracia elegante mobilizada para a guerra.
Com uma respiração profunda, Thalia encontrou sua voz. "Saudações, Lady Voldaren. Sou Thalia, Herdeira de São Traft."
"Sério? Eu o conheci uma vez, sabe. Devo dizer, você faz jus a ele, sentada aí no seu grifo com a lança de Avacyn ao seu lado."
Foi sutil, o lembrete de Olivia de que ela era muito mais antiga do que Thalia conseguia compreender. Um aviso gentil, misturado com uma nota do que quase soava como respeito.
"O que é isto, vampira? Não vou ficar parada enquanto meus soldados se tornam mais um de seus lendários banquetes Voldaren."
"Relaxe, querida." Ela riu, um som musical que só tornava a situação mais absurda. "Como eu disse antes, temos causa comum. Acho que estamos todos aqui pelo mesmo propósito: salvar o mundo. Já que seu precioso anjo está claramente em nenhuma posição para fazê-lo."
Thalia conteve uma resposta dura. Se os vampiros estavam aqui para ajudar, ela não poderia recusar. Sim, se algum deles sobrevivesse à marcha sobre Thraben, sem dúvida os vampiros se voltariam contra eles então, famintos pelo esforço da batalha. Mas aquele era um problema puramente teórico, comparado à realidade sombria dos monstros arrastando-se em direção à Cidade Alta enquanto falavam.
"Tudo bem", disse ela. "Salvaremos o mundo juntas. Você com seu exército, eu com o meu. Não posso pedir aos meus soldados para lutarem ao lado de vampiros, mas combateremos os mesmos inimigos."
Olivia derivara para mais perto enquanto falavam, e agora mergulhou perto o suficiente para estender a mão. À direita de Thalia, com o grifo entre ela e a lança de Avacyn.
"Nenhuma mordida ou lâmina vampírica tirará sangue humano até que esta luta termine, Herdeira de São Traft. Estamos de acordo?"
Não acreditando totalmente que o estava fazendo, Thalia estendeu a mão e pegou a mão da vampira.
"Nenhuma lâmina humana ferirá os seus. Estamos de acordo."
Olivia baixou o rosto no ar e aproximou-o de suas mãos dadas. Respirou fundo o ar pelo nariz — farejando? — e então encontrou os olhos de Thalia. Suas presas apareceram claramente através de seu sorriso.
"Delicioso", disse ela. Um aviso final, então virou-se e flutuou de volta em direção ao seu exército de vampiros.
Thalia estremeceu e retornou aos seus soldados, tentando imaginar o que diria a eles.
***
Thalia cavalgou por um tempo com os olhos fechados, confiando em seu grifo para liderar o caminho e alertá-la do perigo. Retirou-se para dentro de si e comungou com o geist que partilhava seu corpo, e lembrou-se:
Foi depois que confrontara Odric na catedral que ela encontrara o santo, o geist, pela primeira vez. Sem ter para onde ir, cavalgara pela charneca, fora das encruzilhadas, até tropeçar num caminho coberto de vegetação. Algo a atraíra ao longo de seu curso sinuoso, até descobrir uma capela antiga perto dos sopés que subiam em direção à Cordilheira de Geier de Stensia.
Uma pintura lá dentro chamou sua atenção. Mostrava Traft, ela sabia agora, ou o seu geist, parado atrás de uma mulher de cabelos ruivos que segurava uma espada em sua mão esquerda de quatro dedos. A mão dele estava no ombro dela.
Invocação de São Traft | Arte de Igor Kieryluk
Aquela mulher fora a primeira Herdeira de São Traft, que quando menina fora capturada e atormentada por cultistas demoníacos para atrair o santo para sua perdição. Os cultistas cortaram o dedo dela e o enviaram a Traft para garantir sua cooperação em seu esquema perverso. Após a morte do santo, ele manteve uma vigilância especial sobre ela enquanto crescia e se tornava uma grande guerreira e matadora de demônios por direito próprio. E como os anjos haviam favorecido Traft, também eles sorriram para ela e lutaram ao seu lado.
Enquanto Thalia contemplava a pintura naquela capela solitária, a forma nebulosa do geist do santo mostrada na pintura pareceu se mover. Seu rosto sereno voltou-se para ela, seus olhos encontraram os dela, e então sua mão estendeu-se em sua direção. Sem hesitação, ela a pegou, e sentiu-se tão sólida quanto carne e osso — mas fria, tão fria. O medo a possuiu, e ela caiu de joelhos, desviando o olhar daqueles olhos vazios, mas ele manteve a mão dela e deu um passo para perto, como se estivesse saindo da pintura. Ajoelhou-se no chão à frente dela, e sua outra mão gentilmente levantou o queixo dela.
"Você me acolherá?", sussurrou ele.
Ela assentiu, ele sorriu, e o medo dela sumiu. Ela respirou fundo e ele preencheu seu nariz, boca e pulmões, fogo frio queimando-a por dentro, e ela jogou a cabeça para trás enquanto ele corria por suas veias, cada centímetro dela em chamas.
Aquele fogo frio não a deixara nos meses seguintes. Na maior parte do tempo, era uma espécie de nó na base de seu crânio, de tempos em tempos enviando calafrios por sua espinha e cabeça, conforme o geist a lembrava de sua presença — em aviso, frequentemente, ou em raiva. Às vezes, como quando agarrara a lança de Avacyn, o fogo dele corria por ela novamente, e não era mais ela quem se movia, mas o geist que a movia.
Ele a carregara até ali, ela sabia. Postara-se ao lado dela quando ela confrontara Jerren e o Conselho dos Lunarcas. Ajudara-a a reunir estes outros cátaros, chamados heréticos, para combaterem os males que assaltavam a igreja por fora e por dentro. Não a abandonaria enquanto os liderava para dentro de Thraben. De algum modo, ele a tranquilizava quanto a isso, ao menos. Mas ela sentia alguma hesitação, até mesmo vinda dele.
A ajuda dele seria suficiente? Ele não podia prometer aquilo. Mas era toda a esperança que ela tinha.
O grifo estremeceu sob ela, e ela abriu os olhos, olhando ao redor para ver o que o perturbara. As muralhas de Thraben estavam próximas agora. O exército de vampiros, que crescera lentamente mais perto conforme se aproximavam da Cidade Alta, estava próximo em seu flanco esquerdo agora. Não era mais possível evitar os horrores cambaleantes; todos estavam convergindo para a cidade, e o combate espalhava-se por toda a frente de sua coluna de soldados.
Mas seus soldados estavam sentindo o peso daquilo. Ela via a selvageria em seus olhos, o desespero nascido de uma convicção crescente de que o fim do mundo se aproximava, que marchavam para uma última batalha apocalíptica.
Prendedor de Demônios | Arte de David Gaillet
Ela elevou seu grifo para circular sobre as linhas de frente, gritando palavras de encorajamento para os desesperados e desanimados. Mas era mais que desespero, percebeu ela. Por mais horrível que fosse — lutar contra monstros retorcidos que haviam sido carne comum outrora, alguns deles humanos outrora — aquela não era a única coisa que os empurrava para o precipício do desespero. Havia algo mais, algo que ela experienciava como uma espécie de pressão em sua mente. Forçando sua mente a formar pensamentos estranhos, impulsos estranhos, percepções estranhas. Nos cantos de sua visão, monstros pareciam humanos e soldados pareciam monstros. O céu parecia contorcer-se com tentáculos azuis e malva revolvendo as nuvens. O solo dobrou-se sob ela, seu grifo virou do avesso, a lança de Avacyn curvou-se para baixo para apontar-se para o seu peito —
Não.
Ecoou como um sino em sua mente, uma palavra de poder proferida pelo espírito de um santo morto há muito tempo. Seus pensamentos clarearam, suas percepções voltaram ao normal. Clareza.
Mas os soldados abaixo dela careciam da proteção de Traft, e ela via a loucura criando raízes neles conforme olhavam ao redor em terror.
Não estão prontos, Traft sussurrou em sua mente.
"Não importa", disse ela em voz alta. "Temos que fazer isso agora."
Vai machucá-los.
"Esta loucura vai matá-los, ou eles se matarão uns aos outros. É a hora."
Faça, então.
O fogo dele correu por ela novamente, e ela agarrou a lança de Avacyn conforme circulava mais uma vez sobre as linhas de frente.
"Cátaros de São Traft!", gritou ela. "A loucura que se apoderou do nosso mundo está nos pressionando por todos os lados. Vocês a sentem, eu sei. Estão questionando seus pensamentos, duvidando de seus olhos e ouvidos. Ouçam-me!"
Para alguns deles, percebeu ela agora, era tarde demais. Viu cátaros contorcendo-se no chão, agarrando as cabeças ou encolhidos em bolas fetais. Maldito seja, ela esperara tempo demais. Mas ainda havia cátaros que poderia salvar.
"Vocês sabem que o geist de São Traft vive dentro de mim", gritou ela, e ao dizer isso, o geist fez uma aura de luz azul-branca brilhar ao redor dela. "Certa vez ele foi o Amado dos Anjos, e as abençoadas o protegiam como a igreja de Avacyn nos protegeu um dia. Mas Avacyn não existe mais, seus anjos estão perdidos para a loucura, e apenas os mortos restam."
Foi Traft quem os chamou, e eles responderam à sua convocação. Vindo do solo, mergulhando do céu fervilhante, voando em sua direção vindos da Cidade Alta, chegaram centenas de formas brancas e brilhantes. Vindo dos mausoléus e das Valas Abençoadas, não mais vinculados por proteções sagradas cuja magia falhara com a morte de Avacyn, os espíritos dos mortos vieram em auxílio dos vivos. Alguns cavalgavam corcéis espectrais, alguns carregavam lanças e espadas fantasmagóricas, alguns eram idosos e endurecidos pela batalha, e alguns eram criancinhas.
Cavalaria de Drogskol | Arte de Igor Kieryluk
"Contemplem os espíritos dos fiéis que vieram antes de nós", gritou Thalia. Ou talvez fosse Traft gritando com a voz dela. "Acolham-nos. Honrem os sacrifícios que fizeram para que pudéssemos lutar hoje. Abram-se para eles, e deixem que eles os protejam!"
E observou seus soldados — os desesperados, deploráveis, abençoados cátaros da Ordem de São Traft — pegarem fogo. Alguns deles, captando seu significado imediatamente, abriram os braços e abraçaram os geists que varreram para dentro deles. Thalia via o êxtase sagrado possuí-los, e os outros rapidamente seguiram o exemplo. Havia geists suficientes para todo o seu exército maltrapilho, e outro exército de sobra para marchar ao lado dos vivos.
Conforme o fogo irrompia para a vida dentro deles, lançaram-se de volta à batalha, e gritos piedosos subiram das linhas de frente enquanto abriam caminho à base de cortes e estocadas através dos horrores monstruosos à frente.
Existem alguns que não conseguem convidar os espíritos para entrar, disse Traft, direcionando os olhos dela para os soldados que ainda agarravam as cabeças ou estavam encolhidos em bolas.
Ela poderia salvá-los. Poderia direcionar os espíritos para possuí-los contra sua vontade, expulsar a loucura, limpar suas mentes. Seu estômago deu um nó com compaixão e luto.
"Não", disse ela. "Não posso fazer essa escolha por eles. Os outros os ajudarão, conforme puderem."
Direcionou seu grifo para o chão novamente, pousando entre Grete e Rem Karolus. Via o fogo branco brilhando nos olhos de Grete, mas Rem estava petrificado e sombrio.
"Nenhum geist para você, Rem?"
O soldado grisalho balançou a cabeça. "Como colocar uma sanguessuga no pescoço para manter os vampiros longe", disse ele.
Ela ensaiou um protesto, nervosa com o que poderia acontecer se ele perdesse os sentidos no meio da batalha — a ele, e aos soldados ao seu redor. Novamente, porém, não poderia forçar a escolha. E se algum soldado ali conseguia manter a cabeça em toda aquela loucura através de pura força de vontade obstinada, era Rem Karolus, Lâmina dos Inquisidores e Matador de Anjos.
***
A marcha deles tornou-se uma batalha interminável, cada passo adiante contestado por algum novo horror. As monstruosidades retorcidas — até mesmo as que ainda pareciam majoritariamente humanas — lutavam como javalis de Somberwald, rosnando e debatendo-se apesar de dúzias de ferimentos antes de finalmente caírem no chão e cessarem seu espasmo repugnante. Mas os geists sagrados tornavam os soldados de Thalia quase tão ferozes, e ela via soldados gravemente feridos levantarem-se calmamente de volta aos pés conforme os geists dentro deles fechavam suas feridas e restauravam sua força.
Mal percebeu quando passaram pela Muralha Externa, marcando sua entrada em Thraben. Apenas um pensamento passageiro — o fim está próximo — flutuou por sua mente antes que esfaqueasse uma criatura que fora um lobisomem um dia e então girasse para cortar um tentáculo estranhamente articulado que tateava em sua direção.
Estavam lutando ombro a ombro com vampiros agora, abrindo caminho pelas ruas da cidade. Os vampiros eram aliados aterrorizantes, demonstrando o mesmo deleite frenético em matar humanos distorcidos e corrompidos que demonstravam quando os humanos eram puros e íntegros. Cada resquício de um rosto humano que Thalia via em um monstro caindo sob sua lâmina adicionava ao fardo em seus ombros, mas para os vampiros aquelas criaturas eram apenas mais presas. Ela chegou a ver alguns vampiros pararem para alimentar-se antes de continuarem a avançar. Lutando contra uma onda de náusea, ela se forçou a desviar o olhar.
Uma grande praça aberta estendia-se diante da Catedral de Thraben, um lugar onde em tempos mais felizes grandes multidões de pessoas se reuniriam para ouvir o Lunarca fazer um discurso em dias sagrados. Multidões estavam reunidas ali agora — multidões de coisas eldritch, balbuciantes e contorcidas, travadas em batalha com o que restava da soldadesca da Cidade Alta e dos guardas da catedral. Thalia impeliu seu grifo para cima e circulou a praça para avaliar a batalha.
Cidadãos desesperados brandiam pás e foices, tentando conter gangues de cultistas retorcidos. Cátaros valentes atacavam em uma cunha cerrada para quebrar as fileiras de monstros sem rosto, apenas para se verem engolfados por todos os lados. Uma pequena matilha de lobisomens, liderada por duas feras de pelo branco, rasgava as fileiras de seus parentes totalmente corrompidos. Um skaab imponente montava guarda sobre o cadáver de um erudito miserável, defendendo seu criador com seu último resquício de força. Morte — tanta morte.
Extirpadora do Pecado | Arte de Craig J Spearing
Circulando de volta em direção aos soldados que avançavam e que ela deixara para trás, viu um grupo de soldados pesadamente blindados vestindo as máscaras de garça da Inquisição dos Lunarcas. Suas deformidades projetavam-se de sob seus capuzes e mantos, e eles cercavam um grupo de moradores aterrorizados. Thalia viu alguns dos cidadãos caírem de joelhos, implorando por misericórdia da igreja que deveria protegê-los. E então reconheceu Seeta, líder dos chamados Expurgados do Pecado. Espada em riste e raiva ardendo no peito, ela mergulhou em direção à cátara blasfema.
Então viu uma lâmina denteada irromper do peito de Seeta, e a chefe dos Empesteados do Pecado desabou de joelhos. Atrás dela, Thalia viu o rosto pálido de Olivia Voldaren sorrindo para ela com sarcasmo.
"Tudo bem", murmurou ela, e impeliu seu grifo para cima novamente, escaneando o caos em busca de Rem Karolus ou Grete.
Por que isso incomoda tanto você? a voz de Traft sussurrou em sua mente. Sua inimiga está morta, mas você queria fazê-lo você mesma?
"Não sou nenhuma santa", disse ela em voz alta.
Rostos voltaram-se para cima em sua direção, e ela viu terror nos olhos de seus próprios soldados. Finalmente avistou Rem, de rosto pálido e olhos arregalados. Sua espada tilintou nos paralelepípedos e ele apontou para cima — atrás dela.
Girou o grifo e viu a fonte do terror. Pairando no ar à frente da catedral estava uma imensa abominação formada de carne retorcida, tentáculos contorcidos... e asas emplumadas.
Brisela, Voz dos Pesadelos | Arte de Clint Cearley
As duas cabeças do anjo monstruoso proferiram um lamento dissonante que apunhalou seus ouvidos e inverteu seu equilíbrio, e ela teve que agarrar o pomo da sela para manter seu lugar. Abaixo dela, monstros retorcidos avançaram enquanto humanos não corrompidos agarravam os ouvidos ou cambaleavam para trás sob um assalto renovado. A coisa-anjo varreu um de seus grossos tentáculos inferiores pela multidão na praça, enviando humanos e horrores igualmente pelos ares ou esmagando-os contra o solo.
Se alguém ia enfrentar aquele pesadelo, Thalia percebeu, teria que ser ela. As asas de seu grifo tornavam aquilo possível, o que era mais do que qualquer pessoa no chão poderia dizer. Firmou-se na sela, ajustou sua empunhadura na espada e subiu até o nível dos olhos do anjo, acima do telhado quebrado da catedral.
Apesar do tamanho colossal da criatura, suas cabeças não eram maiores que a da própria Thalia, e algum indício de suas feições angelicais permanecia, incluindo uma cabeleira emaranhada de cabelos avermelhados.
"Abominação!", gritou ela, engolindo seu medo e pavor. Queria proferir algum tipo de desafio formal, mas as palavras fugiram de seu alcance e ela finalmente apenas mergulhou para atacar.
Um dos braços impossivelmente longos da coisa-anjo açoitou para rebatê-la para o lado, mas o grifo esquivou-se por baixo dele e Thalia o retalhou ao passar voando. As duas cabeças abriram suas bocas para lamentar novamente — uma boca apenas uma cavidade escancarada no pescoço da criatura — mas o som foi cortado quando Thalia cravou sua espada em algo como um ombro onde pelo menos três braços convergiam no lado esquerdo da criatura. Ao mesmo tempo, seu grifo rasgou a carne nodosa na lateral de uma daquelas cabeças monstruosas com o bico.
Em resposta, o anjo trouxe seu outro braço para cima e desceu meia dúzia de dedos-garras por seu flanco e através do flanco de seu grifo, enviando ambos despencando em direção aos degraus da catedral. O grifo tentou desesperadamente aprumar-se conforme caía, mas uma asa estava claramente quebrada, e ele conseguiu apenas colocar-se entre Thalia e os degraus de pedra dura.
Todo o corpo de Thalia doía, e sua perna estava presa sob o grifo num ângulo estranho, enviando ondas de agonia por seu flanco ao menor movimento. Sua cabeça girava. Encostou-a na pedra e encarou sua perdição lá no alto.
Parecia apropriado, de algum modo, que seu fim viesse pelas mãos de um anjo, uma personificação de tudo o que ela dera a vida para servir. A corrupção do anjo parecia espelhar todas as formas como sua vida dera errado nos meses recentes. Os anjos fundidos pairavam em sua direção, decididos a terminarem o trabalho que começaram.
Mas antes que Thalia pudesse erguer uma mão para se defender, algo brilhante interpôs-se entre ela e a coisa-anjo.
"OLÁ, MINHA IRMÃ", disse a coisa-anjo numa voz dupla horrível que ecoava com a ressonância de eternidades não ditas.
"Vocês não são mais minhas irmãs", uma voz pura e clara respondeu. Thalia viu uma figura no meio da luz, um anjo segurando uma foice cuja cabeça tinha o estilo de uma garça.
"Sigarda", sussurrou ela. O arcanjo da Hoste das Garças nunca se voltara contra a humanidade, mesmo no auge da loucura de Avacyn. Mesmo agora, ela se postava contra suas — irmãs? Aquilo significava que a coisa-anjo fundida continha Bruna e Gisela, os arcanjos das outras duas hostes. O desespero assentou-se no estômago de Thalia como pedra.
Sigarda, Graça das Garças | Arte de Chris Rahn
"VOCÊS DEVERIAM TER RESPONDIDO QUANDO CHAMAMOS."
"Para que eu pudesse ser parte deste 'grande trabalho'?" Sigarda respondeu.
Sigarda estava ganhando tempo para ela se recuperar, percebeu Thalia. Com toda a sua força restante, empurrou o grifo morto de cima de sua perna, enviando uma onda de agonia nauseante através dela.
"SIM. O GRANDE TRABALHO SE APROXIMA DA CONCLUSÃO."
A coisa-anjo estendeu ambas as suas garras imensas em direção a Sigarda, e quatro mãos menores perto de seu peito estenderam-se também, lembrando Thalia estranhamente de um bebê alcançando sua mãe.
"O trabalho de vocês aqui terminou, irmãs", disse Sigarda. "Vocês se tornaram o que fomos destinadas a destruir."
Thalia sentia Traft agindo em seu interior, suavizando a dor, fechando ferimentos e até remendando os ossos. Se Sigarda mantivesse suas irmãs à distância apenas um pouco mais, Thalia estaria pronta para lutar novamente. Procurou ao redor pela sua espada.
Sumira. O golpe que esmagara a ela e ao grifo contra o chão poderia ter enviado sua arma para a metade da praça. Como poderia lutar contra aquela coisa sem a maldita espada?
"VOCÊ NÃO PODE NOS FERIR AGORA, IRMÃ", disse a coisa-anjo.
Sigarda ergueu sua foice, que captou um raio perdido de luar e pareceu brilhar.
"Devo fazê-lo", disse ela, e varreu a foice num arco imenso e mortal através dos braços e peito de suas irmãs.
Mas um daqueles braços imensos, estranhamente bifurcados, arrebatou Sigarda do ar. Thalia arquejou de horror enquanto a mão grande carregava a forma de luta do anjo para a bocarra estranha e brilhante no peito da coisa-anjo, onde os quatro braços menores abraçaram Sigarda. Longas gavinhas de carne contorceram-se para fora e enrolaram-se nos braços de Sigarda, prendendo-a no lugar.
"Não, não, não", disse Thalia. Não podia ficar parada observando o último anjo são ser absorvido por aquela monstruosidade. Lançou seus olhos ao redor em busca de qualquer coisa que servisse como arma.
"ESTAREMOS JUNTAS NOVAMENTE", disseram os anjos fundidos.
Traft direcionou o olhar de Thalia para a lança de Avacyn.
"É pesada demais", disse ela.
Não para nós dois, o geist do santo respondeu.
"Tudo bem." Ela contornou seu corcel caído e abaixou-se para pegar a lança. Um calafrio espalhou-se por sua espinha conforme o poder de Traft corria por ela mais uma vez, protegendo-a da magia da lança. E ela estremeceu num instante de êxtase conforme asas brilhantes e translúcidas se abriram em suas costas, a benção de algum anjo invisível.
Fui o Amado dos Anjos, uma vez, Traft lembrou-a.
A lança quebrada parecia quase brilhar na luz das tochas e pequenos fogos espalhados pela praça. Ela a agarrou com ambas as mãos e a içou em direção ao céu.
Tão levemente quanto seu grifo, suas asas angelicais a elevaram no ar. Traft tivera razão — com a força dele ajudando a dela, a lança parecia tão leve quanto sua lâmina delgada em suas mãos. Para o alto ela voou, para onde a coisa-anjo segurava Sigarda, que estava agora mal visível sob uma camada de carne fibrosa.
Ao ver a lança de Avacyn brilhando nas mãos de Thalia, Bruna-Gisela proferiu outro lamento agudo. Conforme uma daquelas garras monstruosas balançava em sua direção, Thalia bloqueou-a com a haste da lança, então forçou a lâmina denteada e quebrada para baixo para morder aquela carne azul doentia. O lamento mudou de tom, de luto para dor física, e Thalia estocou com a lança, atingindo o mesmo ombro que perfurara com sua espada.
A outra garra veio descrevendo um arco em sua direção, e Thalia virou a lança para enterrá-la profundamente na carne do que deveria ter sido uma palma. Ela girou e alavancou a lâmina para rasgar o ferimento, cortando a teia de carne e osso que formava o membro impossível.
Sigarda parecia estar recuperando forças conforme suas irmãs fundidas enfraqueciam, lutando contra as gavinhas que a prendiam no lugar. Thalia retalhou o peito da coisa-anjo, afrouxando as amarras de Sigarda, então enterrou a lâmina através do emaranhado de costelas e tendões no brilho vermelho do abdômen. Sentiu o golpe em seu próprio ventre ao esfaquear o anjo blasfemo.
Goleando em agonia reflexiva, a coisa-anjo esmagou Thalia com sua garra menos ferida, enviando-a voando em direção ao solo novamente. Mas desta vez suas asas angelicais a trouxeram de volta num arco mergulhante e para cima, para as costas do anjo, onde ela cravou a lança de Avacyn através das asas emplumadas e a enterrou profundamente na espinha e em quaisquer órgãos que preenchessem o abdômen da coisa retorcida. Novamente, a agonia disparou pelo seu próprio peito.
Mas o lamento terrível do anjo cessou.
Ele estremeceu e contorceu-se. Suas garras monstruosas agitavam-se, tentando alcançar atrás de si. As asas fustigavam o ar, e a massa emaranhada de tentáculos que haviam sido as pernas dos anjos agarrava o nada.
Sigarda irrompeu do peito de suas irmãs manchada de sangue e icor, como um nascimento abominável, e chocou-se contra o solo na praça abaixo.
Thalia agarrou-se à lança, montando-a como um corcel indomado enquanto a coisa-anjo debatia-se em seus estertores de morte.
"Irmã", a coisa-anjo crocitou.
E seguiu Sigarda para a pedra dura da praça abaixo, encolhendo-se como uma aranha morta no chão. Thalia rolou de suas costas e caiu no chão ao seu lado, encarando para cima, na escuridão.
***
A mão de Sigarda levantou Thalia até seus pés, e sua dor fugiu e sua visão clareou. O anjo abençoado, o último arcanjo, sorriu para ela.
Vitória — a palavra flutuou por sua mente, e ela retribuiu o sorriso do anjo.
Então o rosto de Sigarda tornou-se solene novamente, e ela balançou a cabeça como se ciente do pensamento passageiro de Thalia.
Thalia virou-se para examinar a cena. A batalha ainda rugia, mas um relance sugeria que a maré virara, que humanos, vampiros e lobisomens lutando numa aliança improvável estavam repelindo a horda balbuciante da loucura.
Então seu olhar subiu para o céu.
A coisa no ar era impossivelmente imensa. Parecia-se vagamente com os anjos fundidos, Bruna-Gisela. Seu corpo em forma de cúpula era sustentado por uma massa de estranhos tentáculos, e uma luz avermelhada brilhava em seu núcleo.
Mas não havia resquício de qualquer vida natural, quanto mais a beleza e majestade de um anjo, na forma desta criatura. Sua existência desafiava a ordem natural das coisas, violava leis físicas e blasfemava contra a natureza sagrada da vida. Sua presença era um convite à loucura, pressionando a mente de Thalia como uma faca cega, apesar da proteção do santo.
À medida que se aproximava, uma onda gigante de monstruosidades corrompidas crestava à sua frente, chocando-se contra a praça e virando a maré mais uma vez em direção à aniquilação.
Thalia, Cátara Herética | Arte de Magali Villeneuve
20 de Julho de 2016 | Por Nik Davidson
Batalha de Thraben
Quando vimos Jace pela última vez, ele acabara de colocar os olhos no terceiro titã Eldrazi, Emrakul. Percebendo a enormidade da situação, ele viajou para Zendikar para reunir as Sentinelas; seriam necessários todos eles para destruir a monstruosidade arcana.
***
Jace estremeceu involuntariamente ao abrir os olhos em Innistrad. O ar estava bem mais frio aqui. Tinha um cheiro diferente, também, uma sensação diferente. O aroma era estranho, quase metálico, e quando ele exalou seu último suspiro do ar de Zendikar e inspirou Innistrad, ele sentiu. Havia uma densidade no ar ali. Aquele primeiro suspiro doeu, apenas um pouco.
O céu estava se rasgando. Nuvens de tempestade giravam, como se houvesse um vendaval em todas as direções, e nenhuma luz solar escapava do horizonte. O crepúsculo eterno do plano dera lugar a um brilho purpúreo. Seus olhos não queriam se ajustar à escuridão; eles lutavam contra ele a cada momento. Ele semicerrou os olhos em direção ao horizonte, em direção ao buraco na realidade, e tentou se concentrar. Foco. Foco. Sua mente parecia pesada aqui. Como um saco de arroz úmido sobre seu pescoço. Agitando, moendo, escorregando...
Houve um sino em sua mente. Ou a memória de um sino. Um lembrete de si mesmo, e seus olhos clarearam.
Ele estava no topo de uma colina, olhando para os campos ondulantes que cercavam Thraben. Ele podia ver a cidade agora, e metade dela estava em chamas. Havia batalhas ocorrendo nas ruas. Tochas. Gritos. Berros. Ele não tinha certeza se estava ouvindo os gritos daquela distância ou sentindo-os. E acima de tudo, lá no céu... ele não conseguia se obrigar a focar ali. Ainda não.
Um segundo conjunto de sons trouxe o foco de Jace para um problema mais claro e presente. Rosnados. Ganidos. Olhos brilhando em um verde doentio na escuridão.
"Lobisomens de novo", Jace murmurou para si mesmo. Ele estendeu a mão na escuridão e tocou levemente as mentes que encontrou ali. Três delas, devastadas pela loucura e transformadas em algo que ele mal conseguia reconhecer. Enquanto eles saíam das sombras, ele viu os lobisomens claramente. Seus pelos estavam em falhas, sua pele infundida com o mesmo padrão de treliça que ele vira por toda a matéria orgânica de Innistrad.
Jace tomou uma decisão. Não restava o suficiente dessas mentes para serem salvas. Não houve sutileza em seu ataque mental; ele agarrou os sentidos deles e sobrecarregou cada um deles — luz ofuscante, som ensurdecedor, cheiros tão intensos que eles se engasgaram com eles. Não foi bonito, mas ele precisava estabelecer uma base ali para quando os outros chegassem.
Plano de Contingência | Arte de Ryan Yee
Dois dos lobisomens ganiram e caíram; eles se contorceram e depois ficaram imóveis. O último dos três... riu? Ele podia sentir sua mente mudando, adaptando-se, crescendo em resposta ao ataque. A conexão mental se rompeu, e ele observou enquanto a pele da criatura ondulava, seus membros se alongavam, suas garras cresciam e sua pele escorria. Jace tropeçou para trás. O que quer que ele tivesse feito ativara algum tipo de mutação reflexiva. Agora, ele nem tinha certeza do que estava olhando.
Com um gesto rápido, ele se dividiu em uma dúzia de reflexos, e o monstro passou um momento farejando o ar antes de se concentrar em seu corpo real, ignorando as ilusões. Jace olhou ao redor em busca de uma rota de fuga e não encontrou nenhuma. Opções passavam por sua mente e eram descartadas uma a uma. As ilusões de Jace, semissubstanciais, tentaram cercar a fera, ganhando mais tempo para ele, até que...
... um flash de luz, o som de uma lâmina chicoteando e carne rasgando. O horror caiu em uma pilha mutilada e ganindo. Gideon.
"Está tudo bem, Jace. Eu cuido das suas costas."
Jace ajeitou seu casaco. "Você se perdeu no caminho? Fez uma parada em Ravnica para um lanche?"
"Não é fácil seguir você para um lugar onde nunca estive. Hmm." Gideon olhou colina abaixo em direção a Thraben. Se ele estava tendo dificuldade com seus sentidos, não estava demonstrando. "Maior que os outros dois. E tem uma força considerável entre nós e ela. Qual é o plano?"
Uma ondulação de calor apareceu no ar, e uma mulher saiu dela.
Chandra esfregou as mãos. "Mesmo plano da última vez, certo? Fogo? Acho que esse não era o plano na época, mas funcionou. Geralmente funciona." Ela colocou as mãos nos quadris enquanto olhava para a cena caótica abaixo.
A colina estremeceu levemente, o único arauto da chegada de Nissa. Ela franziu a testa enquanto se ajoelhava, colocando a palma da mão no chão. "A mana aqui é sombria. Retorcida. Está no solo, nas árvores... Emrakul fez parte disso, mas..."
"Esta é sua primeira vez em Innistrad, certo? 'Sombrio e retorcido' é tipo uma característica padrão." Jace continuou: "Então, basicamente temos o mesmo cenário da última vez, com algumas pequenas rugas. Emrakul está se movendo para Thraben, e precisamos chegar lá primeiro. Nissa usará seu glifo planar para se conectar à rede de linhas de força. Gideon abrirá um caminho para chegarmos perto. Canalizamos a energia do plano através de Chandra, e ela faz a parte dela."
Nissa balançou a cabeça. "Não vai funcionar. As linhas de força já foram redirecionadas. Para aquilo."
Jace tentou forçar um sorriso. "Bem, sim. A rede de criptólitos. Eles estão focando todas as linhas de força em direção a Thraben agora. Isso, somado ao fato de que Thraben é a população de vida mais densa de Innistrad, significará que Emrakul quase certamente será atraída para lá. Aquele ponto central deve amplificar os efeitos do glifo. Bem semelhante à rede de edros, na verdade."
"Se conseguirmos chegar perto o suficiente. Mas se chegarmos tão perto, Emrakul nos destruirá." A voz de Nissa era baixa, mas firme. "E se não chegarmos tão perto, poderei me conectar a uma ou duas linhas de força de qualquer outro ponto de observação. Três, no máximo. Não será o suficiente."
Chandra colocou a mão no ombro de Nissa. "Ei. Uma linha de força ou vinte, você me conecta, e faremos com que seja o suficiente."
Gideon suspirou. "Nissa, você acredita que consegue fazer isso? Não vamos tentar um plano com o qual não estejamos todos comprometidos."
Nissa pegou um punhado de terra e o peneirou entre os dedos. Ela olhou para os rostos de seus companheiros. Gideon, preocupado. Jace, impassível. Chandra, animada. Ela fechou os olhos e ouviu por vários longos segundos. O seu batimento cardíaco, o solo arruinado abaixo dela, as suas memórias.
"Sim."
***
"Olhe para isso, Gared. Bonito, de certa forma. Seu mundo está acabando." Liliana observava enquanto Thraben começava a queimar e tentáculos desciam das tempestades para varrer a terra abaixo. O céu estava repleto de anjos, e o solo abaixo do titã apenas fervilhava. Daquela distância, ela conseguia distinguir apenas o movimento, uma massa interminável e retorcida de criaturas, pressionando o mais perto possível da fonte do fim do mundo.
"Sim, senhora. É o que acontece por aqui, principalmente." O aprendiz da mística dos geists, com seu olho protuberante, olhava tristemente para o caos.
"Ah, lá estão eles. Vê o fogo e os flashes de luz? Devem ser os amiguinhos de Jace. Parece que eles estão indo direto para o centro de tudo."
Gared inclinou a cabeça, um efeito interessante sobre seu corpo já assimétrico. "Sim, senhora. Eu não pude deixar de notar, você levantou este adorável pequeno exército para ajudar, mas nós estamos ficando aqui em cima, e os outros estão lá embaixo."
"Hmm. Suponho que seja verdade."
***
Chandra estava gritando. Os outros não sabiam dizer se eram gritos de dor, alegria ou raiva; eles apenas ouviam os gritos e sentiam o calor avassalador. Ela era incandescente, um inferno que caminhava, e projetava fogo em todas as direções, chamuscando seus amigos, mas carbonizando onda após onda dos restos mutantes do que fora o povo de Thraben, apenas alguns dias atrás.
Chamas que se Espalham | Arte de Chase Stone
Os gritos pararam e os fogos se apagaram. Chandra caiu sobre as mãos e os joelhos, e Gideon saltou à frente para cobri-la. Eles estavam presos no que fora uma praça de mercado, duas das quatro entradas bloqueadas por escombros e prédios desabados. Uma torre em ruínas e marcada pela treliça inclinava-se tenuemente sobre a estrada de paralelepípedos que levava mais para o coração da cidade — mas tanto ela quanto a estrada por onde entraram estavam bloqueadas por fileira após fileira da legião de Emrakul.
Alguns deles ainda eram reconhecidamente humanos. Suas vozes eram um redemoinho estridente de gritos e jargões. Alguns eram o que restava de feras, de anjos, de coisas irreconhecíveis. Alguns se moviam com propósito, outros apenas avançavam pesadamente e gemiam, seus membros flácidos e sua carne derretendo como cera de vela.
E atrás deles surgia a tempestade.
O corpo da titã ainda estava em grande parte escondido da vista, mas sua presença estava em toda parte. Emrakul. A tempestade rugia e raios impossíveis golpeavam e cortavam a cidade abaixo. Tentáculos emergiam das nuvens negras, raspando rente ao chão, estrondando enquanto quarteirões da cidade eram reduzidos a cinzas e pedra.
Emrakul, o Fim Prometido | Arte de Jaime Jones
"Opções. Preciso de opções." Gideon inspecionou a praça, com a sural desenrolada. "Nissa. Elementais?"
A elfa balançou a cabeça. "Eu poderia chamar, mas não gostaríamos do que responderia."
Gideon rosnou sua frustração. "Chandra? Pronta para mais uma rodada?"
Chandra estava curvada, mãos nos joelhos, respirando com dificuldade. Ela levantou a mão e fez um gesto fraco de polegar para cima. "Com certeza, chefe. Só estou começando." Ela tossiu e se endireitou — seu rosto estava coberto de fuligem e cinzas, mas seu sorriso parecia genuíno o suficiente.
"Jace. O que você tem?"
Jace examinou a área novamente. "Não vamos seguir em frente. Temos um espaço aberto defensável para trabalhar. Eu digo que usemos o glifo aqui."
Gideon assentiu. "Nissa, você consegue?"
Nissa ajoelhou-se, colocando as duas palmas no chão. Um brilho verde serpenteou do solo, envolvendo seus braços em uma luz verdejante. "Duas linhas de força. Três se eu forçar."
"Faça." A voz de Gideon continha a menor hesitação. "O resto de nós, precisamos cobri-la. A resistência que enfrentamos até agora foi incidental. Nem tenho certeza se ela já nos notou."
Jace gesticulou em direção à torre que dava para uma das entradas da praça. Duas marcas ilusórias apareceram nela. "Chandra, preciso que você atinja a torre aqui e aqui. Quando a treliça transforma pedra, ela se torna bastante resistente a danos, mas se expande quando exposta ao calor extremo. Isso deve derrubar a torre e bloquear a rua."
"O quê?" Chandra olhou para trás, com as mãos já em chamas.
"Eu li em um livro. Confie em mim."
Chandra lançou seus punhos em direção à torre, e duas bolas de fogo em arco atingiram precisamente onde Jace marcara. Segundos depois, toda a estrutura desabou, bloqueando a maior parte da rua ao cair na estalagem do outro lado.
A praça do mercado ganhou vida — novos brotos surgiram da terra batida e dos paralelepípedos, e o ar, azedo e fétido, clareou ligeiramente. Nissa permaneceu imóvel no centro, enquanto runas brilhantes apareciam no chão ao seu redor, serpenteando de seus pés até que o complexo glifo estivesse completo.
Houve um som estridente vindo das hordas ao redor deles. Como um só, eles se viraram e avançaram em direção a Nissa — e Gideon avançou para interceptá-los. Ele atingiu a linha com poderosos cortes verticais e lançou seu corpo contra as fileiras deles, faíscas douradas subindo no ar noturno enquanto os golpes ricocheteavam em seu corpo. Ele soltou um rugido de desafio enquanto cortava em um círculo amplo, tentando infligir o máximo de dano possível e atrair o máximo de atenção para si.
Não Recuar | Arte de Tyler Jacobson
Mas as criaturas não caíam facilmente, e as que caíam não permaneciam no chão. Mesmo criaturas totalmente desmembradas ficavam paradas por apenas um momento; elas desenvolviam novos membros hediondos de cada ferida aberta e caminhavam, rastejavam e saltavam, atraídas diretamente para Nissa e o glifo.
"Nissa, estamos prontas? Porque eu realmente, realmente acho que agora é uma boa hora." Chandra andava na borda do glifo flamejante, enquanto Nissa murmurava sílabas incompreensíveis, com os olhos firmemente fechados. Chandra deu um grito de aviso a Gideon antes de banhar toda a rua em uma onda de chamas. Ela olhou por cima do ombro para ver Nissa estendendo a mão para a terra e puxando o que parecia ser uma videira espectral com espinhos, larga como o tronco de uma árvore. Ela se esforçou para puxá-la da terra e ofegou em choque quando aqueles espinhos espectrais cortaram seus braços.
Nissa grunhiu entre dentes cerrados. "Preparem-se... Quase... lá." Ela estendeu a mão novamente e ergueu uma segunda videira. Esta puxava e se dobrava, agitando-se para frente e para trás em seu aperto como uma serpente. Com um esforço doloroso, ela conseguiu enrolá-la na cintura como uma âncora e estender a mão para o chão em busca de uma terceira.
Chandra andava de um lado para o outro, sem saber o que fazer em seguida. Não havia nada que pudesse fazer por Nissa, e Gideon estava fazendo o que podia para deter uma massa fluida de criaturas que se movia em sua direção. Ela olhou para cima e imediatamente se arrependeu. Membros, tentáculos e outras extremidades assoladas pela treliça começavam a subir pelos prédios e escombros, em todas as direções. Centenas deles. Ela olhou para Nissa e viu-a cair de joelhos.
A terceira videira espectral era mais escura que as outras duas, os farpões mais cruéis, seu movimento mais sinuoso e caótico. Nissa tentava mantê-la sob controle, mas ela conseguira se enrolar em seu pescoço e parecia estar tentando arrastá-la para dentro do chão.
"A vida não pode parar... mesmo quando sabe que deve... mesmo quando sabe que está errado! Sozinha e discordante! Mesmo quando sabe!" A voz de Nissa ecoou, seus olhos brilharam em um roxo doentio e então ela caiu inerte no chão. As videiras se foram. O glifo escureceu instantaneamente. E as hordas de criaturas continuaram sua aproximação.
"Recuar!", Chandra gritou enquanto corria para o lado de Nissa, segurando sua cabeça o mais gentilmente que podia. "Vamos, vamos, você precisa acordar!"
"Não há para onde recuar, Chandra!" Jace assumiu posição ao lado das duas e estendeu a mão para tocar a testa de Nissa. "Ela ainda está aí dentro. Apenas um pouco atordoada. Ela ficará bem em alguns minutos."
Gideon veio correndo de volta para os outros, enquanto a multidão de criaturas pressionava lentamente para mais perto. "Eu vigiarei por ela até que acorde. Vocês dois viajem para a segurança."
Chandra levantou-se, com as mãos em chamas. "Não vai acontecer. Vamos todos sair daqui juntos, ou..." Sua bravata desapareceu com suas palavras finais.
"Ou não sairemos", Jace completou. "Juntos ou de forma alguma?"
Chandra abriu a boca para responder, então inclinou a cabeça para o lado. "Espere... o que é aquilo?"
As Sentinelas as ouviram antes de vê-las — rosnados, gemidos, triturações e rasgos, enquanto fileiras de mortos-vivos entravam na praça. Eles se moviam em formações cerradas, lançando-se, mordendo e arranhando as criaturas mutantes que cercavam os Planeswalkers, rasgando-as com uma força terrível.
Elite de Liliana | Arte de Deruchenko Alexander
Carne necrótica encontrou membros mutantes em um choque explosivo, ambos os lados indiferentes à dor ou às perdas. Mas os zumbis se moviam com precisão e propósito. Quando suas fileiras eram retalhadas, eram imediatamente repostas. E quando alcançaram os Planeswalkers, eles se dividiram, formaram um perímetro defensivo ao redor deles e começaram a empurrar para fora.
Então, a general deles apareceu.
Salvação das Trevas | Arte de Cynthia Sheppard
Liliana flutuou à frente, braços bem abertos, o Véu de Correntes pairando logo além da ponta de seus dedos. Suas tatuagens brilhavam com luz e pingavam sangue. Com um movimento casual do pulso, raios de energia necrótica varreram em arcos amplos, reduzindo os cadáveres das criaturas mutantes a cinzas. Todo o crescimento canceroso, toda a vibração retorcida foi simplesmente extinta. Em um campo de vida eterna e não natural, uma esfera de quietude e morte chegou, e ali reinou.
A expressão de Liliana suavizou-se de fúria exultante para um sorriso recatado em um instante, enquanto ela descia graciosamente ao chão. Suas tatuagens desapareceram e o Véu pareceu diminuir. "Oh, Jace. Cheguei aqui assim que pude."
"O que você está fazendo aqui?" Gideon ainda estava em uma postura de combate, sua sural fluindo com poder imbuído.
Esforço Coletivo | Arte de Eric Deschamps
"A moça legal com o vestido desconfortável acabou de salvar nossas peles, Gideon. Acalme-se um segundo." Chandra deu as costas para Liliana e se colocou entre eles.
Nissa se mexeu e esforçou-se para se levantar. "Aquela... coisa que ela carrega. É uma abominação." Nissa recuou diante do Véu, recusando-se a olhar para perto dele.
O sorriso de Liliana curvou-se em seu rosto. "Essa é uma maneira estranha de dizer 'obrigada, Liliana, você salvou minha vida e sempre estarei em dívida com você'."
Gideon grunhiu e sua sural se retraiu.
"Liliana, eu... eu não achei que veria você de novo. Mas você está aqui." Jace puxou o capuz, o brilho desaparecendo de seus olhos. As olheiras profundas sob eles eram fáceis de ver.
"Eloquente como sempre. Sim. Vocês foram resgatados, vocês me devem e agora deveriam realmente viajar para algum lugar seguro."
Jace balançou a cabeça. "Não podemos fazer isso. Precisamos terminar isso. Estamos tão perto. E com você nos cobrindo, acho que podemos fazer isso. Eu sei que podemos."
Liliana esfregou a testa. "Não é hora de ser ridículo, Jace. O que precisamos fazer é ir embora."
"O que você precisa fazer é pegar essa coisa maldita e ir." Nissa levantou-se instavelmente, mas com a espada na mão. "Não lutarei ao lado disso."
Gideon ergueu uma mão em aviso. "Você lutou no Portão Marinho ao lado de vampiros, piratas e coisas piores, Nissa. Aceitamos os aliados que conseguimos, se puderem ser confiáveis."
"Ah, o brutamontes sabe raciocinar!", Liliana radiante.
"Mas não sei se você pode ser confiável. Os instintos de Nissa raramente estão errados, e estou inclinado a concordar com ela. Esse objeto é... um problema. Mas eu não conheço você. Ele conhece." Gideon virou-se para Jace. "Então você decidirá. Diga-me, Jace. Ela pode ser confiável?"
Liliana riu, alto e claro, antes que Jace pudesse responder. "Essa é uma pergunta ridícula e você sabe disso. Olhe ao seu redor. Eu estalo os dedos e vocês todos são atropelados. Vocês estão confiando em mim, agora mesmo. Mas se não quiserem ir embora, não posso forçá-los. Então digam-me, bravos heróis, qual é o plano agora?"
Ela olhou para cada um de seus rostos. Gideon, exasperado. Chandra, exausta. Nissa, furiosa. E Jace, sofrido.
"Oh, maravilhoso." Liliana sorriu por falta de uma expressão melhor. "Tenho certeza de que isso terminará bem."
27 de Julho de 2016 | Por Ken Troop
O Fim Prometido
Innistrad enfrenta a destruição. Emrakul ressurgiu, e a titã Eldrazi trouxe consigo uma praga de horrores e mutações que ameaça sobrepujar toda a outra vida. As Sentinelas se reuniram em Thraben, e a recente chegada de Liliana e suas hordas de zumbis lhes deu tempo e espaço para formular um plano.
Mas será que algum plano será suficiente para conquistar Emrakul?
***
Liliana
Era um prazer observar as chamadas Sentinelas se contorcerem e se angustiarem. A frustração mal contida de Gideon; o desconforto de Nissa; a impaciência de Chandra; a dolorosa indecisão de Jace. Jace estava em seu lugar favorito — preso no meio devido a restrições arbitrárias que ele próprio inventara, imaginando por que as decisões da vida eram sempre tão difíceis. Você nunca vai mudar, vai? Liliana não sabia dizer se isso a divertia ou a enojava. Às vezes, ambos.
Salvação das Trevas | Arte de Cynthia Sheppard
Uma soratami voou para a clareira, com os olhos arregalados e a respiração curta. Ela não deu importância ao grande círculo de zumbis que os protegia dos lacaios de Emrakul, embora tenha olhado para o grande espetáculo de Emrakul; era impossível não fazê-lo. Ela pousou ao lado de Jace, falando rapidamente, embora baixo demais para Liliana ouvir. Ela parou de falar de uma forma que Liliana teria achado confusa se já não tivesse passado muito tempo com um telepata. Ela deve ser a soratami que Jace mencionara. Jace e Tamiyo continuaram sua conversa silenciosa, aproximando-se um do outro enquanto tocavam suas mentes. Liliana franziu a testa. Outra maga mental inútil, exatamente o que precisávamos.
Ela queria um tempo a sós com Jace, para descobrir qual era o objetivo final aqui. Seus zumbis trouxeram um alívio temporário. Mas eles precisavam sair dali, para longe de Thraben, para longe de Innistrad, para longe de Emrakul.
Ao pensar no nome, os olhos de Liliana foram atraídos para cima, para a figura imponente pairando nos arredores de Thraben. Por que ela está apenas parada ali? O ar parecia pesado, estagnado. Fecundo com o cheiro de... não era dos mortos. Liliana sentia-se confortável com os mortos e seu cheiro. Mas havia uma qualidade podre naquele cheiro que Liliana achava perturbadora.
Houve uma mudança repentina no ar, o cheiro e a pressão de um dia de primavera antes de uma tempestade, e nessa mudança Emrakul se desdobrou. Sua nuvem floresceu; seus tentáculos longos e finos se alongaram e se multiplicaram, de centenas para milhares, para dezenas de milhares, e mais. Uma esfera invisível de poder explodiu de Emrakul, ondulando e atingindo cada Planeswalker onde estavam.
A náusea revirou seu estômago; a vertigem torceu sua mente. Ela conhecera essa combinação nauseante de desespero e enjoo apenas algumas vezes em sua vida. Quando os olhos de seu irmão Josu se abriram sem vida, orbes negros como azeviche pressagiando a perdição; quando ela contemplou pela primeira vez o olhar funesto de Bolas, ouvindo seu riso maldoso enquanto ele prometia uma redenção envenenada; quando o poder do Véu de Correntes correu pela primeira vez em suas veias, rasgando sua pele e rachando-a como uma casca seca para deixar o sangue, seu sangue, vazar.
Nenhum daqueles momentos se comparava à anormalidade que ela sentia na presença de Emrakul. Liliana Vess passara a vida inteira buscando não morrer e, pela primeira vez em sua longa existência, ela se perguntou se estivera perseguindo o objetivo errado. À sombra do florescimento de Emrakul, a morte parecia apenas mais uma das mentiras superficiais da vida, uma falsa esperança que mal continha o verdadeiro horror que aguardava todos os que existiam.
Emrakul. Emraakull. Emraaa...
Ela balançou a cabeça com força, buscando clarear a mente. Vivera demais, superara demais, para sucumbir agora. Devemos fugir deste plano. Isso... é insanidade ficar. Não eram seus pensamentos, mas o Homem de Corvo falando diretamente em sua cabeça, parecendo... assustado. Liliana sentiu um pouco de prazer no medo dele. Então você pode sentir medo. Seus zumbis gemeram em uníssono: "Receptáculo de destruição. Raiz do mal. Fuja." Liliana assustou-se. Ela estava acostumada com o Véu de Correntes dizendo bobagens sobre receptáculos e raízes, mas fuja. O que quer que Emrakul fosse, o Véu de Correntes não queria participar.
A pressão no ar aumentou, induzindo uma dor de cabeça que encheu seus olhos de lágrimas de dor. Os outros Planeswalkers desmoronaram, exceto Jace, que lançou algum tipo de feitiço em resposta. Ela baixou a cabeça, suas agonias multiplicando-se. Emrakul do lado de fora. O Véu de Correntes por dentro. O maldito Homem de Corvo, onde quer que estivesse. Ela não sucumbiria. Estes são meus zumbis, meu Véu de Correntes, minha cabeça. Meus!
Ela encarou Emrakul, seu medo recuando, substituído por uma raiva fervilhante. Como você ousa...
Houve outra explosão de energia de Emrakul, uma tempestade completa que fez a explosão anterior parecer uma breve chuva de primavera. Liliana foi forçada a cair de joelhos enquanto gritava de raiva. Seus zumbis gemeram uma única palavra.
"Em-ra-kuuuull."
***
Jace
A torre de sombras púrpuras através do vidro chuvoso. Rastros de fogo pesados com o topo escuro caindo. Emrakul gargalha pensamentos com laço de metal frio...
Uma voz cortou a confusão caótica, uma voz familiar que ele ouvia pela primeira vez. Isso não está indo bem. Não vou sucumbir a isso. Sou melhor do que isso. Jace respirou de forma rítmica e lenta. O pensamento tornou-se coerente. Ele tentou recordar o jargão que dominava sua mente segundos atrás, mas ele já havia desaparecido, como o orvalho evanescente derretendo com o amanhecer. Ele estava no topo de uma longa e grandiosa escadaria em caracol, degraus de mármore branco adornados com detalhes azuis ornamentados. A escadaria estava intensamente iluminada, embora não houvesse fonte de luz óbvia, e estendia-se para baixo muito além de sua visão.
Acima, havia uma torre de pedra alta e arejada. Perto do chão, parecia-se com seu santuário em Ravnica. Uma grande mesa de pedra com pilhas de livros, mapas e vários... mecanismos que zumbiam e giravam. Estantes repletas de livros por toda parte onde a vista alcançava, e ele olhou para elas com saudade. Não apenas parecia com seus aposentos em Ravnica... eram eles, exceto que em Ravnica não havia uma escadaria palaciana em caracol descendo no meio.
Santuário de Jace | Arte de Adam Paquette
E em Ravnica certamente não havia uma força monstruosa destruindo seu santuário por cima.
Centenas de metros acima, Jace viu grandes blocos de pedra da torre desmoronando, ou sendo agarrados e arremessados. Todo o telhado da torre já havia sumido, revelando um céu escurecido inundado por uma sinistra cobertura purpúrea. Enquanto Jace observava a destruição, percebeu que a cobertura purpúrea não era uma nuvem. Era uma coisa. Uma criatura. A criatura resolveu-se em uma nuvem púrpura gigantesca estendendo centenas de tentáculos que se contorciam. Os tentáculos chicoteavam e se retorciam em direção à torre, acompanhados por relâmpagos e estrondos ensurdecedores do lado de fora. A criatura tinha um nome...
Emrakul. O nome soava estranho mesmo quando ele o dizia, uma palavra que ele não deveria saber, uma palavra que ele não poderia saber. Ou talvez essa fosse a palavra sob a palavra... Jace fez uma pausa, desgostoso com a facilidade com que perdia o fio do pensamento. Foco. Emrakul. Uma... coisa. Uma Eldrazi. A Eldrazi. A mente de Jace lutava para abranger a natureza da entidade. Sua cabeça doía, uma dor latejante e surda que crescia a cada contemplação da titã Eldrazi lá fora. Então não pense nisso. Onde estou? Que lugar é este?
Mais memórias retornaram. Ele não estivera em uma torre. Ele estivera em Thraben, sitiado por incontáveis hordas de lacaios de Emrakul. Todos eles estavam. Gideon. Tamiyo. Nissa. Chandra. Liliana. Ela fizera uma aparição surpresa, liderando uma multidão de zumbis para salvá-los dos cultistas e criaturas enlouquecidas por Emrakul. Liliana voltou. Ela...
Um trovão alto ecoou do lado de fora e o chão tremeu brevemente sob seus pés. Enquanto o chão tremia, a cabeça de Jace começou a latejar. Relâmpagos brilharam, iluminando os tentáculos de Emrakul enquanto arrancavam mais pedaços enormes da estrutura de pedra. A torre era grande e maciça, mas Emrakul a estava desmontando pedra por pedra.
Uma luz branca suave começou a pulsar mais abaixo na escada. A luz o chamava. Normalmente, Jace sabia o suficiente para desconfiar de luzes brancas suaves que o chamavam em um lugar desconhecido, levando a lugares ainda mais desconhecidos. Mas a maioria das situações normais não envolvia titãs Eldrazi onipotentes atacando. O brilho branco parecia uma opção cada vez mais intrigante.
Houve uma explosão brilhante do lado de fora, um roxo longo e profundo seguido por um rugido ensurdecedor de trovão. Toda a torre reverberou quando o raio a atingiu. Jace caiu no chão de dor, sua cabeça latejando com agonia. O que está acontecendo comigo? E então outra voz, sua voz, mas vinda de algum lugar lá fora, falou com a força de um comando. Mova-se. Mova-se agora. Vá para o andar de baixo.
Jace olhou para cima através das ruínas da torre para a voraz mandíbula púrpura de Emrakul, seus tentáculos intermináveis envolvendo-se em cada vez mais baluartes de pedra. Ele se levantou do chão e tropeçou em direção à escada. Decidiu que a voz, sua voz, estava certa. Era hora de partir. Ele desceu para as profundezas da torre.
***
Liliana
O sangue de Liliana estava em chamas, sua mente em frangalhos. Uma força a mantinha coerente — a raiva. Estes são meus zumbis. Meus! Você não os terá! Sem pensamento consciente, ela recorreu profundamente ao poder do Véu de Correntes e repeliu a força de Emrakul. Podia sentir o toque arruinado da Eldrazi, um toque agora tão poderoso que afetava até os mortos. Mas mesmo aquele toque funesto não era páreo para a proeza necromântica de Liliana apoiada pela força do Véu de Correntes. Ela sentiu seus zumbis retornarem para ela.
O poder correndo em suas veias era inebriante. Em cada vez anterior que usara o Véu houvera agonia e ruptura, mas, de alguma forma, desta vez sua raiva a inoculou das piores feridas do Véu de Correntes. Talvez essa seja a resposta para desbloquear o Véu de Correntes. Eu nunca o desejei o suficiente.
Ressurgir do Túmulo | Arte de Kieran Yanner
Vozes ainda sussurravam para ela vindas de seus zumbis e do Véu diretamente em sua mente. "Receptáculo de destruição. Raiz do mal." Aquelas não eram as únicas vozes que ela ouvia. O Homem de Corvo acrescentou seus tons estupidificantes. Devemos sair daqui. Isso é loucura. Achei que você queria conquistar a morte. A entidade que você enfrenta aqui é mais antiga que o tempo e mais poderosa que você, mesmo que você empunhasse cem Véus de Corrente! Devemos partir! O Homem de Corvo tentou emitir isso como um comando. Nunca ele parecera tão exposto, tão vulnerável.
Liliana deu uma olhada nos outros Planeswalkers. Chandra, Tamiyo e Gideon estavam espalhados pelo chão, inconscientes. Ela estendeu brevemente seu poder, mas as formas deles não responderam ao toque necromântico; todos ainda viviam. Nissa estava paralisada no lugar, gritando, as palavras que saíam de sua boca eram jargões. Energias verde e púrpura se acumulavam ao seu redor, chocando-se, diminuindo e fluindo. Jace era o único que estava de pé e parecia estar consciente, embora não desse atenção a ela. Ela notou um brilho azul ao seu redor, uma penumbra que se estendia a todos os cinco outros Planeswalkers. Todos, exceto ela. É isso que está mantendo você vivo?
A penumbra não se estendia a ela. Mas ela não precisava da ajuda dele. Liliana conhecera um poder considerável, um poder aliado à sabedoria e à crueldade nascidas de duzentos longos anos de vida. Mas ela sabia que nada disso a teria protegido do ataque mental de Emrakul. Ela teria sido obliterada, não fosse pelo poder do Véu de Correntes.
Poder que ela agora empunhava, e empunhava com alegria. Ela riu com a emoção daquilo. Era o mais próximo que chegara da quase onipotência de seu antigo eu. Posso fazer qualquer coisa. Ainda as vozes do Véu sussurravam em sua cabeça. Receptáculo. Receptáculo de destruição. Devemos fugir da Finalizadora de Mundos. Da Criadora de Mundos. Receptáculo! A voz do Homem de Corvo engasgou de pânico. Ouça o Véu, sua idiota! Fuja! Seus zumbis: "Raiz do mal. Receptáculo de destruição. Receptáculo!"
Liliana riu, uma risada repleta de raiva e poder. "EU. NÃO. SOU. UM. RECEPTÁCULO!"
Ela silenciou as vozes do Véu e do Homem de Corvo, calando-os abruptamente. Podia sentir a fúria e a impotência deles enquanto se voltavam contra ela. Tudo o que importa é minha vontade. Meu desejo. Nada pode deter-me. Ela acessou o Véu, aproveitando mais poder do que jamais ousara antes.
Eu não pertenço a você. Você pertence a mim.
Ela reuniu as energias do Véu, aproveitando-as para seu próprio poder e experiência consideráveis. No auge de tal poder, ela não sentia mais o ataque mental de Emrakul.
Ela voltou toda a sua atenção para a gigantesca titã Eldrazi. Como se reconhecesse seu poder crescente, a titã estava se movendo lentamente em sua direção. Todo mundo parece ter medo de você, Emrakul. Ela riu novamente, uma gargalhada enquanto se deleitava com seu poder. Ninguém acha que posso derrotar você. Vamos descobrir.
***
Jace
Enquanto Jace descia, ocasionalmente olhava para cima, mas as sombras obscureciam tudo, exceto alguns metros atrás dele. Acho que estas escadas só descem. Ele achou que ser conduzido por um corredor desconhecido para as profundezas de uma torre estranha deveria ser alarmante, especialmente acompanhado pelo ataque contínuo e pelos trovões que ainda ouvia acima, mas estava calmo. Aqui embaixo é definitivamente mais seguro do que lá em cima.
A parede de pedra ao seu lado começou a brilhar. Enquanto observava, a pedra transformou-se em vidro, ou pelo menos em algum tipo de material transparente. Toda a parede ao seu lado, dos degraus ao teto, transformou-se em um painel transparente. Através da janela havia uma cena, como um diorama que crianças fariam para a escola, mas este diorama se movia.
A figura central na cena era Gideon. Ele estava enfrentando algum tipo de ser celestial que se erguia sobre ele. Literalmente celestial — a figura era feita de um céu noturno estrelado. A figura celestial tinha dois grandes chifres negros emoldurando um rosto azul não humano. Ele empunhava um chicote impossivelmente grande com um crânio humano no cabo. Gideon parecia adequadamente "Gideon", queixo quadrado, sural dourada e armadura reluzente intacta. Mas a expressão em seu rosto não era nem de longe o Gideon que Jace conhecia. Este Gideon parecia preocupado, quase assustado. Havia raiva naquele rosto... mas também medo. Interessante.
Erebos, Deus dos Mortos | Arte de Peter Mohrbacher
Ao redor de Gideon estavam os outros membros das Sentinelas. Chandra, com as mãos e a cabeça em chamas. Nissa. Até um Jace. Certamente eu sou mais alto que isso? A figura celestial abriu os braços, o chicote de lado. Ele falou com uma voz profunda e ressonante que parecia borbulhar do chão. "E o que é que você, Kytheon Iora, mais deseja? O que você realmente quer?"
"Não!", Gideon gritou, seu rosto contorcido em desafio e dor. "Não há nada que você possa me oferecer, Erebos, nada! De você, tudo é veneno."
O ser, Erebos, ergueu seu chicote. "Não é uma oferta, mortal. Diga-me verdadeiramente o que você mais deseja ou matarei seus amigos, um por um."
Os ombros de Gideon caíram, sua sural recuou para a bainha. Ele olhou para Erebos, seu rosto uma mistura de raiva e desespero. "Eu mais desejo..." ele fez uma pausa, respirando fundo, "eu mais desejo proteger os outros, salvá-los..."
"Você mente." O chicote de Erebos estalou e, ao atingir o Jace ao lado de Gideon, ele se desintegrou, sua carne dissolvendo-se ao toque. Eu realmente não gosto de me ver morrer. Gideon gritou e avançou, sua sural brilhando, mas Erebos permaneceu imóvel. Ele ergueu a mão e Gideon foi arremessado para trás.
"Você não pode me derrotar, mortal. Você nunca derrotou. Você nunca derrotará. Diga-me a verdade e deixarei o resto de seus amigos viverem."
Houve um estrondo alto de trovão lá fora, Emrakul, essa é Emrakul, e Jace não conseguiu ouvir a resposta de Gideon acima do barulho. Fosse qual fosse a resposta de Gideon, Erebos não ficou satisfeito. Mais uma vez o chicote estalou, e agora Nissa se desintegrou com o toque. Gideon estremeceu quando Nissa foi abatida, mas não atacou desta vez. Chandra ficou ali parada com um olhar vazio, suas mãos flamejantes ao lado do corpo sem fazer nada. Esta cena definitivamente não é a realidade. Está dentro da cabeça de Gideon?
A voz de Gideon estalou com raiva. "Eu quero derrotar você, derrubar você para que não possa mais..."
"Não. Você continua a dizer mentiras." A voz de Erebos, em contraste, era plácida como um cemitério. Outro estalo do chicote, e Chandra desapareceu. "Você deve perder todos antes de reconhecer a verdade, mortal? Toda a sua teimosia para que fim? Você está determinado a sentir a maior dor." O chicote de Erebos dançou ao toque de seu mestre. "O que você quer?"
Gideon ergueu a cabeça para os céus e gritou: "Eu quero...", mas antes de terminar a frase, a janela escureceu.
Jace permaneceu imóvel, em silêncio, atordoado com tudo o que presenciara. Quem é Erebos? Que dor Gideon está passando? Jace não tinha ideia de que seu amigo estava sofrendo dessa maneira. E minha ignorância sobre Gideon é igualada pela minha falta de conhecimento sobre o que está acontecendo aqui.Serão sonhos? Estou dentro da cabeça de Gideon? A Emrakul lá fora certamente parece real.
As sombras aproximaram-se de Jace. Preciso continuar me movendo. As respostas estão mais abaixo. Ele dera apenas alguns passos quando outra parede tornou-se transparente. Desta vez, a cena apresentava Tamiyo.
Tamiyo, Pesquisadora de Campo | Arte de Tianhua X
Ela estava curvada sobre uma pequena bancada, debruçada sobre um grande pergaminho aberto em uma mesa empoeirada. A única iluminação na cena era uma vela, mas ela emitia muito mais luz do que seu tamanho sugeria. Atrás de Tamiyo havia estantes cheias de livros, e mais pilhas de livros ao lado delas. Jace sentiu uma pontada nostálgica. Estar cercado por nada além de livros e ter todo o tempo para lê-los. Aquilo não era sua vida há algum tempo, e não seria novamente tão cedo.
Sangue começou a escorrer de um dos olhos de Tamiyo. Começou com um gotejamento lento, cada gota atingindo a mesa com um pequeno plip. Enquanto ela continuava a ler o pergaminho, o outro olho começou a pingar sangue também, cada gota alternando-se. Plip-plip. Plip-plip. Plip-plip.
Jace assistiu com horror enquanto treliças semelhantes a carne começavam a crescer sobre os olhos de Tamiyo, cobrindo-os inteiramente. A marca de Emrakul. Jace vira demais da assinatura de Emrakul nos últimos dias. O sangue continuou a pingar através das treliças. Plip-plip. Plip-plip. Plip-plip.
As treliças floresceram em outros lugares. Crescimentos carnosos brotaram dos dedos de Tamiyo, cobrindo ambas as mãos nas estruturas semelhantes a teias. Os crescimentos fixaram-se na mesa abaixo, prendendo, ligando as mãos dela à mesa. Agora ela não podia mais ver nem mover as mãos. O sangue continuava caindo de seus olhos. Plip-plip. Plip-plip. Plip-plip.
Enquanto perdia o uso dos olhos e das mãos, Tamiyo sussurrava o tempo todo, embora nenhum som audível emergisse. Os tentáculos carnosos começaram a fechar sua boca como teias, lábio unido a lábio com cada fio da teia de Emrakul. Mesmo depois que sua boca foi costurada, a treliça continuou a crescer, a se contorcer e a se agitar. Os tentáculos estenderam-se para longe de sua boca fechada e agora, enquanto o sangue continuava a pingar de seus olhos, os tentáculos agarravam uma gota, enrolando-se nela, agitando-se enquanto o sangue se infiltrava em sua pele oleosa. Plip-agito. Plip-agito. Plip-agito.
Tamiyo estava imóvel, seus olhos, boca e mãos congelados. Jace tocara a mente de Tamiyo, conhecia a essência dela melhor do que a maioria. Sua habilidade de ver, falar, escrever, estas são as ferramentas essenciais de sua magia, de sua comunicação. É isso que a define. Ela está sendo apagada. Jace gritou e bateu na janela, mas nem Tamiyo nem qualquer outra coisa na sala se moveu. A janela tornou-se pedra opaca.
Jace desmoronou. Que lugar é este? Isso não podem ser as mentes dos meus amigos. Pode? As sombras pairavam sobre ele. Estava cansado, tão cansado. Ele se levantou lentamente e continuou sua descida.
***
Liliana
Este poder. É uma revelação. Tudo o que fora necessário era a vontade de Liliana. Seu desejo. Por tanto tempo ela se considerara totalmente pragmática e voltada para sua causa. Não morrer. Matar seus algozes demônios. Mas agora sabia que não estivera disposta a dar aquele passo final, a cruzar a última barreira. Eu tinha moderação. Que tola.
À sua frente erguia-se Emrakul. Uma titã Eldrazi. Uma criatura mais antiga que o tempo, se as vozes em sua cabeça diziam a verdade. Eu acho que você é uma coisa. Uma coisa poderosa, mas algo que vive. E se você vive, você pode morrer. E se você morrer, outro sorriso, então você pertence a mim.
As energias do Véu se contorciam e saltavam sob seu controle. Elas queriam ser usadas para definhar, para matar. O poder foi feito para ser usado. Ela o reuniu, moldou-o e enviou uma rajada coruscante de energia necromântica após a outra contra a figura imponente de Emrakul, lançando a titã para trás com a força delas.
Havia uma canção na cabeça de Liliana, uma canção que abafava tudo o mais. Era a canção do poder e cantava uma melodia tão doce. Foi para isso que nasci. Este é o meu destino. Cada explosão que atingia Emrakul deixava trincheiras abertas de material morto e marcado, grandes tentáculos do tamanho de torres ficavam murchos e secos. Parte do material se regenerava, mas não o suficiente antes de ser atingido pela próxima rajada de Liliana. Pela primeira vez desde o florescimento, Emrakul estava encolhendo. Ela estava sendo repelida. Liliana estava vencendo.
Liliana, a Última Esperança | Arte de Anna Steinbauer
A voz do Homem de Corvo cortou seu deleite, como um banho de água fria de esgoto. Você não sabe o que faz, o que ousa. Você não pode esperar conter este poder por muito mais tempo.
O desprezo de Liliana cobria cada palavra que pensava em resposta. Não tente me conter com suas pequenas expectativas, homenzinho. Hoje é o dia em que destruo uma titã Eldrazi. Por quê? Porque eu ouso.
Ela desejava que as Sentinelas estivessem conscientes para assistir à sua vitória. É assim que o poder se parece, seus patéticos Planeswalkers de araque. Ela lançou mais rajadas contra Emrakul, intensificando seu ataque.
***
Jace
Jace não se surpreendeu ao ver outra janela aparecer logo em seguida. Desta vez era Chandra. Ou, pelo menos, ele supôs que era Chandra. Ela era uma garotinha, mas o cabelo ruivo e o formato do rosto ainda sugeriam a mulher que ela um dia se tornaria. Chandra estava cercada por um grupo ameaçador de guardas, seus equipamentos ornamentados e coloridos, de um lugar que Jace não reconhecia. A casa dela. Os guardas ergueram suas lanças, e Chandra soluçava, as lágrimas lutando com os suspiros em busca do controle de seu rosto.
Chandra, Fogo de Kaladesh | Arte de Eric Deschamps
Um dos guardas, alto e magro, deu um passo à frente. Seu rosto exibia um sorriso largo, em contraste cruel com suas palavras terríveis. "Matamos seu papai, renegada. Matamos sua mamãe. E agora vamos matar você." Jace suspeitava que a cena não fosse real, apenas um pesadelo na cabeça de Chandra, mas seus punhos ainda se cerraram. Ninguém deveria ter que suportar esse tipo de dor. Os guardas avançaram com suas lanças enquanto seu líder zombava: "E a melhor parte, a melhor parte absoluta, é que não há nada que você possa fazer a respeito."
Chandra parou de chorar e encarou seus perseguidores. Um pequeno fiapo de chama brilhou em um olho. "Você está errado", disse ela, sua voz não soando nem um pouco como a de uma criança. "Há algo que eu possa fazer." Seu corpo estava mudando, crescendo, evoluindo diante de seus olhos na reconhecível Chandra que ele conhecia. "Algo que sempre posso fazer. Eu posso queimar." Fogo jorrou de sua cabeça e mãos.
Ela sorriu. Os guardas recuaram, incertos. Ela deu um passo à frente. "Eu posso fazer vocês queimarem." O líder explodiu em chamas. Ele gritou de agonia. "Eu posso fazer todos vocês queimarem." Agora os outros guardas estavam pegando fogo, sua pele estalando e borbulhando, seus gritos agudos perfurando o céu. "Eu posso fazer o mundo inteiro queimar." Calor, luz e fogo explodiram, uma brancura incandescente de energia, envolvendo e queimando tudo, inclusive Chandra. Chandra gritou, embora se de agonia ou deleite, Jace não saberia dizer.
Chandra em Chamas | Arte de Steve Argyle
A janela tornou-se pedra, mas Jace ainda sentia o calor emanando das paredes. Era um dos primeiros princípios das ilusões. Só porque está apenas na sua cabeça, não significa que não possa te matar.
Gideon, Tamiyo, Chandra... mas nenhuma Liliana ainda. A urgência o impeliu escada abaixo e ele olhou ansioso quando a próxima janela apareceu. Seu semblante caiu ao ver a figura atrás da parede. Oh, Nissa. Ele tentou não ficar desapontado, embora achasse difícil entender a elfa Planeswalker.
O cenário atrás de Nissa parecia exatamente com o mundo exterior — o céu escuro e púrpura, os flashes estranhos de luz, a sombra imponente de Emrakul, Liliana e seus zumbis. Nissa estava em agonia no centro. Ela gritava. Ela se contorcia. Torcendo-se, convulsionando, tremendo, mas aquelas não eram as únicas injúrias feitas a ela. Havia algo... se agitando... em suas mãos.
Mutação Grotesca | Arte de Dan Scott
Enquanto Jace olhava mais de perto, notou que os dedos de Nissa tinham minúsculos dedos crescendo neles, dezenas de minúsculos dedos estendendo-se de cada dedo. E então viu dedos finos como cabelos crescendo dos dedos minúsculos. Ele estremeceu, mas ao ver os olhos dela, soltou um grito involuntário. De cada uma das órbitas oculares de Nissa projetavam-se vários minúsculos brotos de olhos, e de cada broto de olho cresciam vários outros ainda menores. Energia verde brilhava de seus olhos e mãos, mas entrelaçado no verde estava um roxo escuro e violento.
Emrakul é Emrakul é Emrakul para sempre.
Jace não sabia de onde vinha o pensamento, mas mesmo em seu absurdo ele parecia verdadeiro. Para todo o sempre e sem...
"Negglish pthoniki ab'ahor!", palavras sem sentido jorravam de Nissa, ou se não sem sentido, então nenhuma língua que Jace já tivesse ouvido. Enquanto ela falava, sua cabeça tinha espasmos e, entre as palavras, sua língua pendia para fora da boca. O que são aquelas coisas na língua dela? Oh, não. Não, não, não, não. Estou atingindo o limite de detalhes que quero notar. Não, já passei bem do limite.
Visões Febris | Arte de Steve Belledin
Enquanto disparates e saliva jorravam de sua boca, palavras racionais começaram a infiltrar-se no jargão. "Shigg epsi-tudo chut'ghb acaba! Gilma-tudo chts-morre!" Os espasmos diminuíram, sua voz ganhando força e equilíbrio. Agora a energia que emanava dela era toda púrpura, um roxo profundo sem nenhum verde à vista. Ela ergueu a cabeça e os braços para o céu e gritou.
"Crescimento! O crescimento é a resposta! A única resposta! A entropia não pode perder. Mas ela deve vencer? É claro que o sacrifício deve ser feito. Por que eles lutam contra isso? A eternidade sem sacrifício oferece apenas o torpor gritante. O sangue deve ser batido, batido até ficar espesso. Por que eles temem a vida? Por que eles temem a verdade?"
Nissa proferindo palavras reconhecíveis não teve nenhum impacto apreciável na capacidade de Jace de entendê-la. Mesmo sabendo que era inútil, ele estendeu a mão para ela, mente a mente. Nissa, ajude-me. Ajude-me a entender. O que você está dizendo?
Nissa mudou e trouxe seu olhar para encontrar o de Jace diretamente através da janela. Ela me vê. Jace estremeceu, paralisado no lugar. Ele não conseguia se mover, não conseguia desviar o olhar. Os olhos dela brilhavam em um roxo sombrio. Ela falou diretamente com ele. "Eu posso fazer o que quiser. Qualquer coisa. Lembre-se disso. A única coisa que salva você é..." o brilho roxo desapareceu, a aura ao seu redor dissipando-se, "... eu não quero nada."
Ela olhou para ele por longos segundos, seu rosto distorcido e grotesco enquanto seus brotos de olhos extras continuavam a se contorcer. A janela misericordiosamente tornou-se pedra.
Jace permaneceu congelado em frente à parede. Ele tremia, o suor escorrendo de seu cabelo para o rosto e para a nuca. As sombras continuaram a pressionar de cima. Quanto tempo estive nestas escadas? O que está acontecendo com meus amigos? "Baixo" ainda o chamava, intensamente iluminado e puxando-o. Mas ele não queria se mover. Não queria fazer nada. Dormir. Eu poderia dormir. Posso não acordar, mas isso seria tão ruim? Seus olhos pesaram e uma penumbra agradável rastejou sobre sua mente. Ele sentou-se na escada. Estou tão cansado.
Cair no sono o fez pensar em Liliana. Ele não sabia onde ela estava, ou o que enfrentava. Ela não está aqui. Ela não está neste lugar. Mas se reconhecesse a verdade, ela nunca precisara dele de qualquer maneira. "Triste. Por um tempo. E depois eu supero." Foi o que ela dissera de volta em seu castelo, comparando a possibilidade da morte dele à de um cachorro. Um cachorro.Será que ela realmente não se importaria mais com a minha morte do que com a de um cachorro? Isso não pode ser verdade. Um cachorro. O pensamento o corroia.
Dormir, como eu poderia pensar em dormir agora? O que está acontecendo comigo? Ele não sabia dizer se era exaustão real ou um efeito mais malévolo. Isso importa? A solução é a mesma. Ele levantou-se. Continue descendo. Descubra isso. Não morra. Derrote Emrakul. Ele pensou em Liliana enquanto continuava sua descida.
***
Liliana
O primeiro sinal de problema foi uma interrupção em seu ritmo. Liliana nunca empunhara tanta energia antes e fora capaz de lançar rajada após rajada contra Emrakul a cada respiração. Respirar, explodir, respirar, explodir.
Mas embora seu poder não a tenha abandonado, seu corpo abandonou. Ela hesitou por um segundo, respirou fundo e, nessa lacuna, Emrakul avançou, seu corpo e tentáculos regenerando-se em um ritmo mais rápido do que Liliana julgava possível. Vários tentáculos grossos açoitaram Liliana apenas para murchar e secar ao toque de sua magia, mas vários outros os seguiram rapidamente. Onde antes cada rajada de Liliana repelia Emrakul, agora tudo o que ela podia fazer era manter sua posição.
Você é mortal. Você tem limites. Ela não. A voz do Homem de Corvo apunhalou seu cérebro com sussurros frios. Olhe para esta grama e esta terra, sua tola. Você fez delas o seu cemitério.
Ela gritou de raiva ao liberar mais rajadas de poder. O avanço da titã parou diante de tal ataque. Mas segundos depois, a energia diminuiu. Liliana deu longos suspiros ofegantes e o avanço de Emrakul continuou mais uma vez.
Não vou morrer hoje, ela rosnou para o Homem de Corvo, para o Véu, para qualquer coisa que quisesse ouvir. Para si mesma. Emrakul e seus tentáculos continuaram seu ataque incessante. Não vou morrer hoje.
Se você tiver sorte, Liliana, sua morte agora é o melhor resultado possível para hoje. Você condenou a nós dois. O Homem de Corvo falou sem desprezo, sem ódio ou medo. Ele parecia... resignado. Pela primeira vez desde o resgate das Sentinelas, Liliana ficou com medo.
***
Jace
Jace esperava que outra parede se tornasse transparente, para lhe mostrar uma cena da mente de Liliana. O que ele não esperava era que a escada terminasse em uma porta.
Era uma porta grossa de carvalho, reforçada com ferro, sem vigia ou fechadura. Apenas madeira e ferro, emoldurados na mesma pedra espessa do resto da escadaria. Ele colocou a mão na porta. Uma voz gritou, não não não não não não, e um terror puro apoderou-se de seu cérebro. Mas a voz desvaneceu, o terror recuando. Jace olhou para cima. As sombras não se aproximaram, mas também não se afastaram para revelar o caminho por onde viera. Se quisesse avançar, era através daquela porta. Ele empurrou a porta para frente e atravessou.
A sala era sem forma e sem cor. A vertigem o superou enquanto sua mente lutava para perceber o espaço. Jace sentiu o longo puxão do "para sempre", uma recursão infinita entrando em terror para nunca conhecer a paz do esquecimento para apenas para apenas para apenas... até que a realidade se encaixou no lugar. O nada ao seu redor materializou-se em um campo branco.
Havia um anjo à sua frente.
Ela aproximou-se e Jace notou o espaço tomando forma lentamente ao redor dela, ao redor de ambos. Eles estavam em um lugar real, uma sala, uma cópia do santuário em que ele começara esta jornada bizarra. Seu santuário. O anjo era alto, mais alto do que qualquer anjo que ele já vira antes, até mesmo Avacyn. E suas asas eram gigantescas, grossas e densas. Elas se dobravam atrás dela quase como uma nuvem de cogumelo...
Jace começou a suar frio, com o coração acelerado. Não oh não oh não...
Seu rosto estava escondido por um grande capuz, mas bem à vista estavam as duas espadas que ela carregava, uma em cada mão. Sua túnica desfiada na bainha em fitas, dezenas de fitas, não, centenas, e elas pareciam se multiplicar enquanto Jace observava. Elas se contorciam e se agitavam. Como se notassem Jace, as fitas de sua túnica sondaram o ar à sua frente, vivas. Se eu gritar, não sei se algum dia vou parar. Então é melhor não gritar. Chorar ajudaria? Estou aberto a chorar se isso ajudar.
Santuário dos Deuses Esquecidos | Arte de Daniel Ljunggren
Jace riu em uma combinação de diversão e medo. Estou tão feliz por me achar engraçado. O riso quebrou a paralisia, despertando sua mente. Eu conheço este anjo. Já a vi antes. Ou, pelo menos, vira estátuas dela antes, em Zendikar. "Emeria?", ele coaxou, a palavra soando estrangeira em seus lábios.
Ela olhou para ele, mas ele não podia ver o rosto dela sob o capuz. Jace observou cuidadosamente as fitas e as espadas, mas nada se moveu para atacá-lo. Sua confiança cresceu.
"Você é... você é... Emeria? Você é... Emrakul?"
"Posso me sentar?" A voz era feminina. Leve, quase etérea. Jace poderia até dizer que era trinante, em circunstâncias diferentes. Não nessas circunstâncias, porém. Jace não conseguia ver nenhum lábio se mover através do capuz dela para produzir a voz, mas soava como uma voz normal. Normalzinha.
Jace estava tão ocupado analisando a voz que levou um momento para processar o que fora realmente perguntado. "Você está perguntando para mim?" De todas as surpresas deste dia, receber uma pergunta educada não deveria ocupar um lugar alto na lista. Mas talvez estivesse no topo.
"Esta é a sua casa", uma pausa, "Jace. Jace Beleren." Ao dizer "Beleren", soou sílaba por sílaba.
Estou com muito medo agora. Também estou tão curioso. Que justaposição estranha.
"Sou apenas uma visitante aqui. Então, posso?" Ela ficou esperando.
Quão mais surreal este dia pode ficar? Ele tinha certeza de que não queria uma resposta real para a pergunta. Lembre-se do que é importante — não morra. Descubra isso. Derrote Emrakul. Seu mantra. Ele acrescentou outra frase. Convide Emrakul para uma xícara de chá. Ele sorriu, e o sorriso chegou ao seu rosto. "Por favor, sinta-se à vontade. Por favor, sente-se." Jace acenou suavemente para a grande mesa de pedra, e Emeria — não, não sei o que é isso, pare de assumir que sei —, o anjo sentou-se à mesa.
Ela embainhou ambas as espadas nas costas. Quando suas mãos voltaram para a mesa, seguravam um grande pergaminho, um pergaminho com faixas de ferro. Já vi um pergaminho assim antes. Onde? "Você não se importa se eu trabalhar enquanto conversamos, não é?" Sua voz melodiosa soava como se pudesse vir diretamente de um mago de guilda Azorius querendo orientação sobre um ponto de protocolo.
Aceite esta surrealidade. Pare de lutar contra ela. Veja onde ela vai. "Claro, por favor. Eu não gostaria de impedi-la do seu trabalho." Ela assentiu e desenrolou o pergaminho. Uma sensação incômoda cutucou a nuca de Jace. Onde eu vi aquele pergaminho? Mas não conseguia se lembrar. De algum lugar surgiu um longo estilete, e ela começou a escrever no pergaminho.
Jace limpou a garganta. "Bem, já que estamos, hum... você sabe, tendo uma conversa. Quem é você exatamente? Que lugar é este? O que está acontecendo?" Jace não podia se dar ao luxo de ser seletivo sobre onde obter respostas. Não conseguia reprimir seu instinto normal de ler mentes, não saber é muito pior do que a insanidade, mas não havia... nada. Nada em que pudesse se prender. Segredos não têm graça quando continuam segredos. Ele teria que fazer isso no estilo mundano como todos os outros. Através de palavras. Palavras com uma titã Eldrazi.
"Tudo acaba. Tudo morre. A plenitude está sempre atrás de nós. O tempo aponta apenas para um lado." Havia ecos dos comentários insanos anteriores de Nissa, mas Jace não entendia mais nada vindo do anjo. Ela não olhou para cima enquanto escrevia, seu capuz obscurecendo qualquer que fosse a luz da voz que proferia aquelas palavras estranhas.
"Você é Emrakul?" Jace não sabia o que estava arriscando e, cada vez mais, não se importava. A cautela é para aqueles com uma mão vencedora. "O que você quer?"
Ela parou de escrever, considerando o pergaminho. "Isso está tudo errado. Estou incompleta, insatisfeita, incipiente. Deveria haver flores, não ressentimento estéril. O solo não foi receptivo. Não é o meu momento. Ainda não." A maneira como ela disse "ainda" enviou um calafrio pelo pescoço de Jace. Ela retomou a escrita, apagando uma grande seção de tinta seca.
"Basta!", Jace gritou. "Você está aqui por uma razão! Poderia me matar de várias maneiras, com suas espadas ou seus tentáculos, mas não está fazendo isso. Está sentada aqui, dizendo bobagens... por quê? Não entendo o que está dizendo e não entendo o que quer. Ajude-me. Por favor." Enquanto Jace falava, sua raiva esfriou, mas foi substituída por algo ainda mais útil. Foco. Sentiu uma névoa clareando, uma névoa que apenas em seu recuo revelava o quanto estava obscurecendo.
"Você joga xadrez?" A voz continuou como se Jace estivesse dizendo tantas bobagens quanto ela. Jace foi tentado a gritar novamente, mas não achou que adiantaria muito. Além disso, ele jogava xadrez. Era muito bom nisso.
"Sim, eu jogo xadrez."
"Você jogaria uma partida comigo?" Ela parou de escrever e enrolou o pergaminho.
"Não tenho certeza se tenho tempo para jogar..."
"Se você vencer, tudo isso para. Eu lhe darei todas as respostas que você quiser." Ela guardou o pergaminho atrás de si.
Jace suspeitou de uma armadilha, mas ele era realmente bom em xadrez. "E se você vencer?"
"Eu já estou vencendo, Jace Beleren. Vamos jogar uma partida."
"Uh, há um problema." Jace olhou ao redor. Em seus aposentos reais em Ravnica havia um tabuleiro de xadrez, um bem sofisticado que recebera de presente dos Boros, mas neste estranho simulacro, nenhum tabuleiro era visível. "Eu, uh, não pareço ter..."
O anjo acenou com a mão e um tabuleiro de xadrez apareceu na mesa, ocupando o espaço onde o pergaminho costumava estar. O tabuleiro e as peças eram de pedra grossa, sólidos e com detalhes finos. Jace ergueu uma sobrancelha, mas se o anjo percebeu, não fez sinal. Suponho que, se ela se limitar apenas a criar tabuleiros de xadrez, ficaremos bem. "Vamos jogar?" Ela gesticulou para o tabuleiro. O lado de Jace era o branco, e ele fez o primeiro movimento. Magnânimo da parte dela.
"Você precisará mover-se mais rápido, Jace. O tempo está se esgotando." Mais rápido? Ele estava movendo-se quase instantaneamente. Ela não parecia uma jogadora particularmente habilidosa, e Jace começou a ver o esboço de um possível xeque-mate em seis ou sete movimentos.
"A comunicação entre nós é difícil. Não posso falar com você. Nem sequer sei realmente que você existe. Mas você, seu cérebro, ele é muito... adaptável." Ali, um erro crasso. Ele tinha mate em cinco movimentos. Confiante de sua vitória, ele fez uma pausa. Ela estava dizendo informações reais que ele poderia usar.
"Então, o que é tudo isso?" Ele acenou com as mãos ao redor deles. "O que é você? Como o meu cérebro adaptável faz isso acontecer?"
"Você conhece essas respostas melhor do que eu." Ela colocou a mão em uma peça, hesitou. "Ou, pelo menos, uma parte de você conhece. Como está sua dor de cabeça?"
Como ela sabia da minha dor de cabeça? Na verdade, ela estava reduzida a uma pulsação residual baixa, perceptível, mas não debilitante. "Está... está bem. Então você não é Emeria? Você é sequer real?"
"Fui personificada há muito tempo. Forças não podem ser persuadidas. O livre-arbítrio não existe em ondas que se propagam. Se você pega atalhos para tentar lidar com o que não pode perceber, nem sequer compreender, quem sou eu para contestar? Ninguém. Você. Talvez."
A dor de cabeça aumentou. Jace e a... o que quer que fosse trocaram mais alguns movimentos. O xeque-mate estava a um movimento de distância. Quanto mais Jace considerava, mais tudo isso possivelmente fazia um sentido bizarro. Esta não era Emeria. Esta não era Emrakul. Esta era a tentativa de sua mente de dar sentido a quaisquer pressões ou emanações que estivesse sentindo de Emrakul. Ele tinha que personificá-la para ter sequer uma chance de entendê-la. Mas acreditar nessa personificação era convidar a morte. Ou algo pior. A vertigem oscilou. Para todo o sempre e sem fim e sem fim e emer e emra...
Basta. Ele colocou a mão na rainha, moveu-a para a posição. "Xeque-mate." Ele sorriu. Não tinha certeza do que significava vencer aquele jogo, mas era bom vencer, vencer algo. Ela parou, olhou para o tabuleiro.
"Assim é." Ela levou as mãos ao capuz e baixou-o. Jace estremeceu instintivamente, de repente certo de que não queria saber como ela era... mas ela parecia normal. Como um anjo. Como a estátua que ele vira em Zendikar. Deu um suspiro longo e lento, exalou.
Um dos peões ao lado de sua rainha começou a se contorcer e fluir. Mãos e uma pequena espada de pedra apareceram no peão, e ele se virou para esfaquear a rainha. A peça da rainha gritou, sangue jorrando de seu lado. Ela caiu no chão, sangrando e tremendo. Morrendo. O resto do tabuleiro tornou-se um pandemônio enquanto mais peças de Jace se transformavam. Sofriam mutações. Atacavam-se impiedosamente, matando-se umas às outras, até que as poucas peças restantes piruetaram para encarar o outro lado do tabuleiro. Agora todas seguravam armas, armas pingando sangue, e começaram uma marcha lenta em direção ao rei de Jace, que agora não se parecia com nada além do próprio Jace.
Jace ficou boquiaberto com o caos. "O... que... ma... isso... isso não é justo! Você trapaceou! Não pode fazer isso! Essas são as minhas peças!"
Evacuação | Arte de Franz Vohwinkel
O rosto do anjo começou a derreter, pedaços de carne soltando-se enquanto o resto dela — asas, espadas, fitas e tudo o mais — começava a se dissipar em uma fumaça purpúrea. Mas a voz permaneceu.
"Todas são minhas peças, Jace Beleren. Sempre foram. Eu apenas não quero mais jogar."
Houve uma enorme explosão estridente do lado de fora acompanhada por um grande som de trituração. O teto da sala foi arrancado, revelando a visão agora familiar de Emrakul, a gigantesca nuvem de cogumelo com suas centenas de tentáculos e relâmpagos piscantes, devorando a sala.
A voz continuou, leve e etérea como uma brisa. "Está chegando, Jace. Eu estou chegando. Continue se movendo. Encontre suas respostas. Mas rápido. O tempo aponta para um lado, e ele o faz com fome."
Uma porta apareceu no fundo da sala, ornamentada com um brilho azul intenso atrás dela. Jace deu mais uma olhada em Emrakul acima e fugiu.
***
Liliana
Liliana fez tudo o que pôde para continuar viva.
Ela estivera usando parte de seu poder para conter os efeitos do uso do Véu de Correntes. Impedira sua pele de rachar, suas veias de derramar sangue. Ao assumir completamente o Véu de Correntes, ela pensara ter descoberto os segredos de seu verdadeiro uso.
Ela estava errada.
Mas por mais agonizante que fosse sua pele se partindo e suas veias se rompendo, era melhor do que o esquecimento contra o ataque de Emrakul. Ela ainda recorria a imensas quantidades de poder, mas agora todo esse poder era colocado em um único uso. Permanecer viva por mais um momento.
Seus momentos estavam se esgotando. Enquanto Emrakul chicoteava e açoitava contra sua magia, ela ordenava que seus zumbis atacassem. Eles mordiam, agarravam, golpeavam Emrakul, como pulgas contra uma tempestade, com efeito semelhante. Zumbis eram destruídos aos centenas sob o ataque de Emrakul, e centenas mais se desintegravam sem toque enquanto Liliana instintivamente recorria à magia de animação deles para alimentar mais um momento de sobrevivência.
Elite de Liliana | Arte de Deruchenko Alexander
Se havia algum consolo em sua derrota iminente, era o abençoado silêncio dentro de sua cabeça. Não havia vozes do Homem de Corvo, nem cânticos ou sussurros do Véu. Mesmo que sua realidade fosse sangue e dor e uma luta desesperada para permanecer viva, sua mente era dela e somente dela. Havia consolo ali, se ela escolhesse aceitar.
Um grande tentáculo, grosso como seu torso, rompeu e a agarrou pela cintura. Ela gritou de raiva e explodiu o tentáculo, sua carne seca soltando-se. Tossiu sangue, cambaleando, mesmo enquanto mais tentáculos vinham.
Ela ia morrer ali.
Ela olhou para os outros Planeswalkers, seus corpos ainda protegidos pela grande clareira que seus zumbis minguantes proporcionavam. Nissa não estava mais gritando, mas jazia inconsciente como o resto deles. Apenas Jace estava de pé, o brilho azul ainda no lugar, protegendo-os de... algo, mas ele não se movia, não falava.
"Jace!" Seu grito não produziu resposta. Nenhum sinal de reconhecimento.
"Jace, seu bastardo! É bom que você esteja fazendo algo útil!" Isso foi tudo o que ela teve tempo, pois Emrakul pressionava. Cada momento importava. Esse tornou-se o seu mantra. Mais um momento. Mais um momento. Mais um...
***
Jace
Jace lançou-se através do portal aberto, buscando refúgio do ataque de Emrakul.
Estava em uma sala pequena e escura, uma cópia de um de seus santuários mais internos em Ravnica. Ali, de pé na frente dele, estava ele mesmo.
Jace, Desvendador de Segredos | Arte de Tyler Jacobson
Com toda a outra insanidade que Jace experimentara desde que acordara na torre, encarar a si mesmo era uma das confusões mais benignas.
"Oh, isso deve ser bom."
A cópia não sorriu, não se moveu. "Você chegou. Já era hora. Mas não sei se você é eu." Ele ponderou por um momento. "Responda a este enigma."
"O quê? Já chega de enigmas. Preciso de respostas. O que—"
"Primeiro, um enigma", disse a cópia.
"Você deve estar brincando. Não vou ficar parado aqui sendo questionado por uma versão tirana fugitiva de mim mesmo ou, pior, por algum impostor maligno que só quer desperdiçar meu tempo!" Jace terminou seu discurso com um grito de raiva.
A cópia ficou ali com um sorriso presunçoso e uma sobrancelha levantada. Eu sou realmente tão enfurecedor? Eu sou tão enfurecedor. Preciso trabalhar nisso.
"Só é enfurecedor quando você sabe que estou certo. Preciso saber se você é eu." Jace imaginou se haveria consequências permanentes em dar um soco na própria cara. Provavelmente.
"Como eu sei que você é eu?" Não foi a réplica mais afiada, mas foi tudo o que ele teve no momento. Seu cérebro estava processando muita coisa agora.
"Porque eu sou o único com respostas. Você está perdendo tempo, tempo que não temos." A cópia bateu o pé de uma forma que Jace reconhecia muito bem. Não sei se conseguirei interagir com outro ser humano novamente. Sou irritante demais para se conviver.
Ele abaixou os ombros e acenou com a mão. "Tudo bem, pergunte."
"Não sou maior que um seixo, mas o meu fechamento cobre o mundo inteiro. O que sou eu?"
"Isso? Esse é o seu enigma? Seu sistema de segurança para ter certeza de que sou você? Você deve ser um impostor, porque me recuso a acreditar que sou tão burro."
"Você ainda não respondeu à pergunta. Esta conversa vai terminar rapidamente se não responder." Os olhos da cópia brilharam em azul de uma forma que Jace ficou perversamente feliz em achar ameaçadora. É bom ser lembrado de que você pode ser ameaçador de vez em quando.
"Pah. Achei que teria inventado algo difícil. Olhos. A resposta são olhos." Jace encarou sua cópia e então piscou ostensivamente várias vezes para ilustrar o ponto. "Vejo o mundo inteiro. Agora não vejo. Ver. Não ver. Como este enigma poderia ser útil?" A cópia relaxou, desfazendo qualquer feitiço que tivesse preparado.
E então Jace entendeu. O objetivo do enigma não era ver se ele o resolvia. O objetivo era ver quão desdenhoso e incrédulo ele ficaria diante de um enigma fácil. Ele assentiu. Tudo bem, este sou eu. Sabia que a cópia estava pensando a mesma coisa.
"Tudo bem, eu sou eu. Quero dizer, eu sou... sim, somos um ao outro. Provavelmente. Você prometeu respostas." Jace estendeu a mão para ler a mente de sua cópia, mas nada aconteceu.
"Não é assim que funciona aqui. Aqui, nós conversamos." Outro sorriso tímido.
"Tudo bem", Jace lutou para não cerrar a mandíbula. "Fale. Agora."
A cópia ponderou brevemente. "Ainda não sei todas as coisas que você não sabe. Faça-me perguntas."
"Onde estamos?" Jace não tinha certeza se era a pergunta mais urgente, mas estivera vagando por aquela torre abandonada na última hora e realmente queria saber onde estava.
"Sério, essa é a parte que você ainda não descobriu?" Seu condescendente... A raiva de Jace não foi atenuada pelo fato de a condescendência vir de si mesmo. E nesse flash de raiva, ele compreendeu. Jace lembrou-se.
Emrakul surgindo, florescendo, desabrochando. Liliana dera a todos uma trégua momentânea dos lacaios de Emrakul com seus zumbis, mas nenhum deles estava preparado para o surgimento da própria Emrakul. Os sinais físicos eram aparentes, mas o ataque mental era o verdadeiro perigo. Uma pressão, uma dor, diferente de qualquer outra que ele sentira antes. O truque do sino de Tamiyo dissolveu-se instantaneamente. Não houvera tempo para um plano, nem tempo para pensar.
O feitiço que ele lançara fora reflexivo. Um que ele preparara há muito tempo, para proteger sua mente de uma dissolução iminente.
Eu não estou em uma torre. Eu sou a torre. Tudo se encaixou. As cenas de seus amigos, a conversa com Emeria, até mesmo esta conversa agora, tudo estava acontecendo dentro de sua mente, recebendo sustento e estrutura pelo poder de seu feitiço. Bem-vindos à residência Jace, pessoal. Espero que tenham gostado da estadia. Com base nas cenas que vira nas mentes de seus amigos, ele tinha certeza de que ninguém gostara. Mas a alternativa era o esquecimento, ou algo pior, para todo o sempre e sem fim e sem fim e emer...
Balançou a cabeça rapidamente tentando dissipar o torpor, notando que sua cópia fazia o mesmo movimento ao mesmo tempo. A pressão de Emrakul estava aumentando. Jace olhou para cima e notou o teto da sala tremendo. Está atacando. Está chegando.
"E você? Eu?"
"Innistrad era um lugar estranho. Um lugar perigoso. Assim que cheguei, soube que algo estava errado. Configurei alguns... mecanismos de segurança caso algo desastroso ocorresse. Enigmas dentro de enigmas, sombras dentro de sombras. Emrakul é a coisa mais assustadora que eu, nós, já enfrentamos. Então fiz um plano de contingência para manter me separado de mim. Para descobrir o que realmente estava acontecendo e ser capaz de pará-lo. Corrigi-lo. Você sabe." E agora ele sabia.
Peças do Quebra-cabeça | Arte de Magali Villeneuve
Ele era tão bom em autoalteração. Ele estremeceu, imaginando qual dele era o verdadeiro Jace. O melhor Jace. Bobagem. Sou eu, é claro.
"Ei, você aí", a cópia sorriu. "Não se antecipe. Você é apenas a segunda pessoa mais inteligente nesta sala."
"Basta." A mente de Jace estava começando a girar a uma velocidade familiar e reconfortante. "O plano. É melhor eu não ter criado você apenas para você me contar um enigma idiota. Não sabemos como derrotar Emrakul."
"Fale com Tamiyo. Ela estava no meio de nos contar coisas interessantes quando Emrakul atacou."
"Essa é a sua contribuição útil? Falar com Tamiyo?"
"Não, minha contribuição útil é, na verdade, descobrir como fazer com que todos caminhemos, falemos e pensemos normalmente, mesmo com o equivalente psíquico de uma festa de extermínio Rakdos-Golgari vezes o infinito martelando contra nós. É um truque bastante difícil, na verdade."
"Oh. Bem, obrigado, eu. Bom trabalho."
"Todo mundo está em péssimo estado. Mas pelo menos seremos capazes de pensar com coerência. Não... não está nada bom lá fora. E há outro problema."
"O que é...", mesmo enquanto fazia a pergunta, a resposta fluía em seu cérebro. As duas partes de Jace estavam se fundindo, tornando-se uma. Havia palavras, mas as palavras eram ditas por cada um deles ao mesmo tempo.
"Liliana está prestes a morrer." Jace dissolveu o feitiço. A torre desvaneceu na realidade.
***
Jace
Ele voltou para o caos. Liliana estava no chão à sua frente, inconsciente, sangrando profusamente de múltiplos ferimentos. Acima deles, Emrakul pairava em seu desdobramento total, uma luz lavanda brilhante irradiando do centro de seu corpo, o olho de sua tempestade. Seus tentáculos, largos e grossos, dizimavam o que restava de Thraben.
Emrakul, o Fim Prometido | Arte de Jaime Jones
Os zumbis de Liliana eram apenas uma fração do que foram antes do feitiço de Jace. Os humanos e feras infectados pela loucura de Emrakul começaram a se aglomerar novamente, ameaçando romper o cerco. Afastar o ataque mental de Emrakul não seria de muita ajuda se os lacaios dela os retalhassem.
Os outros Planeswalkers recuperaram a consciência um momento depois de Jace, cambaleantes e desorientados. Jace enviou foco aos seus amigos, limpando as teias de aranha do ataque de Emrakul. Chandra, Gideon, os zumbis de Liliana precisam de sua ajuda. Não podemos deixar os lacaios de Emrakul passarem. Gideon moveu-se primeiro, com a velocidade decisiva de um soldado. Uma imagem do chicote de Erebos passou pela mente de Jace, mas ele a afastou.
Chandra hesitou. Eu posso... eu ainda posso tentar queimá-la. Eu consigo. Sua hesitação desapareceu, substituída por uma confiança natural que Jace achava atraente e mistificadora ao mesmo tempo. Ela não finge confiança. Simplesmente vem a ela. Estranho, pensou consigo mesmo. Jace hesitou. Tentar queimar Emrakul não parecia certo, não parecia possível. Mas como ele poderia ter certeza de que isso não era apenas jogos mentais que Emrakul estava jogando com ele, com todos eles? Emrakul estivera em sua mente. Ele sentira o poder dela.
Ele lançou seus pensamentos para todo o grupo, seu feitiço de proteção mantendo suas mentes ligadas. Não, Chandra. Emrakul é grande demais. Poderosa demais. Não podemos derrotá-la dessa maneira. Não tenho certeza se ela pode ser destruída.
Jace está certo. Tentar queimar Emrakul é como jogar uma tocha no oceano. Não funcionará. Mesmo que todas as linhas de força estivessem disponíveis. Ela é muito... vasta. A voz de Nissa soava estranha, distante. Ela estava tecendo trepadeiras, brotos e folhas em compressas para envolver as feridas de Liliana, mantendo-a viva. Emrakul estava lá, no meu despertar. No momento da minha centelha. Talvez seja apropriado que ela esteja lá no fim.
Oh, uau, você não deve ser convidada para muitas festas, hein. A voz brincalhona de Chandra contrastava com suas palavras. Chega de conversa pessimista. Mais conversa de como-venceremos-isso, por favor. Eu vou queimar coisas. Chandra correu para o anel externo da horda de zumbis, suas chamas repelindo os cultistas enlouquecidos.
Jace. Lembre-se do que Avacyn disse. A voz de Tamiyo, uma brisa leve em uma costa ensolarada.
Um eco ecoou em sua cabeça, um anjo louco dizendo suas últimas palavras ao seu criador. O que não pode ser destruído deve ser contido.
Jace, essa é a resposta. É isso que devemos fazer. Não podemos destruir Emrakul. Devemos contê-la. A voz de Tamiyo era insistente, clara. As Sentinelas enfrentaram esse mesmo dilema em Zendikar e lá escolheram a destruição. Mas essa não era uma opção em Innistrad. Emrakul estava além de seus poderes. A única destruição em questão era a deles mesmos — junto com todos os outros em Innistrad.
Como? Contê-la pode não ser mais possível do que destruí-la. Que prisão poderia possivelmente detê-la?
A mesma prisão que conteve todos os horrores de Innistrad por centenas de anos.
A Câmara Infernal? Jace estava confuso. Ela não foi destruída?
Não a Câmara Infernal, Tamiyo respondeu. De onde a Câmara Infernal veio. A lua. Uma lua de prata. Eu tenho um feitiço de contenção. Um poderoso. Posso sintonizá-lo com a lua. Mas ele precisa estar ligado a Emrakul...
A mente de Jace girou. Eles conseguiam fazer isso. Jace estava confiante de que poderia anexar o feitiço de Tamiyo a Emrakul. Mas precisariam de poder, combustível para o feitiço. Nissa...
Nissa estivera em silêncio enquanto continuava infundindo sua mana nas compressas que envolviam Liliana. Liliana respirava compassadamente, embora ainda estivesse inconsciente. Jace sentiu uma onda calorosa de gratidão por Nissa, mas agora precisava de mais dela. Muito mais. Você pode alimentar o feitiço?
A voz de Nissa era fria, serena. Não. Há tão poucas linhas de força aqui que eu possa tocar. Tão poucas que eu queira tocar. Jace fez uma pausa, incerto sobre o que dizer a seguir ou como ajudá-la. Mas eu lhe devo uma, Jace Beleren. Eu vou tentar.
Deve-me?
Minha mente não era minha. Eu estava presa em uma escuridão trazida pelo surgimento dela. Fui consumida por ela, com muita facilidade. Não foi... agradável. Você me resgatou desse horror. Você tem um dom para tornar as coisas difíceis tão fáceis. Farei o que puder.
Jace gaguejou. Hum, obrigado... não fui realmente eu, quero dizer, eu lancei o feitiço, mas não estava realmente pensando na hora, e na verdade provavelmente piorei as coisas porque não...
"Obrigada" é o suficiente, Jace. Você também tem um dom para tornar as coisas fáceis tão difíceis. Estou pronta.
Jace não soube como responder a isso, então não o fez. Tamiyo, você está pronta?
Tamiyo pegara um pergaminho. Outra memória passou pela mente de Jace. O anjo pegou um longo pergaminho, um pergaminho com faixas de ferro. Fora ali que ele vira o pergaminho de Tamiyo, em sua conversa mental com Emeria. Mas o pergaminho que Tamiyo escolhera não tinha faixas de ferro.
Jace não teve mais tempo para ponderar o mistério. O espaço ao redor deles estava diminuindo. Gideon e Chandra estavam cada um contendo os lacaios de Emrakul sozinhos, mas não podiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e os zumbis estavam prestes a ser sobrepujados. Era a hora.
Estou pronta, Tamiyo confirmou. Ela começou a ler seu pergaminho. Jace não conseguia se concentrar nas palavras, estava perdido nos detalhes de anexar o feitiço de Tamiyo a Emrakul, usando o conhecimento colhido de Ugin e suas próprias manipulações de edros em Zendikar. Um glifo brilhou na lua, linhas incisas brilhando intensamente contra o reflexo prateado. Ele tinha que fixar aquele glifo em Emrakul, na presença de Emrakul.
Aprisionada na Lua | Arte de Ryan Alexander Lee
Mas o feitiço exigia poder. Fluxos, torrentes de poder. Nissa esforçava-se contra a terra, seus olhos em um verde brilhante e resplandecente enquanto tecia os fragmentos poluídos de mana restantes em Innistrad em algo que Jace pudesse usar. Jace podia senti-la drenando as linhas de força, procurando cada bit final de energia. Não era o suficiente. Não ia ser o suficiente. Nissa tropeçou e caiu no chão, seus braços agitando-se.
Eles iam perder o feitiço.
Enquanto Jace lutava para manter o feitiço funcionando, perdeu o contato mental com Tamiyo. Onde ela estivera em sua mente, agora havia apenas uma nuvem, uma névoa cinza escura que ele não conseguia penetrar. Tamiyo pegou outro pergaminho, um longo pergaminho, um pergaminho com faixas de ferro, e começou a ler um segundo feitiço.
Energia fluiu para Jace. Ele estava em um rio largo de mana, mais magia, mais energia do que jamais sentira antes. Era maravilhoso. Ele pegou a magia, moldou-a, cada ponto no glifo prendendo-se a um nó em Emrakul que Jace criava instantaneamente. Jace liberou o poder total do feitiço.
A luz explodiu da lua.
Um feixe frio e prateado atingiu Emrakul das alturas.
Ele banhou a criatura, envolveu-a... e a criatura esticou-se. Em direção à luz, em direção à lua.
A distorção era fisicamente impossível. Diante dos olhos de Jace, a forma de Emrakul curvou-se através da luz para a lua, esticando-se, esticando-se e então...
... estalou.
Emrakul dobrou-se, desmoronou. Ela desintegrou-se como um pergaminho fino polvilhado com vidro, compactando-se no nada de uma forma que nenhuma criatura do tamanho de Emrakul deveria. Ou poderia.
A luz apagou-se. Emrakul se fora. Eles venceram.
A face prateada da lua brilhava com os padrões triangulares do glifo. Marcada. Cicatrizada. Selada.
Por um momento, o único som foi o agitar de folhas secas ao vento. Ao lado dele, Tamiyo caiu de joelhos e vomitou.
***
Liliana
Ela ainda vivia.
Sentia-se exultante. Conhecera o deleite muitas vezes antes. O dia em que recuperara sua juventude. Quando matara os senhores demônios Kothophed e Griselbrand, ouvindo seus gritos de morte. Cada um daqueles momentos parecera uma trapaça; o melhor tipo de trapaça, onde você se safa e ainda vence no final.
Mas este momento era ainda mais doce. Talvez fosse porque ela realmente soubera que ia morrer. Talvez fosse porque ela tão precipitadamente enfrentara Emrakul em seu orgulho e sede de controle e, no entanto, nenhum deles estaria vivo se ela não o tivesse feito. Talvez fosse porque não havia mais Emrakul. Sua mácula, seu gosto, desaparecera de Innistrad, e tudo estava melhor em sua ausência.
Apenas pensar em Emrakul a fazia estremecer. Estivera tão perto da morte. Ou algo pior. Ela encarou a lua. Que você apodreça lá para sempre. Conheça a consequência de se opor a Liliana Vess.
Os diversos Planeswalkers reuniram-se ao final de um dia muito longo. Após a batalha com Emrakul ter sido vencida, ainda havia fogos para apagar, olhos para fechar, luto para consolar, feridas para curar... ou não, no caso de grande parte do trauma. Liliana não se importava muito. Cada vez que levava os limites do Véu de Correntes ao extremo, sentia-se vazia depois, como se uma parte dela estivesse faltando. Acontecera tantas vezes agora que ela nem tinha certeza se conseguia identificar o que estava ausente.
Além disso, não importava. Ela já tivera sua cota de boas ações por um bom tempo. Nenhum de vocês estaria vivo se não fosse por mim. Vocês têm sorte de eu não exigir pagamento pelo meu resgate deste mundo. Bem, ela exigiria pagamento, mas não agora e não de ninguém em Innistrad.
Era notável o que obrigações imaginárias e lealdade faziam as pessoas fazerem. Vejam as Sentinelas. Eles não deviam nada uns aos outros. Literalmente nada. E, no entanto, aqui estavam, lutando uns pelos outros, dispostos a morrer uns pelos outros. Liliana estava acostumada com o efeito de tais relacionamentos; ela dependia deles, desde que fossem com seus zumbis. Aquela era uma dinâmica de poder confiável. Mas Innistrad mostrara as limitações de sua abordagem. Zumbis eram ótimos servos, mas havia certas tarefas que não conseguiam realizar. E lutar sozinho era maravilhoso... até que não era. Quando você não estava preparado para o improvável, e não havia ninguém para salvá-lo do inoportuno.
Era uma vez, recentemente, ela pensara em alavancar as emoções que Jace sentia por ela. Ou sentira, se ela devesse admitir. Ele é apenas um menino. Um menino, e eu deveria saber melhor. Jace provara ser confiavelmente não confiável, apesar de seu sucesso recente. O que você estava fazendo com seu feitiço enquanto eu o mantinha vivo? Tentando pensar Emrakul até a morte? Embora reconhecesse que o que quer que ele fizera funcionou, isso não melhorou dramaticamente sua opinião sobre ele. Um menino. Eu deveria ter acabado com você.
Mas aqui estava uma oportunidade muito além de Jace e suas limitações. Aqui estava um grupo. Um grupo de amigos. Hoje fora uma revelação, uma revelação do poder dos amigos. Manipulados corretamente, amigos eram como zumbis melhores. Ajudando você e salvando sua vida porque eles queriam, não porque tinham que fazer.
O que mais ela poderia fazer, com amigos poderosos como estes? O que mais poderia conquistar, o que mais poderia obter? Ela sorriu com o pensamento. Eles não obedeceriam às suas ordens diretas, mas isso importava? Jace não era a única criança comparada a ela. Eram todos crianças. Nenhum deles tinha seus séculos de experiência, nenhum deles provara o poder que ela provara, seja antes ou agora, nenhum deles era tão cruel ou focado quanto ela era.
Não sabia onde o Homem de Corvo estava. Não havia sinal dele dentro ou fora de sua cabeça. O Véu de Correntes estava subjugado. Hoje fora uma lição extremamente dolorosa sobre o quão não confiável era aquela arma. Mas quando eu tiver minhas próprias Sentinelas para me curarem após cada uso... um pensamento para mais tarde. Mas gostava do som daquilo. Minhas próprias Sentinelas.
Gideon estivera divagando sem parar para Tamiyo. A soratami parecia doente, e Liliana mal podia culpá-la. Gideon era agradável de se olhar, mas ela conhecera zumbis que eram mais espertos. Gideon estava balbuciando algo sobre as Sentinelas, e como eles estavam apenas começando suas boas ações, e Tamiyo não gostaria de ser uma benfeitora também? Tamiyo balançou a cabeça, pedindo licença, com os olhos arregalados e assustados. Fazia sentido que uma maga mental fosse frágil demais. Como Jace, inútil.
Jace estava olhando para ela, com aquele olhar de cachorrinho ainda nos olhos. Pelo menos decida-se, criança! Ela conteve sua irritação. Precisava dele e de seu jeito de cachorrinho aqui.
"Gideon." A voz de Jace era hesitante, leve. Conversaram baixinho entre si, e Liliana certificou-se de não mostrar nenhum vestígio do sorriso que sentia. Sim, garoto do capuz, balbucie seu caminho hesitante em direção ao seu desejo sincero de me ajudar. Estava claro que Gideon não estava feliz com isso, no entanto. Embora Liliana não tivesse certeza se Gideon ficava feliz com alguma coisa. Você deveria pelo menos se deleitar com sua juventude e atratividade enquanto ainda as tem. Por que as crianças são tão burras?
Eventualmente, o bonitão aproximou-se. Houve mais palavras benevolentes sobre praticar o bem, mas Liliana estava focada demais no juramento para prestar atenção. Pensara extensivamente sobre a abordagem correta para o juramento. Sincera demais, doce demais, e suspeitas seriam levantadas — suspeitas que tornariam seus próximos passos mais difíceis. Mas cínica demais, reveladora demais, e essas suspeitas seriam confirmadas. Precisava de um toque delicado, uma pitada de cinismo, mas com o coração claramente no lugar certo.
Quando Gideon pediu seu juramento, ela estava pronta.
Juramento de Liliana | Arte de Wesley Burt
"Vejo que juntos somos mais poderosos do que sozinhos. Se isso significa que posso fazer o que precisa ser feito sem depender do Véu de Correntes, então manterei a vigília. Feliz agora?"
Ela disse isso com um leve sorriso, mas apenas um toque. Além disso, seu prazer era genuíno. As melhores mentiras sempre continham verdade suficiente para passarem despercebidas.
Agora era um membro das Sentinelas. Futuros se desdobravam em sua mente, cheios de promessa e ambição.
***
Jace
Jace estava exausto. Fora o dia mais longo de sua vida, e tudo o que queria era dormir; um sono livre de sonhos ou de qualquer pensamento.
Mas havia alguém com quem precisava falar primeiro.
Ele a encontrou nos confins distantes de Thraben, sentada nas ruínas de uma pequena igreja. Restavam poucos edifícios em Thraben de pé, e esta igreja não fora poupada.
Santuário Abandonado | Arte de Vincent Proce
Ela apenas estava sentada ali, com as pernas cruzadas, os olhos fechados. Jace sentiu-se estranho interrompendo um momento tão privado. Mas precisava saber.
"Tamiyo...? Você está... posso...?" Jace não sabia como fazer sua pergunta. Tamiyo abriu os olhos, o rosto ainda cheio do enjoo e pavor que demonstrara desde que terminaram de lançar o feitiço.
"O que aconteceu lá fora, Tamiyo? Você estava lá, ligada mentalmente a mim, e então você... não estava. Você desapareceu. O que aconteceu com você?"
Tamiyo ficou sentada ali e começou a chorar. Lágrimas caíam de seus olhos, uma após a outra. Plip-plip, conforme batiam nos escombros de pedra abaixo.
Suas palavras saíram entrecortadas, hesitantes. "Nissa caíra. O feitiço estava em perigo de colapsar. Eu não sabia o que fazer, como ajudar."
Jace ficou surpreso. "Então Nissa gerou aquele poder sozinha? Impressionante. Eu pensei que tivesse sido você, com o segundo pergaminho."
Tamiyo olhou para ele, tristeza e desprezo ambos em seus olhos. "Não. Você não entende. Fui eu. Com o segundo pergaminho. Foi de lá que veio a energia."
"Mas isso é maravilhoso! Você nos salvou! Salvou toda Innistrad, tudo de... tudo! É porque era um dos pergaminhos de ferro? Um dos pergaminhos que você não queria abrir?"
"Cale a boca, Jace! Ouça, apenas ouça. Não fui eu. Ela... me possuiu. Você entende? Não fui eu! Eu estava lá, em meu próprio corpo, indefesa enquanto ela entrava e assumia o controle. Meus olhos, minhas mãos, minha voz... ela assumiu o controle de tudo. Eles não eram meus." Seu choro tornou-se soluços profundos.
Uma voz voltou a ele, a voz dela enquanto ele observava suas peças de xadrez se esfaquearem e se matarem. Todas são minhas peças, Jace Beleren. Sempre foram. Eu apenas não quero mais jogar.
"Eu... sinto muito, Tamiyo. Não sei..."
"Mas essa não foi a pior parte. O pergaminho que abri. O segundo. Você estava certo. Eu não deveria tê-lo aberto. Uma promessa feita há muito tempo, pela qual um dia terei que responder. Mas o feitiço que ela leu... não era o feitiço original. O pergaminho que ela usou, ele conjurou... um feitiço diferente."
Emeria. De algum lugar surgiu um longo estilete, e ela começou a escrever no pergaminho. Jace começou a tremer.
"Foi alterado. Como ela fez isso? Como ela pôde fazer isso?" A voz de Tamiyo estava à beira do pânico. "Enquanto este monstro assumia o controle do meu corpo e lia um pergaminho, um pergaminho que deveria ter trazido devastação a tudo neste plano... em vez disso, alimentou um feitiço que prendeu a si mesma aqui. Como isso aconteceu, Jace? Por que aconteceu? O que acabamos de fazer?"
"Eu... não sei." Jace não tinha mais palavras para ela. Nem para si mesmo.
Tamiyo respirou fundo. "Eu lhe disse antes, Jace. Às vezes nossas histórias precisam acabar. No entanto, aqui estamos, cada um buscando prolongar sua história, não importa o custo. Mas e se todas as histórias forem apenas a história dela, todas a serviço de algum destino terrível esperando para se desenrolar?" Tamiyo olhou para a lua.
"Nós realmente vencemos?" A voz de Tamiyo não era mais temerosa, mas lamuriosa. Jace não tinha resposta. Eventualmente, ela se levantou e voou para o céu escuro. Não houve palavras de despedida.
Jace sentou-se por um tempo ainda mais longo. Olhou novamente para a lua em sua luminescência prateada, o glifo ainda brilhantemente inscrito em sua superfície, um testemunho do que as Sentinelas haviam alcançado. Nas profundezas daquela lua estava a força mais poderosa e destrutiva que qualquer um deles já encontrara. As palavras do anjo apunhalavam sua cabeça, adagas de um destino não realizado. Isso está tudo errado. Estou incompleta, insatisfeita, incipiente. Deveria haver flores, não ressentimento estéril. O solo não foi receptivo.Não é o meu momento. Ainda não.
Sua espinha gelou. Não é o meu momento. Ainda não. Ele desviou o olhar da lua e foi em busca de uma cama segura para encontrar um esquecimento temporário.